Quinta-feira, 9 de Agosto de 2007

 

 

 

 

Lisboa, Janeiro de 1940

Publicado no Jornal do Fundão em 12 de Agosto de 1994

 

                Quis a sorte que nos viesse às mãos um texto quase inédito de António José Saraiva. Publicado num jornal escolar de reduzida tiragem, António José Saraiva traduziu, como sempre depois, o seu amor à Gardunha, às Donas e ao Fundão. Já nos últimos meses de vida, em inquérito de um jornal, A.J.S. considerava o Fundão a mais bela terra e a melhor para viver, O grande pensador, honra e glória do país, aqui veio repousar para sempre. Deve o Fundão, agradecido, dizer quanto se honra e orgulha de ter entre os seus maio­res um homem de tão alta craveira intelectual e moral, grande Mestre do pensamento.

 

                "Na minha aldeia há uma fonte na encosta de uma serra (onde por sorte bebi também bastas vezes ), escondida entre quatro pare­des de pedra tosca, cuja água corre por uma telha de barro. Três léguas ao redor não há água mais fresca nem mais caridosa. Por ali passam, pisando a estrada, os homens que descem da serra a caminho do mercado, e param para dar de beber à égua e aos pequenos que vêm escondidos no fundo da carroça; ali descansam, na frescura, as ca­brinhas escorreitas que arrebitam a orelha para escutar o rumor que faz a água caindo da telha; e os bois, que transportam blocos arrancados às pedreiras barrentas, e não po­dem dessedentar-se debaixo do jugo, saboreiam ao passar a frescura que a fonte espa­lha naquele ermo.

                Como os bois, as cabrinhas montesas, e também os homens, eu fui dos que aproveita­ram a caridade desta fonte. Era-me familiar o seu murmúrio, que eu percebia de longe; e conhecia todos os segredos da sua frescura. Via correr com divina limpidez a água que se espraiava depois no meio de uma pequena floresta de ervas e avencas; e ouvia-a embebendo-me no segredo da sua música, que não era monótona aos meus ouvidos. Mais grossa ou mais fina, alta ou baixa, esta música entristecia ao entardecer; e à noi­te, debaixo das estrelas nítidas, parecia fazer-se mais nítida e mais penetrante. De vez em quando, eu molhava na fonte a língua, a garganta, os dentes, e nesses momentos senti mais toscamente, na casta limpidez da água, a grossura da minha boca.

                Todas as manhãs a fonte acolhia os meus bons dias debaixo da luz do sol. O seu cor­rer era alegre, e na areia que nele rolava brilhavam grãos de oiro. Molhava os meus olhos afugentando deles o sono, e a minha boca, abrindo-a ao ar da manhã.

                Todas as noites me despedia dela. Ia passo a passo, sem ruído, de ouvido à escuta, pro­curá-la. O seu murmúrio, difuso e fosco ao longe, aguçava-se, e cortava, por fim, como uma lâmina; não sei o que sentia nele de augusto e longo. Quando eu partia reparava que o rumor era mais nítido e mais só.

                Havia dias que eu não visitava a minha fonte. A solidão das montanhas é infinita; e eu penetrava dentro dela, como em menino visitava a igreja para sentir o terror da hóstia sagrada. Mas depois de transpor vales e montes, regressando à aldeia, eu escutava o vento a ver se ele me trazia o doce murmúrio familiar; e, sentindo os pés inchados e quentes dentro das botas, ia à beira da telha refrescar a boca curtida no sol.

                E parecia-me que ela me esperava, sozinha, no ermo tranquilo. Compadecia-me a sua solidão; aproximava-me dela para que a sua música se tornasse menos queixosa. Decerto que não era ilusão minha: se eu entristecia na solidão e procurava a compa­nhia da fonte, como não havia ela de entristecer-se longe de mim?

                Era esta fonte a minha última despedida quando eu saía da minha aldeia. Manhãzinha, antes de o comboio chegar, eu entrava pela porta de umbrais de granito; pisava a humidade, fofa, sem pressa; deixava-me encharcar no regato que corria na pe­quena floresta de ervas e avencas; abaixava-me para esfregar as mãos na areia, e ver passar a claridade no espelho frisado onde a água se espalhava; e pedia perdão à fonte de, pela última vez, molhar na sua linfa esta minha boca pecadora. E depois ouvia, be­bia, longamente, o seu rumor, que era agora - não me digais que estou enganado - uma melodia de despedida que me penetrava finamente como certas lâminas frias, ou se amortecia, ténue, na lonjura.

                Era esta a fonte que existia quando, há meses, saí da minha aldeia. Não posso garan­tir que ainda lá esteja. E desta vez, como das outras, tive o sentimento de que me despedia dela para todo o sempre, e por isso mesmo me pareceu mais lamentoso o seu ru­mor. Só Deus sabe as voltas que o mundo dá; e é possível que desta vez, afinal, ao con­trário das outras, a fonte espere indefinidamente por mim, enquanto vai dando de be­ber às cabrinhas que me viram seu amigo. Mas o que eu vos digo é que, dê o mundo as voltas que der, eu não me esquecerei da fonte que me matou a sede e a solidão, e tra­rei sempre comigo o pequenino orgulho de ter bebido numa água caridosa como ne­nhum rei do mundo bebeu ainda."

                                                                                                                                A. J. Saraiva

 

 



publicado por Manuel Maria às 11:46 | link do post | comentar

1 comentário:
De t.a. a 16 de Agosto de 2007 às 09:00
Em silêncio, minha água da fonte.


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