Terça-feira, 22 de Abril de 2008

 

 

  

 

António Rasteiro, homem do povo,

Completamente analfabeto

Mas rico em memórias e afectos..

Sua vida resume-se assim: criado lá em casa desde menino,

Guardando ovelhas e sonhos pelos cabeços,

Emigrou depois a salto para França,

Consumindo-se em saudades da terra distante.

 

António Rasteiro

Voltou, passados muitos anos voltou,

As botas cobertas da fina poeira da estrada,

E desembarcando nos meus sonhos

Saiu-me ele um dia ao caminho,

De saco cheio de memórias

Ao ombro.

 

Abrigado à sombra da velha Acácia

Escutei então algumas histórias

Ao António Rasteiro,

Que vinha do passado,

Assim… Sem pedir licença,

Com memórias da vida dos meus avós,

Da infância de minha mãe

E da sua.

 

Deixei-o entrar nos meus sonhos.

Nesta terra onde não há guarda-fiscal,

Alfândega, ferrolho à porta.

O saco vinha a abarrotar,

De histórias, de pessoas,

De memórias

Que lhe vergavam

As costas.

 

E o António Rasteiro,

Não lhe podendo mais suportar o peso,

Despejou-o ali no meio da praça,

Assim:

Recordou primeiro como eram cristalinas as águas da fonte velha

 E corriam ao desdém pelo caminho, até às Entre-Vinhas;

Falou por alto dos grupos alegres de raparigas que iam lavar à ribeira;

Referiu em pormenor algumas façanhas do Nino Badana no tempo do contrabando;

Contou as peadas de rebanhos que havia no povo,

E enganando-se duas vezes, desculpou-se, fazendo a estimativa por alto;

Falou com saudade do tempo em que foi pastor em casa dos meus avós;

Lembrou quando na meninice ascendia uma grande fogueira no cabeço da Atalaia

Para se aquecer das frias e solitárias noites de pastorícia;

E numa curiosa analepse,

Saltou para a linda sopeira, que lhe aquecia os pés quando foi praça na Cova da Moura.

 

Depois, enigmático,

Concluiu:

 

-Ah doutor, aquilo é que eram tempos, catano!

 

 



publicado por Manuel Maria às 14:53 | link do post | comentar

2 comentários:
De Ribacôa a 26 de Abril de 2008 às 22:29
É enorme a mochila do Tonho Rasteiro. Demasiado grande para transportar uma frugal merenda. Pequena demais, certamente, para transportar uma enormidade de histórias reais.
Contrastes de um personagem real.


De Manuel Maria a 30 de Abril de 2008 às 10:38
Ainda este fim de semana me falou da sopeira...
Algarvia dos sete costados, que lhos "mediu" ele bastas vezes, segundo conta.


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