Quarta-feira, 13 de Maio de 2009

 

 

 

 

Naquele tempo

 

               A gente saía da escola, atravessava a ponte do matadouro,

poisava os bibes e as mochilas no muro  do chafariz

 – defronte ao comércio do senhor Melo-  e com uma bola de jornais

                               bem atada com guita

                               ... a gente fazia uma partida...

 

O Tó Fernando

                               Que era vizinho da Maria S. Pedro

                               E vivia no Largo do Chafariz

 

O Etelvino

Que morava numa casa muito estreita, a subir três andares em altura

Acima da farmácia do Braulio

Era o capitão

               E chamava-nos das escadinhas do Luís “estofador”: Faraó; Cabito; venham!              

                               Andou por esse mundo fora, esteve emigrado na Suíça

                               (casou agora aos quarenta e picos)

«Finalmente, assentou; trabalha na serração, quando se vai par a o campo da bola»

- informaram-me na antiga casa Anita.

 

O Aires “Pacharra” era o guarda-redes

               (Quantos frangos, meu Deus!

               Có có ró có! - gritava em delírio a malta a cada golo)

Morava à esquina da Igreja da Misericórdia,

Trabalhou na “Sotave” como o pai e depois emigrou

Dizem que nunca mais voltou

                               Depois que os pais morreram.

 

Mas eu lembro-me bem é do João “Pelado”

                               Sempre de calças a meia canela

Franzino na sua fome constante o João “Pelado”!

 

Havia também

O Zezinho “Pepe”, o João do café Sky…

- Coitado do João do Sky!

               Morreu afogado na Lagoa Escura

               (uma congestão depois de almoço

               num dia quente de Verão, há muitos anos);

 

- O Sérgio “Brasileiro” foi para Lisboa

                E o “Passa e Anda”, que uma vez encontrei no comboio,

               Também lá ficou por Lisboa.

                              

 

- E o Sérgio “Cariano”? Que é feito do Sérgio” Cariano”?

- Sei que foi para África do Sul, como empresário

Estive com ele há uns tempos mais o Luís Vinagre.

 

 

É verdade, e o Policarpo?

Que é feito, que é feito do Policarpo?

               Aquele rapaz corpulento apertado num bibe curto,

               Com braços de sobra, parecia um gigante!

                               Fujam... Fujam todos!

Quando ele pegava na bola ía tudo a eito

               Naquelas botas cardadas de pastor da serra.

 

 

E o António? Que era pitosga

E vivia no Eiró?

                                              Ninguém sabe do António.

 

 

Nunca mais! Nunca mais!

O tempo da minha feliz meninice, não volta mais!...

Que bons tempos, aqueles!

               Que boa era a vida de gazeta aos trabalhos da escola, a nadar no rio nu,

               a roubar a fruta na quinta dos Portugais,

                a jogar o berlinde no jardim

               A brincar aos soldadinhos na praça:

               Alto! Meia volta, volver!

tinham sabor emocionante de aventura

               as descidas do Eiró nos carinhos de rolamentos

               fugindo aos guardas

               -Que chinfrim por ali abaixo, até ao ensaio da”Banda Nova”!

                               …os muros dos quintais que pulávamos…

 

-Vamos fazer escolha; vamos medir!

                               ... e a gente jogava uma partida…

 

 

Oh, como eu gostava!

           Eu gostava de um dia destes

           de voltar a fazer a medição com o Etelvino

           -O Aires “Pacharra”, que se perdeu nesse mundo de ninguém, fica de fora-

           escolhia o Policarpo, o João de Deus, O João “Pelado”, O Sérgio “Cariano”

               o Zezinho “Pepe” e o Arlindo do Matos & Prata

                               e íamos fazer uma partida como antigamente!

 

               Ah, como eu gostava...

 

Mas talvez um dia…

quando as cerejeiras do Jardim pintarem

quando as mimosas tingirem de amarelo a vertente do Vale de Leandres,

para lá da Casa do Guarda, até ao Poço do Inferno,

quando a sombra dos amieiros for mais agradável

no Açude de S. Gabriel

E as macieiras da quinta dos Portugais

Que agora são do Luizinho Melo, estiverem carregadas,

nos encontraremos como antigamente no Largo do Chafariz

talvez a gente poise despreocupadamente

                               o nosso saco cheio das amarguras da vida

no mesmo muro do chafariz

               defronte ao comércio do senhor Melo,

e o meu pai assome de bivaque à janela do posto como antigamente

e a minha mãe atravesse o largo a caminho da horta de Santa Luzia

 

vamos então fazer um grande partida…

 

E depois

Vamos saltar o muro dos Portugais,

Para roubar maças

 

Como naquele tempo...

 

 



publicado por Manuel Maria às 02:27 | link do post | comentar

1 comentário:
De Massano a 14 de Maio de 2009 às 11:57
Caríssimo Colega;

Como eu vibrei interiormente com a leitura desta sua ultima mensagem!Pelos nomes, pelos locais, pela traquinice que também foi minha.
Mas ao mesmo tempo, conhecendo todas as personagens, lamento porque nunca me foram, infelizmente, muito próximas, com excepção do Pepe, do Pelado e do Etelvino ( este depois de sair da casa que identifica, foi viver para uma outra que confinava com a minha, na " quelha " junto á Casa do Povo ).
Bem sei que com 10 anos fui para o Seminário de Gouveia e talvez por isso é que todos estes meus conterrâneos me são, pelo menos na convivência, relativamente distantes.Nomeadamente o colega, infelizmente não estou sequer a identificá - lo fisicamente.

Uma abraço e continue a publicar estas boas recordações.

José Massano


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