Sábado, 2 de Setembro de 2006

 

 

  

     Quando eu morrer deitem-me nu à cova

Como uma libra ou uma raiz,

Dêem a minha roupa a uma mulher nova

Para o amante que a não quis.





Façam coisas bonitas por minha alma:

Espalhem moedas, rosas, figos.

Dando-me terra dura e calma,

Cortem as unhas aos meus amigos.





Quando eu morrer mandem embora os lírios:

Vou nu, não quero que me vejam

Assim puro e conciso entre círios vergados.

As rosas sim; estão acostumadas

A bem cair no que desejam:

Sejam as rosas toleradas.

Mas não me levem os cravos ásperos e quentes

Que minha Mulher me trouxe:

Ficam para o seu cabelo de viúva,

Ali, em vez da minha mão;

Ali, naquela cara doce...

Ficam para irritar a turba

E eu existir, para analfabetos, nessa correcta irritação.





Quando eu morrer e for chegando ao cemitério,

Acima da rampa,

Mandem um coveiro sério

Verificar, campa por campa

(Mas é batendo devagarinho

Só três pancadas em cada tampa,

E um só coveiro seguro chega),

Se os mortos têm licor de ausência

(Como nas pipas de uma adega

Se bate o tampo, a ver o vinho):

Se os mortos têm licor de ausência

Para bebermos de cova a cova,

Naturalmente, como quem prova

Da lavra da própria paciência.





Quando eu morrer. . .

Eu morro lá!

Faço-me morto aqui, nu nas minhas palavras,

Pois quando me comovo até o osso é sonoro.





Minha casa de sons com o morador na lua,

Esqueleto que deixo em linhas trabalhado:

Minha morte civil será uma cena de rua;

Palavras, terras onde moro,

Nunca vos deixarei.





Mas quando eu morrer, só por geometria,

Largando a vertical, ferida do ar,

Façam, à portuguesa, uma alegria para todos;

Distraiam as mulheres, que poderiam chorar;

Dêem vinho, beijos, flores, figos a rodos,

E levem-me - só horizonte - para o mar.
 
 
Vitorino Nemésio



publicado por Manuel Maria às 20:44 | link do post | comentar

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