Terça-feira, 12 de Dezembro de 2006

 

 

   

Foi por meados de Julho, fazia um calor desgraçado, o padre da freguesia resolveu arrancar as batatas da veiga que tinha junto ao Côa.

Era uma longa tira semeada de batatas, bandeiras de milho a separar as leiras, algumas abóboras e pés de feijão vermelho de permeio. Ao fundo a água do açude a correr em fio, no topo o cabeço repleto de giestas negrais, e o caminho descendo o barranco, quase a pique. Por todo o campo, ainda um agradável cheiro a rosmaninho.

Começaram pela madrugada, um grande rancho de homens e mulheres, e toda a manhã arrancaram as batatas à enxada. Pelo meio do dia fizeram uma pausa. Estenderam o farnel à beira do rio e merendaram à fresca dos freixos: arroz de perdiz, pão caseiro, queijo e beberam palhete da adega do padre. Os bois pastaram, mansos, na pequena lameira, junto às poldras. À meio da tarde as mulheres fizeram a apanha: miudinhas para um saco, medianas para outro e grossas à parte. Os homens ensacaram, coseram e carregaram o carro. Ao todo setenta talegos bem apertados entre os estadulhos, abóboras e feijoeiros em cima. O padre estava satisfeito. A produção fora abundante.

O criado Joaquim apertou a carga, pegou na aguilhada e chamou os bois. A meio do barranco eles estancaram ao peso do jugo. O Joaquim incitou-os:

- Anda boi! Vai boi, - limpou o suor da testa, pôs uma pedra atrás do rodado - vamos iça! Iça! – depois outra – anda boi! Anda!

Os bois imparam, num descomunal esforço, patas fincadas em terra, espumando pelas ventas, mas as rodas não desandavam.

-Ah boi! Iça! Iça boi! Vá, Iça! – Berrou o Joaquim. E os Bois, não se moviam!

 O padre, aflito, levou as mãos à cabeça:

-Que todos os santos nos ajudem – e procurando o lenço na batina - este calor não é bom para gente, quanto mais para bichos!

O Joaquim impacientou-se. Empunhou a vara:

Isto não vai lá com rezas a Deus , mas ao diabo! E virando-se para o patrão - ora tape lá os ouvidos senhor abade, não vá ouvir o que não quer!

E picando os bois no lombo até lhes fazer sangue - Ah bois dum caralho! - E picando com mais força ainda - andais ou não, filhos duma puta? E picando violentamente – Ah bois dum cabrão!

Fartos de tantas injúrias, num Hercúleo esforço os bois lá arranjaram forças e num ímpeto, arrancaram barreira acima.

O padre, corado de vergonha, mas contente, levantou a saia da batina e correu atrás do carro:

- Irra homem… mais devagar! – e chegando-se ao Joaquim, com uma palmadinha nas costas - Abençoadas palavras essas, que até os bichos entendem! – e levantando a mão – Eu te abençoo, meu filho… que foram muito bem deitadas!

E o Joaquim naquela bonomia de resposta pronta, que lhe era tão peculiar, atalhou logo:

- Haverá lá coisa melhor, que ter Deus em patrão?

O padre sorriu…

 

 

 



publicado por Manuel Maria às 09:17 | link do post | comentar

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