Segunda-feira, 6 de Novembro de 2006

 

 

 

             Várias sombras me têm acompanhado ao longo da vida. Uma delas é a da minha avó Maria da Luz. Lembro-me dela, a partir do meu quarto ou quinto ano de vida, já toda nervo, encurvada, a cair por terra, olhos espertos, de um castanho já desbotado pela velhice, mas com muita ternura. Era de poucas falas, muito simples e uma enorme capacidade de sonhar.

            Cresci com ela e as suas histórias sobre a terra, a família e fui educado com um enorme sentimento de pertença ao campo. Foi com ela que herdei o amor pelas árvores, pela terra, pela água… Bastava que a bica do poço deitasse menos para ela adoecer de febres. Ficava horas esquecidas a ver escorrer o musgo humedecido, alimentado pelo fio azul de água que brotava da boca da presa no quarteirão do meio. As vezes subíamos os dois à mina do poço, mesmo por baixo da campo dos morangueiros, e ali ficávamos, à sombra do carvalho, os dois sentados na erva, calados, ouvindo a música da água caindo na regadeira. Eu deitava a cabeça no seu colo. Ela não dizia uma palavra: só passava a mão pelo meu cabelo farto, negro, e víamos o sol desaparecer atrás do monte, por cima da vinha do João Monteiro, sobre a mais bela paisagem do mundo – a paisagem dos sonhos doces em que me criei.

            Plantou e cuidou das árvores e das flores até aos últimos dias. E já prostrada, mantinha o pé na ilusão e teimava em sonhar. Plantava árvores, compunha as latadas ainda. Foi ela que plantou a roseira, que dava aquelas rosas amarelas, de um cheiro intenso, adocicado, no cantinho mais abrigado da horta, perto do abrunheiro. Eram as rosas mais lindas e cheirosas, que eu vi até hoje.

-Esta roseira - dizia- João, é tua. Plantei-a no dia em que nasceste.

A suavidade com que dizia isto, era de uma extraordinária frescura e pureza. Ninguém conseguia dizer tanto, com tanta simplicidade, tanto amor, em tão poucas palavras. Regou essa roseira com desvelo, anos a fio, até à última réstia das forças.

A sombra da minha avó foi-se apagando aos poucos, de cansaço. A água deixou de borbulhar na madre do poço e correr pelo caneiro da mina. O campo de morangos perdeu-se. As regas foram escasseando à roseira, que secou.

Já não sinto o calor das suas mãos na minha cabeça, já não ouço a sua voz a derreter-se de ternura, quando dizia:

- Esta roseira é tua.

Só uma coisa se mantém intacta na memória – o seu olhar meigo. Ainda hoje aquela sombra me olha à boca da mina ou lá no cantinho do abrunheiro, com a mesma ansiedade e o mesmo enlevo de antigamente. Talvez porque o amor seja a única coisa imperecível neste mundo.

O verdadeiro amor é eterno. 

           

 



publicado por Manuel Maria às 14:11 | link do post | comentar

Sábado, 4 de Novembro de 2006

 

 20051111133847-dos-que-callan.jpg

 

Há poemas

Que são assim:

Falam de amor,

Esse sentimento

Doce,

Mas perigoso,

Que ateia

O fogo das manhãs,

Incendeia

o interior das flores.

 

 

 



publicado por Manuel Maria às 17:48 | link do post | comentar

Sexta-feira, 3 de Novembro de 2006

 

Fev,03-057.jpg

 

 

 

O trágico

É ter urgência

De partir

Nessa imensidão de azul

Que assola os sentidos,

Sentir a volúpia da ave,

Ouvir a voz sibilada do vento,

E ter os braços atados

Por dentro,

As penas doridas

Sobre os flancos.

 



publicado por Manuel Maria às 14:08 | link do post | comentar

Quinta-feira, 2 de Novembro de 2006

 

 luta.JPG

 

 

            Ia a sair do prédio, após o almoço. Estava a tarde cinzenta e ameaçava chover. Ele encostara-se a um dos pilares da entrada e aproximou-se.

            -Boa tarde – disse – para onde vais?

            - E que tens tu a ver com isso? – Respondi.

            -Muito. Não me reconheces, amigo?

            -Não – respondi timidamente – Quem és tu?

            -Já ouviste falar no teu “alter-ego”?

            -Naturalmente. Porque perguntas?

            -Porque eu sou o teu, meu menino.

            Só então o observei com mais atenção. Tinha-o imaginado um pouco diferente, com aspecto de um indivíduo muito mais velho. Devia andar pela casa dos quarenta, rosto pálido e bem escanhoado. Os olhos eram pequenos, vivos, castanhos, e por cima deles, estavam umas sobrancelhas escuras e uma testa longa, meia calva. A roupa estava empoeirada mas apresentável e não trazia qualquer bagagem. Apenas uma firme vara de marmeleiro na mão. A velha boina espanhola, assentava-lhe bem à cara.

            -Qual foi a tua ideia de me insultares no blog?

            -Qual blog? -Fiz-me desentendido – Que insulto? – Mas ele fez um ar sério.

            - Do teu, meu menino. Falo do teu post desta manhã!

            -Ah, bem. Então é isso… – gaguejei.

            - Sim meu rapaz. – E franzindo o sobrolho – Com que então… eu sou um marmanjo, que se anda a fazer passar por ti, é? – E acariciando o varapau – Quem é aqui o marmanjo? Vá, diz-me!

            Pela sua maneira de falar vi imediatamente que estava metido num grande sarilho. Aproximou-se da minha cara e cerrou o punho.

            -Então? Não dizes nada? -Provocou.

            -Não digo o quê?

            -Devias ter vergonha! – Gritou-me. Ao que eu respondi com um desafio cheio de desdém.

            Ele subiu o degrau da entrada, e interpondo o pé na porta, puxou-me pelo colarinho, furioso. Um murro dele iniciou a luta. Andámos embrulhados uns minutos, ambos usando toda a força. Depois, lentamente, comecei a ceder até ficar caído no chão, ferido. À despedida, voltou-se, e deu-me com o varapau. Uma pancada seca, lancinante, nas costas.

            - Agora – sentenciou – já sabes o que é um correctivo à moda do Norte. E não precisámos de ir para as traseiras do tribunal de Fafe! – E dando-me um pontapé – Pois não?

            À despedida ainda me gritou, que esperava que tivesse aprendido a lição, pois era aquilo que me esperaria sempre que chamasse o nome dele à colação no meu blog.

            Por agora vou ficar uns dias de baixa. Diz-me a psicóloga que tenho o ego ferido e diagnosticou-me uma “multi-personalidade com traços pert bipolares”. Não sei que raio de doença é esta, mas pelos vistos é coisa séria, pois afiança que não tem cura.

            Entretanto, cá por mim, deste “alter-ego” nunca mais me ouvirão falar. Juro! Pela minha saúde, eu juro!

 

 

 



publicado por Manuel Maria às 15:08 | link do post | comentar

 

  Alter-Ego 2003,  Andrew Folan

           

Disse aqui uma certa senhora, que anda um “maduro”, fazendo-se passar por mim, a enviar-lhe SMS’s. Deixem-me protestar veementemente a minha inocência e insurgir-me contra esta arreliadora usurpação de identidade. Fica porém o aviso: Se alguma senhora receber um SMS do número “tal e tal” de um “ele”, dizendo que sou “eu”, fique sabendo que esse “ele” que se diz “eu”, é “ele” e não “eu”.

            Como o facto é grave e susceptível de procedimento criminal, este aviso vai para o “marmanjo”: Se te apanhar em flagrante, meu amigo, arrasto-te pelos colarinhos até às traseiras do tribunal de Fafe e aplico-te um “correctivo à moda do Norte”.

            E como não sou homem de levar desaforo para casa, pago na mesma moeda: Posto aqui um poema – às tantas roubado também– que esse marginal há uns meses enviou para um outro Blog e vou assina-lo como se fosse “meu”, só para ver se esse “gajo” também gosta que se façam passar por “ele”:

           

                                 "Janela indiscreta"

                                 

                                        A Janela

                                Abre para os Aliados,

                            Abre para o caos da praça

                               Esventrada pelas obras,

                            Para a luz dos candeeeiros

                                     Coada á chuva.

 

                                 A janela abre-se

                               Para o último cigarro

                       Que fumas sobre o parapeito,

                         Abre para o bater das horas

                                 Na torre vizinha,

                            Para o ardor dos beijos

                          No branco frio dos lençóis.

                           

                            E o desejo se faz ao mar,

                            Tua pele carta de marear,

                            Minha mão firme ao leme,

                            Marinheiro experimentado,

                                   Abrindo à proa

                            Ondas sucessivas de prazer.

 

                                 "Manuel Maria"

 

 



publicado por Manuel Maria às 09:29 | link do post | comentar

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