Quinta-feira, 3 de Abril de 2008

 

 

  

            Esta xácara é da região de Almeida e recordo-me de a ouvir na minha meninice, com versões diferentes, da boca dos mais antigos. Perde-se no tempo, pelo arcaísmo da linguagem e pelo contexto das viagens além-mar. Possivelmente é do séc.XV, aquando da expansão africana de Afonso V ou da consolidação das possessões da Índia, no séc. XVI.

            O lugar é inquestionável; a raia, pela referência ao fronteiro. Garrett, que também a transcreve no seu cancioneiro, situa-a na região do Guadiana, pelas referências ao mar, no que discordo.

            As referências ao mar são naturais, porque a expansão além-mar, exauriu o sangue português até às suas entranhas; Do Norte a Sul; do litoral ao interior. Outras xácaras e romances genuinamente de Riba-Côa têm referências marítimas. Por outro lado, A referência a Castela, situa-a geograficamente muito acima do Guadiana, na actual fronteira de Castilha-Léon. Depois há o termo “voda”, que sempre ouvi entre as  gentes de Riba-Côa quando se referem ao casamento, mais precisamente os esponsais:

            -«”Fulano” convidou-me para a sua voda!»; -«Foi uma bonita voda, a de “Cicrana”!»

            Seja a xácara do Guadiana, seja ela de Riba-Côa, dúvida não subsiste de que se trata de  uma canção de estilo ingénuo e puríssimo, nisto sou concordante com Garrett, de um sabor popular cativante, pela exaltação primária dos sentimentos do amor filial e entre amantes, numa troca de falas em que seria impossível chegar mais ao nível da natureza.

-«E meu pai e minha mãe,

Tia, que os quero abraçar?»

                                                           ...

-«Que é da minha dama, tia,

Que aqui ficou a chorar?»

 

            Há um trexo, que espelha bem essa ingenuidade popular. A saudação franca e a partilha generosa do pão entre os mais humildes:

 

-«Salve Deus, ó da voda,

Em bem seja o seu folgar!»

-«Venha embora o cavaleiro

E que se chegue ao jantar!»

 

            O tema, por sua vez, é recorrente na lírica popular: A situação altamente dramática, sublime de angústia, provocada pela ausência física dos que partem na aventura além-mar.

             Pois aqui fica, sem mais delongas, a xácara:

 

 

-«Deus vos salve, minha tia,

Na vossa roca a fiar!»

-«Venha embora o cavaleiro

Tão cortêz no falar!»

-«Má hora ele se foi, tia,

Má hora torna a voltar!

Que já ninguém o conhece

De mudado que há-de estar.

Por lá o matassem moiros,

Se assim tinha de tornar!»

-«Ai sobrinho de minha alma,

Que és tu pelo teu falar!

Não vês estes olhos, filho,

Que cegaram de chorar?»

-«E meu pai e minha mãe,

Tia, que os quero abraçar?»

-«Teu pau é morto, sobrinho,

Tua mãe foi a enterrar.»

-«Que é da minha amada, tia,

Que aqui mandei estar?»

-«A tua amada, sobrinho,

Mandou-a o fronteiro ao mar.»

-«Que é do meu cavalo, tia,

Que eu aqui deixei ficar?»

-«O teu cavalo, sobrinho,

El-Rei o mandou tomar.»

-«Que é da minha dama, tia,

Que aqui ficou a chorar?»

-«Tua dama faz hoje a voda,

Amanhã se vai casar.»

-«Dizei-me onde é, minha tia,

Que me quero lá chegar.»

-«Sobrinho, não digo, não,

Que te podem lá matar.

-«Não me matam, minha tia;

Cortezia eu sei usar,

Esta espada há-de chegar.

 

-«Salve Deus, ó da voda,

Em bem seja o seu folgar!»

-«Venha embora o cavaleiro

E que se chegue ao jantar!»

-«Eu não pretendo da voda

Nem tão-pouco do jantar;

Pretendo falar à noiva,

Que é minha prima carnal.»

 

Vindo ela lá de dentro

Toda lavada em chorar,

Mal que viu o cavaleiro,

Quis desmaiar.

-«Se tu choras por me veres,

Já me quero retirar;

Se é os teus gastos que choras,

Aqui estou para tos pagar.»

-«Pagar devia côa vida

Quem me queria enganar,

Quando te deram por morto

Nessas terras de além-mar.

Mas que fiquem com a voda

E bem lhes preste o jantar.

Que os meus primeiros amores

Ninguém mos há-de quitar.»

-«Venha juiz de Castela,

Alcaide de Portugal,

Que se aqui não há justiça,

Co esta espada a hei-de tomar.»

 

 

 

 



publicado por Manuel Maria às 10:10 | link do post | comentar

3 comentários:
De Hugo Jorge a 3 de Abril de 2008 às 10:25
obrigado pela partilha de material tão interessante


De ana a 5 de Abril de 2008 às 19:00
"Mas que fiquem com a voda
E bem lhes preste o jantar."

Já disse isto algumas vezes - percebo tão bem o sentido destas palavras!

Sempre um encanto o que aqui se vai lendo. Faço minhas as palavras do comentador que me antecedeu.



De Manuel Maria a 7 de Abril de 2008 às 10:58
Eu ca a voda ainda dispenso... agora o jantar...


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