Quarta-feira, 27 de Setembro de 2006

 

 

 

 

A minha vida confunde-se com a daquele centenário castanheiro do Romão, à beira do caminho, mesmo à saída da aldeia, quando se vai para a Balsa. Sou mais castanheiro do que se pensa e ele, mais homem do que parece.

Somos amigos há mais de quarenta anos. É quase uma vida, quarenta anos! Mais tempo ainda do que duram muitas das relações humanas. Por isso somos velhos amigos de tu. E não é para menos: Ele viu os meus antepassados, que lhe pisaram a raiz e reconhece-os agora na minha voz, na minha cara, no mesmo jeito de rebuscar ouriços.

Ai velhinho castanheiro do caminho, ai casa de pedra dos meus avós, ai cruz do chão da forca, ai romaria do Senhor dos Aflitos, ai Elvira Polónia de mensageiro na mão lendo ao serão a crónica dos dois compadres, ai Chico Bárbara a levar as vacas montando em pêlo o burro preto, ai ovos tingidos na Páscoa a casca de cebola, ai caravelas de vento feitas de cana e pregadas com picos de espinheiro, ai lançamento de bogalhadas pelas fisgas das portas – parece que lhes ouço ainda o barulho no soalho do corredor, ao soar das trindades- ai Manuel Rasteiro a bater o trigo na eira, debaixo do sol de Julho.

Estou mesmo a ver-te Zé Vicente, todo osso, já alquebrado, palmilhando sobre as pernas bambas o caminho de Aldeia da Ribeira, repetindo o constante estribilho: bô s’tá, bô s’tá, bô s’tá…, misteriosa ladainha que saía dessa boca de viajante. A fronteira da tua alma, Zé Vicente, os limites do teu mundo, eram os 10 km de ida e volta, entre o velhinho castanheiro e a tasca do João do Escabralhado.

E vejo o Tavares e a Maria das Dores, ele muito franzino, ela encurvada, ambos de preto, a desaparecerem na curva do caminho carregando às costas as cadeirinhas de junco, que iam vender no mercado de Alfaiates.

O Tavares e a Maria, onde irão eles agora! Há mais de trinta anos que partiram naquele caminho! Os dois abraçados enregelados, sob o grande temporal que os surpreendeu, num dos regressos do mercado.

Que saudades tenho deles e de todos os outros vultos que desapareceram na curva daquele caminho, sob o centenário castanheiro do Romão. Tudo são fantasmas. Agora há só nuvens de vozes, nuvens altas de almas. Agora, apenas a solidão do ermo me rodeia…

Ó Zé Vicente, ó Tavares, ó Maria, como eu vos queria agora aqui! Também eu vendo cadeirinhas de junco, também eu dou comigo a repetir: bô s’tá, bô s’tá, bô s’tá… quando a indefinida mágoa me abraça, ao rebuscar ouriços sob o velhinho castanheiro do Romão.

É nestas horas, que a alma me pesa como um rochedo… e o rochedo é um alto-relevo da lembrança!

E há lembranças que vivem séculos… como os castanheiros!

 

 



publicado por Manuel Maria às 15:59 | link do post

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