Segunda-feira, 11 de Setembro de 2006

 

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Tem dó de quem não dorme,
de quem passa a noite à espera
que desperte o silêncio.
O vento devia cantar nos plátanos
com a lua nova, ser mais uma folha
feliz nos ombros do outono.
Mas o vento parecia ter endoidecido:
de leste a oeste varria
a rua, varria a noite: o vento
alegremente
varria o mundo ― em turbilhão
arrastava o lixo mil vezes imundo.
E o sono chegava.

 

Eugénio de Andrade, O Sal da Língua,



publicado por Manuel Maria às 13:34 | link do post | comentar

 

 

 

 

 

As uvas brancas

na videira do teu quintal

amadureceram

num amarelo

vivo.

 

 

Eu nunca tinha visto

em toda a minha vida

uvas assim.

 

Juro por Deus que nunca provei

coisa mais doce no mundo

-tirando os teus beijos-

que o bagos colhidos

daquela videira

no teu quintal.

 

 

É que as uvas brancas

daquela tua videira

sabem ao mel

das abelhas.

 

 

 



publicado por Manuel Maria às 10:07 | link do post | comentar

Domingo, 10 de Setembro de 2006

 

 


No quintal,
A Paleta colorida
Das dálias, das roseiras, do alecrim
E tu,
Descalça,
Pela leira acima
Apanhando Hortelã.


Passas na Cerejeira do horto
- Já se comem, Jonas. Estão maduras!


A Sachola da rega alcança as pernadas altas.
-Não estão nada Nina. Ainda nem pintam... vê!


Oh! A desilusão nesses teus olhos.
- Se tens assim tanta vontade, trago-tas da praça.


Ajeitas a madeixa sobre a testa em brasa.
Fazes aquele ar de afago doce,
Belo por demais,
De miúda.
-O que me apetecia agora, sabes tu bem...


Um abraço e beijo incontidos,
A mão ágil que procura o sexo
E aquela tua voz meiga, quase inaudível:
- Vá... desaperta o cinto... anda!

Ah! Loucura, loucura de morrer!

 



publicado por Manuel Maria às 21:48 | link do post | comentar

Sexta-feira, 8 de Setembro de 2006

 


 

Que seja tinto

e cheio!

A correr da torneira,

em cantarinhas

na jarra.

 

E que, erguendo o copo

à contra-luz,

veja

agulhas dos pinheiros,

o verde dos fetos e dos bracejos

nos cabeços,

 um bando de perdizes

a voar,

as bagas maduras

do medronheiro

e

no fim,

o palato adocicado

 das amoras

 selvagens.

 

 



publicado por Manuel Maria às 11:23 | link do post | comentar

 

Serra da Malcata e Rio côa

 

 
Serra!
E qualquer coisa dentro de mim se acalma...
Qualquer coisa profunda e dolorida,
Traída,
Feita de terra
E alma.

Uma paz de falcão na sua altura
A medir as fronteiras:
- Sob a garra dos pés a fraga dura,
E o bico a bicar estrelas verdadeiras...

Miguel Torga (in "Diário II")




publicado por Manuel Maria às 11:05 | link do post | comentar

 

 




É o tempo das canções na minha aldeia:


-Escuta, consegues ouvi-las?


Fios de erva reluzem nos lameiros,
As árvores despem-se das últimas folhas,
Ouve-se o ruído calamitoso das águas,
Lá no Cesarão:


-Consegues ouvi-las também?



As manhãs levantam-se glaciais
Nos brancos quintais das casas
Onde as arvores se encolhem transidas.
Vou chamar-te à cama,
Com saudades de ti,
Dos teus olhos,
Da boca,
Do Sol no teu rosto,
A brisa nessa tua voz.
O teu corpo ainda está morno,
Sabe a bravio,
Sabe à erva verde e húmida,
Cheira à terra maninha
Pronta para ser lavrada.


-Levanta-te, meu amor.



Passearemos pelo campo,
Veremos as vinhas já amarelecidas,
As Oliveiras ainda por colher,
Poderei beijar-te debaixo da amendoeira grande,
Sem surpresa de ninguém.
Irás comigo a casa da minha mãe,
Beberás o vinho tinto na adega
e provarás o licor de ginja,
feito pela minha avó.




publicado por Manuel Maria às 08:48 | link do post | comentar

Quinta-feira, 7 de Setembro de 2006

   

 

 

Visão do profeta Ezequiel ( A Majestade do Senhor rodeada de anjos) Biblia de Riplli sec. XI

 

      Curta é a nossa vida, e cheia de tristezas; para a morte não há remédio algum; não há notícia de ninguém que tenha voltado da região dos mortos.
     Um belo dia nascemos e, depois disso, seremos como se jamais tivéssemos sido! É fumaça a respiração de nossos narizes, e nosso pensamento, uma centelha que salta do bater de nosso coração!
     Extinta ela, nosso corpo se tornará pó, e o nosso espírito se dissipará como um vapor inconsistente!
     Com o tempo nosso nome cairá no esquecimento, e ninguém se lembrará de nossas obras. Nossa vida passará como os traços de uma nuvem, desvanecer-se-á como uma névoa que os raios do sol expulsam, e que seu calor dissipa.
     A passagem de uma sombra: eis a nossa vida, e nenhum reinício é possível uma vez chegado o fim, porque o selo lhe é aposto e ninguém volta.

 



publicado por Manuel Maria às 19:02 | link do post | comentar

 



Vim de boleia com a  vida,
e sem querer cheguei aqui
A beira deste rio
Onde fico indeciso
entre atravessar ou ficar.

Hoje, contudo
Não me apetece molhar a alma.

Fico-me por esta margem,

cheirando as  flores,
ouvindo o canto do rouxinol
na outra,
apenas cortado
pelo ruído das rãs,
saltando à água.



publicado por Manuel Maria às 11:13 | link do post | comentar

 

 

 

Toda a poesia é luminosa, até
a mais obscura.
O leitor é que tem às vezes,
em lugar de sol, nevoeiro dentro de si.
E o nevoeiro nunca deixa ver claro.
Se regressar
outra vez e outra vez
e outra vez
a essas sílabas acesas
ficará cego de tanta claridade.
Abençoado seja se lá chegar.


                                                   Eugénio de Andrade



publicado por Manuel Maria às 10:55 | link do post | comentar

Quarta-feira, 6 de Setembro de 2006

 

 

 



Setembro chega,
No vermelhão
Dos plátanos e das videiras.

Abafado no tanque do lagar,
Fermenta o mosto devagar.

No restolho seco do pão,
Engana a cabrada a fome de Verão.

Arrecada-se no celeiro a palha,
Que ficou da última malha.

Apanham-se as nogueiras do quintal,
Tira-se à burra, a pedra e o varal.

E a invernia entrando,
Em rajadas, aos tropeções,
Pela frincha da soleira,
Atiça os carvões
Mortiços da lareira.

É o crepúsculo do Verão,
Que lentamente a brisa vai levando,
Nas folhas caídas no chão!




publicado por Manuel Maria às 09:19 | link do post | comentar

 

 

 

açafrão

 

 


Levanta-te, minha amada, amor meu, do pomar de romãzeiras,

levanta-te, ao vento do Norte. Sopra no meu jardim

 para que se misturem os perfumes do açafrão e do jasmim,

com todos os odores do incenso, mirra e aloés,

e assim que se espalhem as sombras da noite,

põe o teu selo sobre o meu coração,

beija-me os lábios na hora do sono,

unge-me os pés com a essência do jasmim, mirra, alóes

cinge-me a testa numa coroa de açafrão.

 

E assim que se espalhem as sombras da noite,

põe o teu selo sobre o meu coração,

cinge-me a testa numa coroa de açafrão,

minha amada, amor meu.

 

Depois, minha amada, amor meu,

beberemos leite de camela

saborearemos figos e mel,

durmiremos na tenda grande

sob  o mar das estrelas.

 

 



publicado por Manuel Maria às 03:56 | link do post | comentar

Terça-feira, 5 de Setembro de 2006

 

José Tolentino Mendonça

José Tolentino de Mendonça

 

Através da terra o amor
torna-nos estranhos à terra
liga-nos a uma divina linhagem
com seu tormento inapagável
suas velocidades enormes

O amor vive na ponta dos cabelos

O amor, ditam os frios de coração, é ruinoso
qualquer momento em chamas
denunciará a imprecisa inquietação que nos toma

Os inocentes que se amam dizem
teu corpo está a nevar
tua alma é uma flor
um prado tranquilo sua noite

Os inocentes que se amam
por seu tormento elevam-se
como plumas
num chapéu de passeio




publicado por Manuel Maria às 09:39 | link do post | comentar

Segunda-feira, 4 de Setembro de 2006

 

 

 

           Chegou o dia e a hora da partida; Uma segunda-feira pela madrugada. O sr Grilo ia à feira do Fundão comprar gado para o talho e dava-me boleia. A mãe, disfarçando uma lágrima, deu-me mais algumas sugestões e conselhos, verificou as malas e pediu ao Sr. Grilo que entregasse o seu menino na portaria do seminário. O pai, esse  estava sereno como sempre, mas orgulhoso por ver o seu filho partir para uma nova etapa de estudos.

          - Pronto, senhor comandante, não se preocupe, o rapaz  fica bem entregue - assegurou  o sr. Grilo enquanto delicadamente tirava o chapéu.

         Depois entrei na velhinha caminheta azul, cheia de cromados. Esta arrancou a cheirar a gado, a fumo, a óleo, tão depressa que mal consegui ver pelo espelho retrovisor,  ao fundo da curva, o pai garboso no seu uniforme militar e a mãe, chorosa, a acenar com o lenço.

        O majestoso lenço drapejou como uma folha de Outono ao vento, naquele seu padrão de riscas vermelhas e fundo amarelo, enquanto eu  me despedia também para sempre da minha infância.

        



publicado por Manuel Maria às 16:36 | link do post | comentar

Domingo, 3 de Setembro de 2006

 

  

 

Jasmim, jacinto, rosmaninho,

alecrim, alfazema, madressilva,

cinco perdigotos em fila,

a vinha, o poço,

a figueira, o pinheiro manso,

eu por baixo, tu por cima,

a música dos sentidos

e o cheiro a oregãos.

 

A figueira, o pinheiro manso,

eu por baixo, tu por cima,

oregãos, oregãos.

 

 



publicado por Manuel Maria às 21:03 | link do post | comentar

 

 

  
Dlim dlão, repicam os sinos, dlim dlão!
Os mordomos apressam o peditório,
A banda afina o refrão,
No céu estoira o foguetório,
E da capela sai a procissão.

Dlim dlão! Dlim dlão!
Sob o palio, solene vai o pregador,
A seguir, em fila ordenada a multidão,
À frente, cada santinho no seu andor.

Dlim dlão! Tocam os sinos, Dlim dlão!
E os foguetes, pum pum! Rebentam no ar!
O povo reza com devoção,
E a procissão avança devagar.

Leva em ombros Jesus crucificado.
-Attention messieurs, le saint va tomber!
Grita um romeiro assustado,
Vendo o andor, com o peso, a ceder.

Atravessa a praça, sobe à Ti Marquinhas,
Pum pum! Lá vai a procissão.
Corta a seguir pelas Moreirinhas,
Chega à Igreja, ouve-se o sermão.

Dlim dlão!
Dlim dlão!





publicado por Manuel Maria às 14:57 | link do post | comentar

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