Sexta-feira, 14 de Março de 2008

 

  

 

  

            Foi pelo Verão. O meu primo Carlos, sabendo do meu interesse por livros antigos, foi lá a casa convidar-me a visitar o casarão que tinham comprado numa aldeia vizinha. Estava eu sentado na minha sala, de humor sombrio. Da janela, para lá do Cerrado, avistava a estrada e a suave elevação da Filipa, sobre cujas sombras verdejavam as vinhas da Bizarra. Lembro-me como fosse hoje, o dia estava luminoso e abafado; no céu azul finas nuvens estendendo-se como um diáfano manto sobre o Buraco. O ar transparente e radioso.

            Fazendo curtas aspirações nervosas no pequeno cachimbo de cerejeira, deixei-me ficar meio deitado no sofá, enquanto observava, de testa franzida, as imagens fantásticas do fumo a voltearem na sala e sumirem-se lentamente pela janela aberta.

            Ele vendo a minha apatia, insistiu; que «valia a pena - dizia-me ele - havia lá por casa uns livros do antigo proprietário, que me poderiam interessar». Quis eu saber que livros seriam aqueles. Fez um ar misterioso; que «eu logo veria».

            Finalmente, curioso, ergui-me do confortável assento; sacudi a cinza do cachimbo; «vamos lá então ver esses teus famosos livros», disse-lhe eu.

            E foi assim que me vi num quarto mal iluminado da antiga casa do velho Limão, rico lavrador de antanho. Por entre pilhas de objectos e trastes antigos espalhados pelo soalho, erguia-se, embutido na ampla parede da janelinha que dava para o pátio, um imponente armário onde, ao lado de alguns clássicos, se encontrava uma pequena colecção de obras de história, filosofia, religião e medicina. Retirei livro após livro das prateleiras, folheando longamente alguns deles, que amontoei no chão em duas pilhas; numa os interessantes, quer pelo assunto ou pela antiguidade; na outra, os restantes.

            Tinha já juntado dois pequenos montes de obras diversas no chão, quando a porta se abriu. O Carlos entrou e ficou de pé, sorridente, diante daquela desarrumação.

            - Que me dizes? Tinha ou não razão?

            - Nem por isso…

            -Nem por isso, como? – protestou. -Olha que aí tens livros bem antigos! – E apontando o livro que eu tinha na mão- Olha que esse aí que tens nas mãos é bem antigo por sinal…

            - Sim… - abri o livro no frontispício – de facto… É de 1713, o que só por si –argumentei- não lhe confere valor… - e exibindo a capa em couro– Vês? A capa está bastante danificada… O título sumido… Tudo aspectos a ter em conta…

- O quê? Isso é a sério? Não tem qualquer valor?

 - Não… - e folheando-o cuidadosamente- Estás a ver? Tem notas manuscritas dos antigos proprietários, o que lhe confere menos valor ainda. – E apontando a pilha dos que seleccionara – como este, também aqueles não têm qualquer valor.

- Não é possível! – e desapontado- Eu que fazia ideia de vender-tos...

- Os únicos de valor são aqueles – e apontei para a pilha dos livros rejeitados. – Mas infelizmente são de assuntos que não me dizem nada…

O Carlos abanou a cabeça enquanto contemplava a sua pequena biblioteca arrasada e sem qualquer valor, o que o entristeceu. Debruçou-se e pegou na pilha de livros que eu rejeitara. Dirigiu-se à porta, e voltando-se:

-Olha; já sei: Porque não ficas com esses aí, para ti?

-Mas não valem nada…Não posso dar-te nada por eles…

 -Eu ofereço-tos.

E foi assim que, entre outros, me chegou às mãos “O Desengano Da Medicina”, dado à estampa em 1713 e que na página 19 tem, curiosamente numa receita para as lombrigas e para as chagas velhas e peçonhentas, uma nota escrita em grafia antiga pelo punho de alguém que assina: «Costa Cabral.»

Este Costa Cabral seria o famoso liberal cartista do século XIX? E se foi, estaria ele, quando escreveu a referida nota, a pensar nos seus fidigais inimigos vintistas? Intrigante, não é?

Nisto consiste, meus caros amigos, a riqueza dos livros antigos. O que significa para o possuidor de um livro destes uma nota manuscrita há possivelmente século e meio? Mistério… Curiosidade…

Muitos anos depois deste episodio e das minhas interrogações sobre a nota do livro, entrou-me no escritório, para um assunto de partilhas, uma senhora que dizia ser uma das filhas do velho Limão. Contou-me então, que o pai fora condiscípulo no colégio jesuíta de S. Fiel de um dos descendentes do liberal cartista  Costa Cabral. Ficou resolvido o mistério; satisfeita a minha curiosidade

Este humilde volume esteve décadas fechado naquele armário, sem ser tocado ou cobiçado por ninguém, depois da morte do velho Limão, seu último proprietário. As folhas ganharam um ligeiro tom creme, aquela patina dos livros envelhecidos, que precede o seu amarelecimento. O papel grosseiro muito maltratado, a capa em couro escurecida e cortada da traça. No entanto o seu conteúdo mantém-no interessante e vivo.

Afinal este livro tem três séculos de história! Apesar de ser pouco nobre, carrega memórias que os livros novos não têm.

É por isto que há muito tempo nutro pelas mãos e pelos destinos que estiveram em contacto com este livro, um sereno e profundo amor.

 

 



publicado por Manuel Maria às 14:43 | link do post | comentar

6 comentários:
De ana a 15 de Março de 2008 às 22:50
"nutro pelas mãos e pelos destinos que estiveram em contacto com este livro, um sereno e profundo amor. "

Que modo tão bonito de dizer!
Só pode ser mesmo muito sentido.


De Jofre Alves a 16 de Março de 2008 às 16:09
Os livros antigos e raridades já foram minha intensa paixão. Quando andava e circulava por Lisboa era cliente e visita permanente dos alfarrabistas do Bairro Alto, em busca de velharias de História e de Camilo Castelo Branco. Livros, antigos ou novos, são uma paixão. Motivo pelo qual este artigo, escrito com tanta sensibilidade me atraiu. Boa semana.


De Ribacôa a 17 de Março de 2008 às 01:06
Sou mais um a juntar ao rol dos que "padecem" dessa doença. O meu melhor achado ocorreu há cerca de 25 anos, quando num desses alfarrabistas da rua do poço dos Negros, em Lisboa, me deparei com a primeira edição do romance - Maria Mim - de Nuno de Montemor. Um dos meus melhores troféus, comprado por "tuta e meia".


De Manuel Maria a 21 de Março de 2008 às 09:54
Ora aí está um livro que li e reli, até porque vivi no cenário dele. O meu pai foi inaugurar o posto de Quadrazais, andava eu pelos meus despreocupados 3 ou 4 anos. Gente genuína, de uma pureza de alma, resca como os ares da vizinha ginestosa; a terra de um barro vermelho, quase sanguíneo, que torna sanguíneas as gentes que dela se alimentam; um verde dos castanheios, tão calmo, que apazigua a alma do viajante.
Foi ali que prendi a tirar "à canhota" e levei um valente coice da mula de um contrabandista. Há lembranças que marcam!


De Ribacôa a 21 de Março de 2008 às 23:24
Caro Manuel Maria. Se ler o livro só por si já nos dá uma uma ideia clara da realidade dessas terras e dessas gentes, ter vivido a realidade no seu meio ambiente, deve ter sido uma experiência excepcional. De sublinhar o facto dos Quadrazenhos possuirem dialecto próprio, uma raridade em Portugal.


De Manuel Maria a 9 de Abril de 2008 às 10:17
O dialecto, infelizmente não aprendi. Só insinam aos que consideram seus. Um amigo de meu pai, Guarda Republicano também e que viveu entre eles mais de 30 anos, aprendeu o dialecto, o que é bem curioso, tratando-se de um «linguajar» de contrabandistas para iludir as autoridades.


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