Terça-feira, 21 de Novembro de 2006

 

  

     

      É pouco provável que um advogado enriqueça a trabalhar honesta­mente. Pode, quando muito, ter uma vida desafogada.

Por este motivo, muitos continuam a advogar, depois de reformados, com autorização para o efeito dada pelo bastonário da Ordem, e mantêm­-se no exercício da profissão até idades muito avançadas.

De um lado, porque têm necessidade de trabalhar e porque o fazem com gosto; por outro lado, porque sabem que, manter a actividade inte­lectual, é essencial para conservar a lucidez de espírito.

      Mas há alguns que, por refinamento do humor ou por traição da natu­reza, escrevem peças forenses que, por vezes, saem do comum.

É o caso do requerimento de um nosso colega, de uma comarca do Sul do país, apresentado em 27 de Janeiro de 1994, cuja cópia figura no meu arquivo pessoal e que a seguir reproduzo:

 

«Exmo. Senhor Dr. Juiz do... Juízo Cível da Comarca de...

Proc. n.o...

F... e mulher, nos autos do processo cotado, que moveram contra FI... e marido, notificados para aperfeiçoarem a petição, pedem vénia para dizer o seguinte:

Quando, no início da segunda metade do século XIII, D. Henrique de Castela (tio-avô materno do nosso rei D. Afonso Henriques) assaltou Roma, não congeminou destino mais adequado para a Basílica de São Pedro do que o de estrebaria.

Em conformidade, afeiçoou os altares a mangedoras e, com um bom ordenamento de espaço, logrou alinhar na igreja as centenas de cavalos que constituíam a sua equestre equipagem.

Mas, como rebotalho desta, sobrava um burro. Burro achacado dos anos, derrotado das fadigas e escanzelado da fome, a quem nunca fora pro­porcionado o conchego de um tecto que lhe abrigasse a orgadura, nem um lastro de palha que lhe amaciasse o sono.

      E sobrava, outrossim, uma mangedora; justamente a que, correspon­dendo ao altar-mor, ficava desalinhada das destinadas aos cavalos.

Num singular gesto de magnanimidade, o castelhano destinou este solene lugar ao asinino. E num gesto de altiva teimosia este jumentídeo párea recusou o ingresso na igreja do Apóstolo.

Não era só ele, burro, que desdourava a dignidade do templo. Era tam­bém o templo que afrontava a sua dignidade de burro, vitaliciamente votado ao estado de ente sem eira nem beira, nem lenho de figueira.

Era o burro, não a catedral, que merecia a bem-aventurança que Jesus atribuiu à pobreza.

      Nestes autos o burro do apólogo é o signatário.

      Transcorrido mais de quarto de século a articular como articulou, não se sente este com aimbos de cambiar o falejo. Não é afronta ao Tribunal, é teimosia de velho. E negar a um velho o pendor de ser teimoso é aten­tar contra as forças da natureza. E as forças da natureza nunca ninguém as venceu.

Com o desgosto de, pela primeira vez, recusar um convite de que deze­nas de vezes aproveitou e a mágoa de poder ferir a susceptibilidade de uma magistrada que muito respeita e estima, o signatário não aperfeiçoa a peti­ção, por a não saber aperfeiçoar, nem o douto despacho lhe apontar o sen­tido desse aperfeiçoamento.

      Respeitosamente, requer se digne de tomar em consideração para os efeitos que tiver por convenientes.

      Junta duplicado.

      O advogado»

 

(segue assinatura e carimbo.)

 

Braz, Manuel Poirier, in Cartas A Um Jovem Advogado, pág. 136, Editorial Presença, 2006

 

 



publicado por Manuel Maria às 10:16 | link do post

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