Segunda-feira, 28 de Agosto de 2006

 

 Manteigas - foto de Ana Ferreira, 2002

 

 

A pensão está igual há vinte anos -. vai em breve para obras, disse-me o Luís-. Parei do outro lado da estrada, junto ao buxo e observei a silhueta do edifício durante algum tempo. Depois atravessei. No primeitro andar lá estava pintado o nome do estabelecimento seguido do número de telefone antigo ainda começado em 471. Ao tempo que mudaram os três primeiros digitos! Decidi entrar e ver o que era o jantar.

            Um grande ruído vinha da sala de refeições, que estava à pinha: Gritos de crianças correndo pelo café, empregados para trás e para a frente, copos a tenirem, travessas no ar, e ao balcão um grupo já de meia idade bebia vinho branco e comia pevides.

            Não valia a pena pensar em jantar sossegado, com aquele barulho. Aproximei-me de um canto do balcão para beber também uma taça de branco da região. Depois íria deitar-me.

            No grupo havia velhos conhecidos, dos meus tempos de juventude, mas agora todos mudados. Revi numa cabeça calva, com olhos redondinhos, faces coradas, cigarro no canto da boca um  colega de escola.  Estavam todos agora mais velhos, instalados em proeminentes barrigas e falavam sobre a reunião dos bombeiros, do ensaio da "Boa União" e do preço da madeira cobrada pelos serviços florestais.

            O tempo tinha passado mas tudo continuava, no entanto, ridiculamente, reconhecível.  Aquilo que menos mudara fora o salão de entrada. Lá continuavam a cabeça embalsamada de cabra, sobre a porta da sala de jantar, com os seus quatro chifres; a capa de pastor em lã castanha, as cordas do bardo, o cajado e os "skis" de madeira pendurados, com umas botas grosseiras,  numa das paredes.

            O bom vinho branco da região continuava  a fluir, igualmente macio e alegre, com um brilho amarelo vivo no copo de três e despertava em mim a memória adormecida daqueles bons tempos de outrora.

            Bebi mais um.   Depois outro, e mais outro até lhes perder a conta. E fui-me chegando ao grupo e participando na conversa, como um normal forasteiro, que de repente se viu atirado para o meio deles. O convite também não foi para menos:

              - Ó amigo, chegue-se para cá e junte-se à gente!   

            O Luís partiu um queijo, vieram uns cestos de pão, abriram-se mais umas garrafas e ao fim da noite, subi de gatas ao primeiro andar. Há que tempos o não fazia!

            Não sei que me deu, que entrei descalço como antigamente e abri a porta também com mil cuidados, não fossem a Ti Maria e o Ti João ainda estarem acordados.

            Depois me lembrei: Que idiota eu sou,  eles já cá não dormem há tantos anos... E conclui então que tudo continuava como antigamente, só uma coisa mudara naquela casa: Os meus padrinhos já não viviam por cima do restaurante.

 



publicado por Manuel Maria às 11:02 | link do post

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