Segunda-feira, 17 de Setembro de 2007

 

 

 

 

 

            Outro dia comentava com o Bernardino a dificuldade em arranjar uns sapadores florestais para me desbastarem a mata da Atalaia, ao que jocosamente este observou:

            - Aí, só a limpeza da “foice” do ti Diogo, que tudo levava à frente.

            A “foice” a que se referia o Bernardino, era o fogo. Veio então à baila o longínquo dia em que o ti Diogo, incendiou as medas de pão do Manuel Simões e o deixou “a pão pedir”com cinco filhos pequenos. Passaram um ano de fome os coitados.

            - Foi um incêndio, de como não há memória – lembrou o Bernardino.

Depois contou como nessa noite, a ti Celeste, que tinha fama de sovina, assustada com o enorme clarão do incêndio, foi à dispensa e, trazendo o presunto e uma garrafa, propôs ao estremunhado ti Zé Franco:

- Comamos e bebamos, homem... que vem aí o fim do mundo!

            Levou cinco anos de prisão o Diogo por aquela façanha, no tempo em que ainda havia justiça.

            Esta conversa do Bernardino recordou-me o velho Diogo, encurvado, de andar vagaroso, sem o qual eu não consigo imaginar a Ladeira da Cruz, a minha aldeia, os meus tempos de rapaz; era um homem enigmático, cujo passado incendiário o votou ao ostracismo da aldeia e dava origem a todo o tipo de conjecturas e suspeições. Havia um incêndio na Folha das Moitas? Fora o ti Diogo. Faltavam pimentos na horta da ribeira? Fora o ti Diogo. Desaparecera a galinha do poleiro? Fora o ti Diogo! Também a garotada alinhava neste jogo, atirando-lhe chufas, quando passava:

            - Há fogo! Há fogo no cu do ti Diogo!

            E o ti Diogo, fazia a sua vida, indiferente às chufas, alheio à indiferença dos outros, amanhando uma horta que tinha lá para as bandas das Retortas., mesmo por baixo da minha Correia.

            Pois era por estes empedrados caminhos da minha aldeia que o velho Diogo passava apoiado na sua pequena sachola, sempre que vinha das Retortas, o que fazia todos os dias pela manhã e pela tardinha, fosse dia de semana ou de nomeada. Lembro-me dele por estes caminhos, como um homem franzino, já alquebrado pela idade, com um coto no braço esquerdo, que lhe ficara de um acidente de pesca à bomba, olhos de um azul clarinho, translúcido, vestido de forma andrajosa, sempre com barba de semana; uma eternidade a subir a ladeira no passo instável e pesado.

            Eu, rapazola, quando vinha da Correia e assomava ao Pombal, vendo-o a subir a meio da ladeira, fazia com ele sempre o mesmo jogo: Deitava a correr, Pinguelo abaixo, dobrava a horta do Seixas subindo a ladeira, e alcançando antes dele a cruz, cumprimentava-o:

-Boas tardes ti Diogo!

           E ele, apoiando-se na sachola, sem se virar, correspondia ao cumprimento com um invariável:

- Boas tardes nos dê Nosso Senhor!

E estas palavras, tenho a sensação, eram as poucas que trocava com alguém da aldeia durante anos a fio.

           

            



publicado por Manuel Maria às 10:21 | link do post | comentar

1 comentário:
De KATEKERO a 24 de Novembro de 2007 às 01:59
Retrato perfeito o que o Manuel Maria faz do ti Diogo, homem que também eu conheci perfeitamente .
Porém, acrescentaria apenas um pormenor, qual verdadeira imagem imagem de marca, que tinha a ver com o facto de, sempre que regressava do campo, carregava invariavelmente um molho de giestas às costas.


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