Segunda-feira, 18 de Setembro de 2006

 


 

 

Rua da Madalena acima
A seguir ao fotógafo, meto pelo arco. Subo.
Ao primeiro patamar das escadinhas
A casa de pasto do Crispim. O cheiro a jaquinzinhos. 
 

Hora de almoço, reclama o estômago.
Uma ansia de jaquinzinhos, coisa urgente.
A mulher do Crispim coloca tiras de carne
No grelhador à porta da tasca. 
 

Doze e trinta. Decido-me pelos jaquinzinhos.
O Crispim está sózinho ao balcão.
E cumprimenta: que vai ser hoje... Doutor? 
E enche uma jarra de tinto. 
 

Vai uma tigelinha de azeitonas pretas? Pergunta
Estendendo na mesa a toalha de papel.
E com os jaquinzinhos, arrozinho de tomate?
E deixa o prato, os talheres e o copo. 
 

Uma menos vinte. Despachei meio jarro,
As azeitonas e dois pães.
O Crispim limpa os copos lavados,
Inspeciona-os à contra-luz. 
 
 

Está um dia dos diabos. Diz ele
Vendo a chuva a cair no saguão. 
A chuvinha também já cá fazia falta...
E põe as mãos nos quadris. 
 

Sim, respondo. Bate a uma menos um quarto em S. Cristóvão
-Nem tarde, nem cedo-
Mas os jaquinzinhos, não vêm

E a fome aperta.
 

Ó Crispim, esses jaquinzinhos saem ou não?
Ele cruza os braços, indiferente:
Então não queiram lá ver?
-E olha-me com desafio-
Tem a mãe na forca, O Doutor? 

 

Limpa as mãos ao avental. Vira costas.
Assoma à porta.  Maria, a entremeada vem, ou não?
É Outono. Lá fora, faz frio.
 

E eu morro por uns jaquinzinhos!

 

 



publicado por Manuel Maria às 11:12 | link do post | comentar

 

   

 

Julgamento em Chaves, paragem nas vertentes da Régua em vindima,  para reconfortar o estômago e um porto generoso! 

 

 



publicado por Manuel Maria às 09:25 | link do post | comentar

Domingo, 17 de Setembro de 2006

´

 

Apanhar no céu faíscas
para fritar umas iscas

pegar no cheiro do prado
e pinta-lo de encarnado

meter o calor do sol
dentro do meu cachecol

plantar um pomar de rãs
em vez deste de maçãs

morar com uma sereia
num castelinho de areia

com uma toalha de água
secar toda a minha mágoa

fazer da gente crescida
uma gente divertida.

Luisa Ducla Soares
in A Gata Tareca e outros Poemas Levados da Breca



publicado por Manuel Maria às 10:30 | link do post | comentar

Sábado, 16 de Setembro de 2006

 



O Galo
No quintal,
Anunciou a manhã.

Mecânica,
Ela afastou os lençóis,
E saltou da cama.

Pelo reposteiro,
A luz baça do luar
Rompia no quarto.

- A "nanar" nina, a "nanar"... Vá lá, são duas da manhã!
- Hum... o quê? Ah... "tá" bem... "tá"! Raio do galo....

Recostou-se,
Atordoada,
Ele aconchegou-lhe os lençóis

E
Adormeceram
Abraçados
Novamente.



publicado por Manuel Maria às 08:21 | link do post | comentar

Sexta-feira, 15 de Setembro de 2006

 

 

São João te faça pão
São Mamede te levede
São Vicente te acrescente
Em honra de Deus
E da Virgem Maria
Um Padre Nosso
C’uma Avé Maria.

 



publicado por Manuel Maria às 09:03 | link do post | comentar

Quinta-feira, 14 de Setembro de 2006

 

 

 

Pedra do cavalo

 

Nos cabeços 
da minha infância
travei batalhas
conquistei reinos.

 

Vultos
de guerreiros
assomavam
no verde
nem eu sei

de onde.

 

E eu menino
com seis anos
encavalitava-me
na pedra...
um príncipe...
a cavalo:

Anda!

 Anda!...

Cavalinho!

Anda!

 

E o pobre cavalo
pileca malhada
pedra dura
Nem se movia...

 

 

E eu comandante

à frente

daqueles exércitos

fantasmas

brandia a espada

e gritava:

 Ao ataque!

 Ao ataque...

Meus bravos!

Ao ataque!

 

E os vultos
que assomavam no verde
vindos de não sei onde

Nem se moviam...

 

 



publicado por Manuel Maria às 21:24 | link do post | comentar

 



Uma única coisa me apetece:
Sentar-me à fogueira,
Ver o lume crepitar
O fumo a subir
Até à lua azul,
Que espreita,
Hipnótica,
Pela fresta do telhado.

Sentir o calor,
A viajar pelas artérias
Atordoar a cabeça,
Que rodopia,
Rodopia, alucinada.
O pensamento a divagar
Na panela sobre as brasas,
E a noite bebida
Com a mágica lunação
Em tragos de vinho e canela,
Tão intensos
Tão doces,
Que acordam o fogo
No fundo da boca.

Começa então o jogo dos beijos
Que vão descendo
Em crescente volúpia
Às coxas entreabertas
Onde rebentam,
Em vagas sucessivas
De espuma.


Depois,
As Horas passam
Na concha do sono,
Atravessando a noite
De lado a lado

E o dia apaga a lua,
Pela janela entra a paisagem.



 



publicado por Manuel Maria às 10:46 | link do post | comentar

Quarta-feira, 13 de Setembro de 2006

 

 

 

Frio d'Inverno.

Carnaval à porta.

Era um inferno

A espera.

 

A cidade gelada.

Vinte e uma na torre.

Face gelada,

Na valsa doida do vento.

 

A cidade deserta.

Nem viv’alma...

Do céu caíram flocos.

 As mãos enregeladas

Da noite fria.



Mas:

Na aldeia,

Noite de luar,

Lençóis de flanela,

O calor da lareira:

 

Para ceia galinha

Vadia

Que em ano de fome

Cirandou pelos terreiros

Da vizinhança

Catando

Grão.

 

Levou

 De António

De Lobão

 De João

De Brito

De Agapito

...E sabe-se lá

de quem mais!...

                 


Galinha choca,

mãe?!

Rija de caldo...

Para comer...

Não!

 



publicado por Manuel Maria às 22:39 | link do post | comentar

 

  

            Na pequena taberna da praça encontrei, logo ao entrar, a minha mesa junto á lareira ocupada pelo Chico Pina. Tinha diante de si um baralho de cartas e um copo de tinto vazio.  Aproximei-me e bati-lhe no ombro:

           - Chico, que fazes aqui?

          O Chico traçou as cartas antes de lavantar os olhos. Depois aqueles olhos bondosos, redondinhos, fixaram-me com amizade.

            - Estou a matar o tempo, não vês?

            - Sim, bem vejo. Mas quando saíste do hospital? isso está melhor?

           - Oh pá, estou fodido! - atirou desanimado- eles abriram-me, mas não fiquei bem... 

           -Como sabes? vais  ver que o pior já passou. Deixa lá!

           -Olha e se nos deixássemos de coisas e bebessemos uma garrafa?

          Pôs as cartas de lado, o vinho chegou e brindámos. Bebemos o nosso litro em paz e o Chico mandou vir umas tiras de presunto, e quando eu disse que ainda tinha sede, mandou vir outra. O vinho brilhava nos copos e o meu amigo estava cada vez mais animado e falador. Voltou a pegar nas cartas e a traça-las. Os olhos infantis cintilavam e os dedos esguios percorriam agilmente o baralho com gestos precisos.

         Ele falou-me da  agitada vida que levava e já não tinha sentido, do filho no último ano do liceu e já não veria na universidade, da antiga amizade das nossas famílias, enquanto o seu rosto se iluminava e a sua voz terna e ardente soava cada vez mais baixa.  Por fim propôs:

          - E se jogássemos uma partidinha?

          Ficámos a jogar até bastante tarde. Depois separámo-nos alegremente. Há dias recebi o seguinte sms:

           "O Chico Pina já se foi".

    



publicado por Manuel Maria às 14:48 | link do post | comentar

 

 

Avó Mariana, lavadeira
dos brancos lá da Fazenda
chegou um dia de terras distantes
com seu pedaço de pano na cintura 
e ficou.
Ficou a Avó Mariana
lavando, lavando, lá na roça
pitando seu jessu1à porta da sanzala
lembrando a viagem dos seus campos de sisal.

Num dia sinistro
p'ra ilha distante
onde a faina de trabalho
apagou a lembrança
dos bois, nos óbitos
lá no Cubal distante.

Avó Mariana chegou
e sentou-se à porta da sanzala
e pitou seu jessu1lavando, lavando
numa barreira de silêncio.

Os anos escoaram
lá na terra calcinante.

- "Avó Mariana, Avó Mariana
é a hora de partir.
Vai rever teus campos extensos
de plantações sem fim".

- "Onde é terra di gente?
Velha vem, não volta mais...
Cheguei de muito longe,
anos e mais anos aqui no terreiro...
Velha tonta, já não tem terra
Vou ficar aqui, minino tonto".

Avó Mariana, pitando seu jessu1na soleira do seu beco escuro,
conta Avó Velhinha
teu fado inglório.
Viver, vegetar
à sombra dum terreiro
tu mesmo Avó minha
não contarás a tua história.

Avó Mariana, velhinha minha,
pitando seu jessu1na soleira da senzala
nada dirás do teu destino...
Porque cruzaste mares, avó velhinha,
e te quedaste sozinha
pitando teu jessu1?
Alda Espírito Santo 
(É nosso o solo sagrado da terra)

1 - Jessu: cachimbo de barro.

 



publicado por Manuel Maria às 12:41 | link do post | comentar

 



A sombra da noite,
Sobe à copa das árvores;
Um gaio levanta da vinha;
Batem os caldeiros na roda;
Pula a água
O Cômaro da aviboreira.

Faltam ainda dois regos de pimentos,
Quando seca a regadeira;
Mudo os últimos tornadouros,
Escondo a sachola
Na rama dos tomateiros.

A sombra cobre já o vale;
Tiro a burra da canga,
Desço a barreira,
Junto ao Pombal dos Bárbaras,
Sempre fugindo à sombra,
Que agora abraça o rio.

À curva da horta do César,
O Ti Diogo sobe a Quelha,
Da tapada do Álvaro.
Com um puxão de rédeas,
Apanho-o na Ladeira da Cruz
-Vai lento, apoiado na sachola-
Mais um puxão de rédea
E dobro as Entre-Vinhas,
Passo as Portas,
A Praça,
E chego ainda com dia,
Para ouvir ao desmontar:
-Colheste os Tomateiros João?
(ai esta cabeça... não é que me esqueci?)
-Não  avó... ainda estão verdes!

É a Hora da ceia...

Falta a salada de tomate!





publicado por Manuel Maria às 11:35 | link do post | comentar

Terça-feira, 12 de Setembro de 2006

 

 


Tão verdinhas e miudinhas, tão gulosas aos olhos
vão caindo da àrvore,

procurando a terra.

 


Depois é só esperar,

passar sob a rama,

de balde na mão

 

e apanhá-las

uma

 a uma

já maduras.

 



publicado por Manuel Maria às 15:41 | link do post | comentar

 



Na taberna dos Gatas
Os velhos vêem jogar a "raioula"
E contam histórias de tempos antigos.

O "Ti Zé Franco", encostado à bengala,
Observa as moedas a picarem sobre a raia.

Ficam todos suspensos, mede-se à palhinha:
O "Ti Cunha" está mais perto que o Bernardino.



-Trinta bons por cima!

Ganha o "vilhelas" ao "sabias"!



Um milharuco,
Plana sobre a praça.



Passam as beatas para o terço.



Põe-se o sol no Castelo.

 

A sombra cobre o penicoto.

 

 




publicado por Manuel Maria às 13:09 | link do post | comentar

 

 Vista dos Castanheiros



À beira do velho souto,
Uma pastora de tamancas,
Detém-se, abrindo ouriços.

 



publicado por Manuel Maria às 10:26 | link do post | comentar

Segunda-feira, 11 de Setembro de 2006

 

 

 


Abre um olho,
Depois o outro.
Espreguiça um braço,
Depois o outro.
Estende uma perna,
Depois a outra
E lá vai ele tropeçando,
De monte em monte,
De telhado em telhado,
Bater na janela do Tomás:
-Bom dia Tomás! Acorda! Hora da escola!

Mas o Tomás, nada!
Vira-se na cama,
Esconde-se nos lençóis.

Então ele,
Irrompe no quarto,
Pé ante pé,
E de mansinho,
Afasta-lhe a madeixa rebelde,
Beija-o na testa
Sussurrando-lhe ao ouvido:
-Tomás, acorda. Hora da escolinha...

E o Tomás, corajoso,
Pula da cama,
Veste-se num ai,
Lava-se em dois tempos,
-como o pai ensinou-
Toma os cereais num fôlego,
Entra no saxo velhinho,
Sem esquecer o cinto,
-a mamã não tem dinheiro para multas-
Percorre uns minutos do reboliço citadino,
E já de saída, rouba um beijo:
-Adoro-te mamã!

Galgando dois a dois os degraus da entrada,
Desaparece resplandecente,
Como um pequeno sol,
Para mais um dia de aulas.

 



publicado por Manuel Maria às 13:37 | link do post | comentar

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