Quinta-feira, 4 de Setembro de 2008

 

 

 

          Aqui fica o resumo de uma cantiga bem divertida que li em férias. É do género "Langue d’Oil", com o sabor picaresco de tantas outras que serviram de inspiração a autores de novelas tais como Boccacio, Chaucer (nos seus contos de cantebury), La Fontaine (também nos seus contos; não nas suas fábulas), Moliére, Rabelais e muitos mais:

  

            Boivin veio a Provins, famosa cidade de feira, disfarçado de camponês, vestido de grosseiro pano cinzento e calçado de tosco couro de vaca.

            «E, passado mestre em velhacaria

            (um mês e mais tinha ficado

            com a barba por fazer

            um aguilhão tomou na mão

            para melhor com vilão se parecer»

           Assim disfarçado, vai direito «à rua das putas» e senta-se em frente da casa de Mabile.

            «Sábia em astúcia e enganos

            mais do que qualquer outra mulher.»

            Falando sozinho, ele finge contar o que ganhou na feira, vendendo bens inimagináveis: bois, alqueires de trigo, lã, jumento e leitos… no que juntou 100 soldos, uma pequena fortuna, quando de facto, tinha um soldo na bolsa.

            A artimanha resulta; Atrai a gente da casa:

            «Não tenham receio», diz Mabile aos seus comparsas, «aquele não me escapa».

            Bovin prosseguiu no seu monólogo:

            «Se ao menos eu soubesse o que foi feito da minha sobrinha Mabile, que partiu há tanto tempo. Eu que estou sozinho desde a morte da minha mulher e dos meus três filhos…» E acrescenta:

            «Nunca alegria entrará no meu coração

            Se não puder rever a minha doce sobrinha.»

            Em resumo, nada mais lhe resta senão fazer-se monge. Mabile sai nesse momento e trava conversa. Não tardam a cair nos braços um do outro. Dois rufias  saem também. Apresentação; troca de amabilidades.

            «Verdade; é meu tio», diz Mabile

            «de quem tão bem vos falei»

            Mabile envia os dois rufias comprar fiada uma boa ceia:

            «É o vilão que pagará tudo.

            Apanhar-lhe-ei mais de cem soldos».

            A comédia pr4ossegue durante a refeição, com Mabile a pedir notícias da família e a fingir-se pasmada com as sucessivas mortes de familiares que o vilão lhe relata. E Mabile interroga o tio:

            «Depois da morte de sua mulher, teve companhia carnal com outras mulheres? È muito mau para a saúde privar-se muito tempo».

            «Sobrinha, faz sete anos bem contados».

            Mabile, compadece-se e propõe a sua sócia Ysane, que apresenta, como “noviça”:

            «Só para a sua virgindade possuir

            outros pagariam bons cabedais.

            Mas vós a tereis; pois assim quero.»

            (e a Ysane piscando o olho)

            «Que a bolsa lhe seja cortada».»

            Boivin, que conhece as manhas do meio, corta os cordões da bolsa e esconde-a na camisa. Enquanto se apodera de Ysane, esta procura às apalpadelas o desejado porta-moedas, sem o encontrar. Depois, Boivin finge-se desolado, mostrando as duas fitas:

            «Sobrinha, cortaram-me a bolsa!

            Foi aquela mulher que a cortou.»

            Mabile, julgando que a trapaça resultara, põe fora o cliente, que não resiste e na rua mostra os cordões cortados a quem passa. Em casa as coisas azedam. Mabile ordena:

            «Dá-me isso depressa.

            Que o vilão vai ao preboste.»

            «Mas eu não o tenho (protesta Ysane) e no entanto bem o procurei».

            «Pouco falta que te quebre,

            puta velha e porca, todos os teus dentes!

            Vi muito bem os dois cordões pendentes

            Que tu cortaste, sei muito bem!»

            E Mabile, arrepelando-lhe os cabelos, deita por terra Mabile, que mói de pancada. Ysane grita por socorro do seu rufia, que acorre, arromba a porta e se lança sobre Mabile, que berra. Vem o segundo rufia, amigo de Mabile, e agarra-se ao primeiro. Acorrem os vizinhos ao barulho:

            «Viu-se então a casa encher-se

            de tunantes e de putas.

            Cada um metendo a mão.

            Ali, vereis cabelos arrepelar,

            paus a bater, fatos a rasgar

            e um debaixo do outro abater-se.

            O único que se não incomoda é Boivin, a quem o preboste, divertido, dá dez soldos em recompensa.

 

            



publicado por Manuel Maria às 14:46 | link do post

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