Quinta-feira, 24 de Agosto de 2006

 

 

Uma velha bordava
e o comboio passajava na linha
amanhã há galinha e há canja
e mesmo com fome a gente se arranja.

Um homem dormia
dentro de uma gruta
e outro dizia
que boa era a fruta.

uma velha bordava
e o comboio passajava na linha
caldo de galinha
puré de açafrão
o homem da gruta dormia no chão
e outro sonhava que boa era a fruta.

uma velha qualquer
dizia vaidosa
que já fora mulher formosa

uma velha bordava
lenços de assoar
e o comboio passajava
na linha do litoral

e vi alguem a cantar
trovas confusas
era o rio com o mar
dançando á chuva.

Lobo  Duarte



publicado por Manuel Maria às 00:14 | link do post | comentar

Segunda-feira, 21 de Agosto de 2006

 

  

 

 

 

Eu ouvi distintamente

todos os gemidos da floresta

às últimas bátegas da chuva.

 

Depois, não houve som mais amoroso

que o das caricias do vento

na copa das árvores 

 



publicado por Manuel Maria às 20:49 | link do post | comentar

 

 Campina de Ronda - Andaluzia

 

      Andaluzia é um passaro, Andaluzia é um poeta, um poeta que escreve com as pedras e o sol é o velho que vive nessas pedras e é o passaro que poisa nas àrvores de Andaluzia. Andaluzia é uma aventura, um silencio edificado quando as suas mulheres se vestem de terra. Andaluzia é um passaro, Andaluzia é um poeta, é um pàssaro que chora, é um poeta que voa. Eu vi um camponez lavrando a terra, a terra era uma carta onde ele lavrava o amor. Andaluzia era o seu amor, Andaluzia era a sua terrra. E eu que sou estrangeiro e nao percebia aquele amor agora me comovo e sinto que andaluzia é um amor universal. Andaluzia é um passaro, Andaluzia é um poeta.

Lobo Duarte/Granada Dez 04

  

 



publicado por Manuel Maria às 16:45 | link do post | comentar

Das wunderschöne Tal der Zêzere bei Manteigas.

Vale do Zêzere - Manteigas

 

         Entrei na pequena cidade pela estrada da serra. Ao cruzamento da Nave de Santo António, e cortei à direita  junto à casa dos limpa-neves e depois fiz a vertiginosa descida aos pés do Cântaro Magro e do Vale do Zêzere até às termas e Senhora dos Verdes. No "Glaciar", subida  a rampa,  uma taça de branco para dessedentar e dois pastéis de bacalhau para aconchegar o estômago.

         Vivi naquela região a infância, muitos anos atrás, e tive a minha conta de aventuras, brincadeiras e sonhos, das quais espero encontrar eco ainda hoje, neste meu regresso.

        Atravessando a cidade pela Rua das escolas, cheguei à pensão do Luís, querido amigo de infância, onde deixei a bagagem e  fiz um passeio nocturno pelas ruas discretamente iluminadas pela luz que saía das janelas, passando pelos antigos cafés, comércios, praças, escadarias e varandas.

       Num beco estreito, à esquina do café do Tó, um balcão arruinado deteve-me com determinação, era a casa do avô dos "chaquetos", que tinha oficina de carpintaria no rés-do-chão. Um banquinho de ferro fundido no lado oposto da rua, a tabuleta em madeira esquecida sobre a porta da antiga loja de "souvenires", a janela despregada da casa do Zé Sardinha a seguir à antiga drogaria, o poste do candeeiro à esquina, ampliaram a surpresa. Fiquei ali especado  e admirado ao ver quantas coisas esquecidas não estavam realmente esquecidas dentro de mim.

       Há trinta anos que não passava neste recanto, e ainda me lembro de todas as correrias,  todas as histórias daquele tempo; agora imagino subitamente todas as perssonagens já desaparecidas, cada uma no seu respectivo local e função: O avô dos "Chaquetos" aplainando pacientemente a madeira na bancada, o Tó a descarregar as caixas de bebida para o café, o  Sr. Serra no escadote a pendurar a tabuleta, o Zé Sardinha à janela, na sua bebedeira, para subir ao telhado, trepando pela faxada.

       Oh como eu entendo esta corrente misteriosa e subterrânea, que impele todos os anos as minhas  raízes para esta fresca nascente. Por mais que volte, nunca me saciam estas àguas glaciares.  

 

 

 



publicado por Manuel Maria às 12:04 | link do post | comentar

Domingo, 20 de Agosto de 2006

 

 

 

Sobrevoando os campos
Um melro
Poisa na mais alta pernada
Do velho teixo.

Um bando
De jovens patos
vai na corrente.
Um caracol,
Lento, lento, lento,
Desce um trancho de couve.

Longínquo,
Chega o rumor das águas
A galgarem o açude,
Aqui e ali pontuado
Pelo tilintar dos chocalhos
De gado a pastar.

Debaixo da ponte romana
Um grupo de mulheres lava roupa,
Que estende a corar
Nos silvados da margem.

Na horta
Sobre o rio,
O Lúcio
Queima o pasto seco.

Passa à capela,
O Ti Zé Vicente,
Que respeitoso se descobre:
- "Bô's" tardes nos dê Nosso Senhor!

Pigarreia,
Senta-se no muro do caminho,
Gaba as couves-galegas
Postas ao longo da regadeira,
Refere que o tempo vai bom
Para os alfobres,
Pergunta pela família
-A quem vivamente se recomenda -
Aconselha a pelo menos de palmo e meio,
O intervalo entre os pés das couves,
E desaparece na curva da ponte.


Na torre batem as sete badaladas
Da Tardinha.

Levanta o melro do teixo,
O bando, em fila, sai do rio,
O caracol desaparece entre a relva;
Calam-se os chocalhos do gado,
As mulheres apanham a roupa,
Morre a fogueira do Lúcio,

E distante,
O rumor solitário das águas,
Galga o Chorrião!




publicado por Manuel Maria às 23:16 | link do post | comentar

 

De toda esta paisagem
eu faria verdejantes os teus olhos

Aqui o milagre se renova
no abrir de cada flor
no cicatrizar de cada ferida
no saborear do pao
a oraçao que o silencio faz dentro de cada nuvem
dentro de cada um
na nossa infinita liberdade
na nossa infinita paz


Lobo Duarte

 



publicado por Manuel Maria às 22:41 | link do post | comentar

 

 estrelas.jpg

 

Levo aos lábios

o cálice do teu corpo

por onde bebo

As estrelas cintilantes

da limpida madrugada.

 

Depois, à descida gradual da maré

as  vagas de espuma 

rebentam na praia

e as nossas bocas nada dizem

num exercício de silêncio,

atentas às estrelas cadentes

que marulham neste oceano de paixão

à medida que saciamos os sentidos

e confortamos as almas. 

 



publicado por Manuel Maria às 11:36 | link do post | comentar

Sábado, 19 de Agosto de 2006

 


 


As lágrimas do velho vagabundo são como migalhas de pão espalhadas pela estrada à espera de um coração com fome de amor e musica para a solidão .

Encontrei a cidade
pessoas tocaram a fragilidade do meu corpo, uma voz estrangeira mas nao estranha me falou da paisagem guardada nos olhos para aliviar a dor e a indiferença

As lágrimas não moram nos olhos.

Não há sorriso
não há expressão
è melhor não sentir que a noite è a única que percebe a condição dos marginais e dos pássaros abandonados pelo rio

Encontrei  cidade e todo o céu azul eram os teus olhos com todas as cores.

Onde estiver uma seara terei inspiração para uma canção .

Tentarei a canção mais forte e o poema mais simples para que seja possível a lua contemplar os que ficam deitados sobre a estrada.

As lágrimas do velho vagabundo vão cair como folhas de arvore

Se precisares de sombra

se precisares de pão
se precisares de agua eu te darei tudo isto em troca de palavras difíceis .

encontrei a cidade
as pessoas pareciam cavalos a galopar
mas encontrei um rapaz com paisagem que falava um pouco a minha musica e a minha liberdade.

onde estiver uma seara terei inspiração para uma canção .

 

Lobo Duarte



publicado por Manuel Maria às 19:58 | link do post | comentar

Sexta-feira, 18 de Agosto de 2006

 

 

Esta noite

não tem limites

para pensar em ti.

A não ser as paredes

deste quarto

onde me deito

cansado

num sono

de criança.

 



publicado por Manuel Maria às 21:59 | link do post | comentar

 

 

             Estava uma tarde quente, a terra e ar de Agosto, percorridos pelo cheiro dos campos ceifados. Bandos de pardais esvoaçavam por cima de nós. No vale o rebanho seguia o pastor, e a sua poeira leve elevava-se no ar, sobre as árvores.

            Ao fundo o maciço da Estrela e o sol a morrer no horizonte. A nossos pés,  a encosta semeada de pinheiros em bastio atravessados por um asseiro, que partia da eira com a casa em pedra.

            Descemos pelo asseiro, a meio do pinhal. Silvados carregados de amoras silvestres pendiam sobre o caminho, e sobre cada folha jazia uma película fina de pó.

Quando chegámos à outra casa de pedra arruinada, depois de uma grande caminhada, alcançámos um declive aberto com um recanto verdejnate. O caminho continuava num barranco que dava numa terra lavrada e um riacho lá em baixo, junto à fraga, rodeado de árvores frondosas.

Atravessamos a terra lavrada e confirmámos que o ribeiro secara. Mas a beleza do lugar, o verde das copas a montante, falavam a sua língua suave da terra, para que pudéssemos escutá-la. E o Benjamim, que estava alerta a esse rumor imperceptível,  afirmou:

-As árvores verdes e frondosas mais acima –e apontava as copas - vêm? È sinal que têm as raízes na água. O riacho ainda não secou, tenho a certeza.

  



publicado por Manuel Maria às 18:34 | link do post | comentar

Quinta-feira, 17 de Agosto de 2006

 

 

Colho-te no seio

duas ameixas pretas

e desco ao teu ventre de mansinho

à procura de mais sumo

na ponta dos meus dedos.

 



publicado por Manuel Maria às 17:23 | link do post | comentar

Quarta-feira, 16 de Agosto de 2006

  

 

 

Agora que me visto e que me ponho sol
agora que me sinto rio e me finjo de nuvem
Agora que me ouves e que te oiço e que o coração tem agua tão profunda
como se fosse um poço.
Agora que me sinto perdido e sou mesmo assim o sentido de ser o irmão de todo o universo.

Agora que me visto e que me ponho sol
agora que pões batom nos lábios e lês os livros sábios para não chorares de solidão

Agora que me ouves e te oiço e que as palavras não   são nada depois de se dormir.

Agora que nos sentimos tão de perto e caminhamos longe como se a vida fosse outro projecto outra direcção .
Agora que estamos e somos o que sentimos e o que criamos.

Agora que nos damos quando não temos nada
agora que a nossa liberdade é um grão pequeno e o amor é tão grande numa mão fechada

Agora que me visto e que me ponho sol
agora que sorris e que choras e que tocas acordeão para imitar a primavera

Agora que bebes o vinho e cheiras a roupa dos poetas
Agora que me sentes e que me sinto
agora que o corpo me cansa e a lua me abandona
Agora que tu estás e nós seguimos de viagem

Agora que nos abraçamos quando as palavras não são nada



Agora que nos sentimos e temos confiança
 havemos de ter o mar para nos guardar

Agora que este verso não rima e eu te o dedico como se fosse mel

Agora que me deslumbras mesmo sem luz

Agora que somos natureza e somos nus

Agora que me visto e que me ponho sol

Agora que me sinto rio e me finjo de nuvem

Agora que não ha perfume e que os olhos são suaves

Agora que este verso não rima e tu escreves na alma como se nao houvesse tempo nem agua para humedeceres os olhos.

Agora que o rio caminha nos homens como o Deus agua no deserto dos olhos

Agora que estamos perto e caminhamos longe

agora que nos damos e não temos nada e que mesmo assim possuímos o tesouro de ter um coração a bater

Agora que me visto e que me ponho sol

Agora que me sinto rio e beijo o teu rosto de nuvem

me sinto abençoado como os pássaros que zelam as arvores.


Agora que me visto e te espero como se fosse a noite sem segredos

Agora que tenho medo da solidao e desespero de ter sede de beber amigos

Agora que estou contigo e somos sem compromisso e sem lei

Agora que os meus olhos te querem e te choram

Agora que estamos amigos e que nos vestimos de sol se a noite nos abandonar.

Agora que nos deslumbramos mesmo sem luz.



Lobo Duarte



publicado por Manuel Maria às 10:04 | link do post | comentar

Terça-feira, 15 de Agosto de 2006

 

 

 

  

Se me deixasses,
Enfeitava-te o cabelo
De papoilas,
Jacintos
E margaridas;

Verde amieiro,
À beira do açude,
Onde fez ninho
O Noitibó.

 




publicado por Manuel Maria às 20:57 | link do post | comentar

Sábado, 12 de Agosto de 2006

 

Nascente do Zêzere-Manteigas



Quando no cume da serra
Madura no Zimbro o Bago,
Sobem os pastores com o gado,
Pelo Vale do Zêzere ao Fojo,
Onde duma greta da terra,
Cristalino brota o rio,
Correndo entre o tojo,
Em espumante fio,
Pela Fonte de Paulo Martins.

Sobre uma grande fraga
Estendem num papel,
Azeitonas pretas, queijo e centeio,
-A pauta que trazem de farnel-
Enquanto os cães vigiam
As ovelhas, que pelo meio
Das carquejas se dispersam
Até à Fonte de Paulo Martins.

Então, as fragas, que dali por diante,
Sobre o vale agigantam
A sua esfinge dominante,
Em penitentes se levantam,
Àquela bucólica chamada
De chocalhos a bater,
E numa vertiginosa jornada,
Vão sedentos beber,
Na Fonte de Paulo Martins.




publicado por Manuel Maria às 15:43 | link do post | comentar

Sexta-feira, 11 de Agosto de 2006

 

 

 

 


 

Quando a noite submergia
O "Vale da Lapa",
De volta a casa,
Subia o Zé Mergildo o "Pindelo".

- Eia morena! Eia bonita! Arre... Vamos!


E Elas arrancavam
Calçada acima,
Em louca carreira
Até à "Fonte Velha",
Onde bebiam e chapinhavam.

- Hei morena! Hei bonita! Tem... Tem! Tem... Tem!


Era outro despique dali à loja,
Atropelando-se no portal,
Gulosas do feno na manjedoura.

- Põe-te morena! Põe-te bonita! Arreda... Arreda!



Então as mãos calejadas do Zé
Passando-lhes pelos cornos,
Depois no lombo,
Desciam à úbere,
Que afagavam
Demoradamente:

- Ah morena! Ah bonita! Lindas meninas!


E o leite quente corria,
Em jactos certeiros,
No copinho de latão.



publicado por Manuel Maria às 23:54 | link do post | comentar

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