Quarta-feira, 13 de Setembro de 2006

 

  

            Na pequena taberna da praça encontrei, logo ao entrar, a minha mesa junto á lareira ocupada pelo Chico Pina. Tinha diante de si um baralho de cartas e um copo de tinto vazio.  Aproximei-me e bati-lhe no ombro:

           - Chico, que fazes aqui?

          O Chico traçou as cartas antes de lavantar os olhos. Depois aqueles olhos bondosos, redondinhos, fixaram-me com amizade.

            - Estou a matar o tempo, não vês?

            - Sim, bem vejo. Mas quando saíste do hospital? isso está melhor?

           - Oh pá, estou fodido! - atirou desanimado- eles abriram-me, mas não fiquei bem... 

           -Como sabes? vais  ver que o pior já passou. Deixa lá!

           -Olha e se nos deixássemos de coisas e bebessemos uma garrafa?

          Pôs as cartas de lado, o vinho chegou e brindámos. Bebemos o nosso litro em paz e o Chico mandou vir umas tiras de presunto, e quando eu disse que ainda tinha sede, mandou vir outra. O vinho brilhava nos copos e o meu amigo estava cada vez mais animado e falador. Voltou a pegar nas cartas e a traça-las. Os olhos infantis cintilavam e os dedos esguios percorriam agilmente o baralho com gestos precisos.

         Ele falou-me da  agitada vida que levava e já não tinha sentido, do filho no último ano do liceu e já não veria na universidade, da antiga amizade das nossas famílias, enquanto o seu rosto se iluminava e a sua voz terna e ardente soava cada vez mais baixa.  Por fim propôs:

          - E se jogássemos uma partidinha?

          Ficámos a jogar até bastante tarde. Depois separámo-nos alegremente. Há dias recebi o seguinte sms:

           "O Chico Pina já se foi".

    



publicado por Manuel Maria às 14:48 | link do post | comentar

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