Quarta-feira, 21 de Janeiro de 2009

 

 

 

O caso era por injúrias ao vizinho. A arguida chamara-lhe nomes feios e ele, ofendido, deduzira a queixa.

Depois, após o crivo do inquérito e debate instrutório, ali estávamos, juiz, procurador, advogados, queixoso, arguido, testemunhas e assistência, para o julgamento aprazado.

A arguida, à “praxe” nada acrescentou, por isso ouviram-se as testemunhas, que vizinhas das partes, com as quais se não queriam indispor, iam fugindo como podiam às questões postas pelo juiz e pelo advogado do queixoso.

- Minha senhora – insistia o advogado do queixoso – diga a este tribunal o que ouviu em concreto a arguida chamar ao queixoso.

- Ora, senhor doutor – gaguejou a testemunha - disse que a mãe e a mulher dele não se portavam bem…

Não se portavam bem… - o advogado cofiou a barba, hesitou – não se portavam bem como, minha senhora? -

- Não se portavam bem… Só isso...

- Bem… No inquérito a senhora afirmou que a arguida chamou nomes ao queixoso. – Exaltando-se – Afinal, que nomes foram esses?

O juiz levantou os olhos dos apontamentos. Silêncio da testemunha. O advogado insistiu:

- Que nomes foram esses, minha senhora?

Um popular levantou-se na assistência e comentou em voz bem audível na tribuna dos magistrados e advogados, apontando para a testemunha:

- Está aqui com pudores, mas em casa chama cabrão e outras coisas bem piores ao marido.

Risada geral. O juiz fingiu-se zangado e advertiu o público.

- Senhor doutor  – dirigiu-se o advogado do queixoso ao juiz- a testemunha tem que dizer a este tribunal “ipsis verbis” o que ouviu a arguida chamar ao queixoso; caso contrário não vale.

- Minha senhora – suspirou o juiz – tenha paciência, mas tem que dizer precisamente o que ouviu, palavra por palavra para que fique registado nos autos e satisfaça aqui o senhor doutor.

- Cabrão, filho da puta e corno – desembuchou ela, de rajada.

- Viu, minha senhora – concluiu o juiz – afinal não foi assim tão difícil!

Nós rimos, satisfeitos, enquanto a testemunha, aliviada, tirando o lenço da manga da blusa domingueira, limpava o suor da testa.

O queixoso, esse não riu; contorceu-se de vergonha na cadeira. Acabava de ser insultado outra vez!

 



publicado por Manuel Maria às 09:54 | link do post

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