Sexta-feira, 27 de Outubro de 2006

 

 

 

 

            A tardinha estava quente e o céu limpo; soprava uma brisa que agitava os pastos e os ramos das árvores. Dirigi-me a um pequeno bosque de pinheiros, no fundo do vale, a meio caminho da lagoa.

A vereda descia as fragas, serpenteando pelos prados e pela colina repleta de vegetação rasteira. Caminhei devagar, pois estava cansando da longa subida da serra. Passei por castanheiros amarelecidos pelo Outono e por alegres arbustos de carqueja no meio do crepúsculo azulado das colinas. À entrada do bosque, pousei a mochila e estendi-me na erva. Acima de mim, na crista da colina, erguia-se um pequeno aglomerado de com seis ou sete casas, das quais só conseguia ver os telhados de zinco. Entre elas, lá estava numa pequena rocha, a de Afonso Costa com o seu telhado em zinco vermelho, descolorido pelos rigorosos Invernos. Mais acima, a meia altura da montanha, erguia-se solitária, a capelinha da Senhora das Neves, cuja romaria em Junho, marca o início da transumância dos rebanhos.

Deitado sobre a relva, contemplei o firmamento com os olhos bem abertos. O céu acendia-se. Do ocidente, que se apresentava vermelho, começava a lua a surgir, grande e magnífica. Estive assim por instantes a ver o sol a pôr-se e a lua a nascer. À excepção do regato a correr, tudo estava calmo, e a fria solenidade e espessa negritude do pinhal cercava-me por todos os lados. Resolvi prosseguir viagem, antes que escurecesse por completo.

Enquanto seguia pela vereda, ía imaginando versos e fantasiando. Meia hora mais tarde, estava perdido numa confusão de carreiros florestais e sombrios. Comecei a ficar angustiado. Foi então que repentinamente me achei em cima de uma encosta muito inclinada, e abaixo de mim, num vale cumprido, o barulho de chocalhos confundido com o balido de ovelhas, uma pequena casa de xisto com uma pequena janela iluminada.

O caminho que me trouxera ali desaparecia encosta acima no limite da floresta, por isso desci cautelosamente uma pastagem íngreme em direcção à casa. Passei uma pequena quintinha, desci uns pequenos degraus de pedra, atravessei um ribeiro e finalmente saltei uma pequena vedação. À minha frente, um homem com uma lanterna na mão, recolhia o rebanho no bardo.

Como tencionava a pedir-lhe indicações sobre o caminho a seguir, dirigi-me a ele imediatamente. Quando me pressentiu, voltou-se e observou-me por um instante com um misto de desconfiança e antipatia. Mas de súbito, ainda antes de eu poder dizer alguma coisa, estendeu-me a mão e exclamou:

- Vossemecê não é o sujeito que há anos se perdeu no Vale de Rossim? Fui eu que lhe indiquei o caminho. Ainda bebemos uma garrafita que vossemecê trazia, não se lembra?

Foi então que reconheci naquele o velho Barrigas, o único pastor da serra que odiava leite. Tinham passado de facto dez anos desde esse dia, que eu já nem lembrava, mas ele não se esquecera.

Convidou-me a entrar. O rés-do-chão estava silencioso e escuro. Do chão em terra batida saía uma velha escadaria em madeira, que conduzia a um piso superior, também em madeira. Este era amplo, simples e com poucos móveis: uma mesinha, duas ou três cadeiras, um banquinho de três pés, um pequeno vasal com alguns pratos e copos de esmalte pintado, e na laje onde o lume ardia, uma panela de ferro com o caldo a ferver. Debaixo da luz difusa de uma candeia, a mulher do Barrigas tinha um grande molho de feijão verde para descascar.

- Ò mulher, hoje temos visitas. -E batendo-me com força nas costas - aqui o doutor, que andou com o nosso Zé na escola, lembras-te?

A trança branca enrolada da mulher, formava-lhe um ninho sobre a cabeça. Ela levantou-se e as pequenas chamas da candeia reflectiram-se e brilharam-lhe nos olhos.

Saudei-a e sentei-me no banquinho de três pernas. O Barrigas serviu de uma garrafa muito suja um mosto novo e vermelho claro, já bastante forte, que me aqueceu maravilhosamente.

- Desta vez, doutor, sou eu que ofereço.

Serviu ainda uma broa caseira, chouriço e presunto. Depois de comer perguntei a que distância ainda estava da Vila, fazendo intenção de continuar a viagem, mas eles insistiram que ficasse. Aproximei então o banquinho do lume e apanhei uma mão-cheia de feijões, que ajudei a descascar.

Ficámos até tarde a conversar. Ele falou-me das suas caminhadas pelos vales arborizados e passagens da serra, dos costumes dos pastores, dos acampamentos nas velhas malhadas, das tradições que se estavam a perder, dos rebanhos que diminuíam com o abandono da pastorícia.

Passaram mais uns anos sobre este agradável serão e desde aí fiquei amigo do velho Barrigas. Nos seus modos rudes, no seu olhar ladino e na sua voz arrastada e mansa havia qualquer coisa de velho pastor céltico que conquistava as pessoas. Era sem dúvida uma figura extraordinária, descendente da velha linhagem dos lusitanos.

Quando morreu e eu o soube, foi como ter perdido uma parte de mim, como perder um antepassado muito distante, mas querido.

 

 



publicado por Manuel Maria às 15:29 | link do post | comentar

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