A vela apagou-se. O silêncio escuro da sala é atravessado pela chama intermitente da lareira. As rosas da jarra estão demasiado maduras e começam já a decair, folhas pálidas, como lágrimas claras e cansadas sobre a mesa.
E o silêncio… Da porta acorre o som abafado da chuva a cair – na rua a água arrasta as folhas mortas.
E novamente o silêncio.
As caleiras pingam. O boeiro corre.
-Ponho mais um cavaco?
-Sim.
-Este grande?
-Sim.
Aviva-se a lareira. A sala transforma-se. As paredes em redor afastam-se, as janelas perdem as sombras. As copas lá fora inclinam-se à força do vento.
Avivam-se as lembranças. A minha mão desliza até à testa. Já não encontra a testa lisa de criança, a franja grande e preta da meninice, mas uma calva dura e enrugada, com sobrancelhas espessas.
O silêncio… E lá fora as árvores que rumorejam, são ainda as do jardim do meu pai.
A cabeça dói-me, fecho os olhos. Ai esta música da chuva e das árvores! Volto a abri-los – a infância já não existe.