Sexta-feira, 21 de Setembro de 2007

 

 

 

  

Vilar Maior, tantos de tal

 

Meu Caro,

 

És poeta? Subiste às nuvens com a fama? Deixa-te de peneiras e aterra, que isso de ser poeta é uma grande treta, te digo eu, que sou teu amigo. Os poetas, nas palavras de um célebre humanista do séc. XV, «formam uma raça independente, que constantemente se preocupa em seduzir os ouvidos dos loucos com coisas insignificantes e com fábulas ridículas. É espantoso que com tal proeza se julguem dignos da imortalidade». E continua: «esta espécie de homens, está, acima de tudo, ao serviço do Amor-Próprio e da Adulação». Lembra-te das sábias palavras de S. Jerónimo: «ματεωτας ματεωτετωυ ταπαυτας ματεωτευ». Vaidade das vaidades, tudo é vaidades.

Escreveste um livro? Dois? Três? E depois? A Fátima Lopes, o Rodrigo Guedes de Carvalho, o Sousa Tavares, também escreveram! E só por isso são escritores? Valha-nos Deus! Se eles são escritores eu sou Petrarca! E digo-o com a mesma autoridade com que o Vasco Polido Valente, essa figura singular da nossa praça, chamou ao Aquilino «escritor medíocre».

Fica sabendo que é mais fácil a um idiota ter cenotáfio no Panteão Nacional, que um bom poeta ser reconhecido pelo público. È até fácil reconhecer o valor de um homem nos vários campos do humanismo. Mas um poeta? Sim; um poeta? Poderá alguém saber que é um poeta? E Grande? Ri-te, que rirei eu no fim!

Pois bem, para veres que não é a dor de cotovelo, mas a amizade o motivo desta minha carta, aqui te deixo um exemplo concreto citado por Delfim da Costa, em como esta coisa de ser poeta depende mais de interesses pessoais e conhecimentos nos meandros da crítica, do que de critérios literários.

Escrevia o insuspeito Urbano Tavares Rodrigues, em meados de sessenta, a respeito de um neófito poeta e seu livro:

« Os versos encantadores de … (omite-se o nome do livrinho) anunciavam  já a problemática  que hoje enriquece  a vida  mental de… (ressalva-se o do autor por pudor) e, sendo esses versos, como são, de bonne frappe (esta foi de mestre!), revelam o poeta lírico, que uma vez controlado por mais áspera auto-crítica, juntando o refinamento estético ao temperamento emocional que lhe exalta e acende as vivências – parece capaz de todos os voos».

Agora ouve, meu caro, o que o Diário de Notícias disse: « … , afirma-se poeta de lei, vivendo a emoção sentimental e sabendo exprimi-la sinceramente em versos embaladores, melodiosamente ritmados, matizado o pensamento de imagens multicores, ora na singelez popular das redondilhas, ora na gravidade austera dos decassílabos heróicos ou na majestosa imponência  dos alexandrinos, modelando em formas harmoniosas a essência da inspiração».

O Primeiro de Janeiro, num rasgado elogio, apregoou urbi et orbe o certificado de pedigree do poeta «… é o livro dum poeta. E publicam-se tantos livros de versos, tão poucos poetas se revelando, que é agradável ler um livro como este em que a chama da poesia se sente crepitar. … trabalha a redondilha com toda a graça e subtileza.»

E ficamos por aqui nos elogios da crítica, porque pela amostra já vês, meu caro, o calibre da questão. Nada melhor que dar-te a saborear a voz do tão elogiado poeta, para sentires a forma «emocional em como ele exalta as vivências», em como «faz crepitar a inspiração»:

 

Humanismo integral. Assim se intitula o poema.

 

Na escola ensinava o mestre

Com seu ar profissional:

-Nunca se esqueçam: O homem

é animal racional.

Mais tarde, na aula de filosofia,

Dizia outro mestre com voz beatífica:

-Animal é o género próximo

racional é a diferença específica.

 

Uma mulher (que lidou comigo

Em convívio ideal

Levitando em profunda abstracção)

Dirá que sou um intelectual!

 

Nenhuma conseguiu ter

A minha visão total:

O excesso de ambas as coisas:

 

-Animal e racional.

 

Reconheces o «refinamento estético», o temperamento emocional, que lhe exalta e acende as vivências»? «os versos harmoniosamente ritmados»? «as imagens multicolores»? «a singeleza popular das redondilhas»? «a gravidade austera dos decassílabos ou a majestosa imponência dos alexandrinos»? Não??? Ainda duvidas que se trata de «um poeta de lei»? Duvidas, meu caro? Pois deixo-te com o elogio de um imortal, Júlio Dantas (nem mais nem menos), a respeito do mesmo livro e poeta. Este não vais contestar:

«Acabo de ler o seu livro. De todo o coração o felicito e lhe agradeço. Estamos na presença dum poeta. Nos seus versos há poesia (poesia verdadeira!), há alma, há vida, há centelha, há clarões, há talento às mãos cheias»

Dixit Júlio Dantas! Voltemos novamente ao poeta, só por causa das teimas:

 

Inspiração, se chama estoutro poema.

 

Para fazer os meus versos

Não posso ficar em casa.

O tecto prende-me a alma

Inquieta qual bater de asa.

A secretária e a cadeira

Não bastam para os poemas:

Não cabe lá a alma inteira

Nos seus variados temas.

 

Sublime inspiração! Aqui de facto «há vida, há centelha, há clarões, há talento às mãos cheias»! Agora outro poema, e não te maço mais, meu caro, só para veres o que é o erotismo, bem à portuguesa, do referido poeta. Esqueçamos o título e vamos ao que interessa:

 

Quanta mulher fascinante

Beijei

E (julgava…) amei

Pela manhã adiante

E logo esqueci

Com a indiferença que sinto

Por todo o jornal que li.

 

Mais palavras para quê? Como vês, meu caro, já muito homem ilustre se enganou e iludiu publicamente acerca do que é ser poeta e do que é boa poesia. Não te deixes pois tu iludir também com os brados de entusiasmo, muito menos com os que forem iluminados pelo clarão da tua nova e recente poesia. Lembra-te sempre que, como dizia Bernardim Ribeiro no seu famoso poema, «perdigão perdeu a pena…  não há mal que lhe não venha», que para bom entendedor, o mesmo é dizer: «Quem muito alto sobe, muito baixo desce», também!

És poeta? E depois?

 

O teu

(ass )

 

 

 



publicado por Manuel Maria às 11:12 | link do post | comentar

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