Segunda-feira, 11 de Junho de 2007

 

 

           

No café da Natália estava tudo com antigamente; o mesmo balcão envidraçado, a máquina de café na prateleira sob os expositores de garrafas, umas quatro ou cinco mesas à volta da lareira e na sala contígua, subindo dois degraus, a mesa de bilhar.

            No pátio, sob as escadas que levam ao primeiro andar, mais uma mesa, protegida por um guarda-sol de um vermelho desbotado. Nela já passei algumas tardes de Verão, na companhia dos meus primos, a jogar sueca.

            Uma porta ao lado do balcão, dá para a cozinha térrea da casa, de onde saiu, pano de limpar a louça na mão, a Natália. Perguntei pela família; o Chico, o Carlos, que informou ela, “estavam de boa saúde e se recomendavam”; depois pela minha gente, que disse “não ter avistado desde o Natal”.

            - Nem a minha tia Lurdes? – Indaguei.

            - Nem essa Está para a Rebolosa, com a Isabel.

            Limpando o balcão em longos círculos com o pano, quis saber o que tomava. Hesitei entre uma mini e um café. Optei pelo café, que nesse dia já vinha alegre  da casa do Amândio e ainda queria tratar do orçamento das  novas obras com o Aires.

            Tomei o café e fui andando devagar; deslizando por entre as hortas do Chão do Ribeiro, vagueei pelas ruas pouco mudadas, observei as casas. Lá estava a da minha tia Conceição no início do largo, porta fechada, janelas corridas. Bebi no chafariz por debaixo da figueira, subi à torre da Igreja e sentei-me por momentos nas resguardas a ver as diferentes tonalidades vermelhas dos telhados e do verde dos quintais. Tudo parecia estar na mesma; enquanto olhava, as memórias assaltaram-me como uma copiosa chuva de Abril. Entre aqueles telhados e quintais tinha eu vivido muitos dos melhores tempos da minha juventude. Mesmo a meus pés, em frente, o portão e as escadinhas de muitas tardes e noites apaixonadas de ardor, a cabeça quente cheia de planos e aventuras. Ali eu fora feliz, por causa dos olhos negros de uma rapariga e dos beijos ousados do nosso amor.  

Fazia-se tarde e apercebi-me que o sol já descia sobre a copa dos freixos, nos lameiros. Voltei a descer e atravessando o pequeno adro, subi pela rua deserta, passando pela longa fila de velhas casas desabitadas, torci o pé nos buracos do pavimento à curva da Ti Justina e finalmente detive-me diante da casa do padre António. No rés-do-chão uma porta enorme de madeira, já sem tinta; no primeiro andar, quatro janelões apagados. Fiquei parado, hesitante, a olhar a casa, não sabendo se devia ou não bater. Um rapazola desceu a rua; quando me viu ali especado, observou:

            -É só abrir, nem precisa bater! Suba as escadas, sempre em frente… devem estar na cozinha…

            -Obrigado – Respondi; e subitamente tinha a aldrava na mão.

            Empurrei-a com força, e a pesada porta abriu-se com dificuldade para um rés-do-chão silencioso e escuro. Do átrio pavimentado a granito subia uma velha escadaria senhorial, também em pedra, que conduzia a um largo corredor no primeiro andar, depois atravessando uma grande sala pobremente mobilada, à cozinha, num patamar ligeiramente inferior. Esta era de razoáveis dimensões, a mesa redonda e atoalhada cheia de papéis e jornais, junto à lareira, o fogão e por cima o cilindro de água quente.

 A lareira, em granito enegrecido e revestida azulejos, estava acesa; os azulejos quentes reflectiam a luz difusa do lume e em volta da lareira, sentados, o padre António, a criada e duas visitas; um homem e uma mulher, esta fazendo renda.

Quando me viram parado à porta, o padre António sorriu, a criada fez um trejeito e a mulher que fazia na renda olhou um pouco para mim e depois baixou a cabeça, para apanhar o pano.

Desci as escadas, saudei os presentes O padre António levantou-se e vindo ao meu encontro, abraçou-me. Levantaram-se também a criada e as visitas, cedendo-me lugar junto à lareira.

Assim que me sentei, a conversa continuou sem cerimónia. A criada lamentou-se da sementeira das batatas, que o padre ainda teimava em fazer, apesar dos noventa e dois anos e da saúde preclitante; o homem falou das ovelhas com que entretinha o tempo da reforma. Á minha pergunta se fazia a ordenha, encolheu os ombros, “que não valia a pena… não dava para o trabalho”. A conversa derivou para a desertificação da terra, a falta de braços para amanhar os campos, dos parentescos entre diversas famílias. A senhora da renda, de vez em quando interrompendo a conversa, insistia que o padre bebesse toda a água da garrafa, para o exame ao estômago. A criada explicou então como o padre se vinha sentindo mal… sem apetite, emagrecendo a olhos vistos… e a senhora da renda opinou que “era coisa séria… que já tivera um mal ruim assim, mas de que se curara depois de muitas e complicadas operações”. Falou-se por fim da minha mãe, falecida pelo Natal.

Aí fez-se um longo silêncio. Então o padre António poisando o copo, agarrando-me pelo braço, com a autoridade de quem foi amigo de quatro gerações da minha família, quer paterna, quer materna, sentenciou:

-A Isabelinha foi um navego! -E querendo sublinhar a mulher de trabalho que a minha mãe fora, reiterou-  toda a vida um navego!

Quando me despedi para ir falar ao Aires e subi as escadas da cozinha, senti que para trás deixava um amigo muito querido, uma testemunha privilegiada dos momentos importantes da minha família, desde a primeira grande guerra aos dias de hoje.

Nunca mais se ouvirão aquelas suas palavras precisas e oportunas com que nos acompanhou nesses momentos, pois este fim-de-semana partiu para sempre.

A vida continuará, inexoravelmente, com uma nova sensação de vazio, mas o seu espectro permanecerá como uma viçosa e alta giesta na rusticidade granítica destas terras.

 

 

 



publicado por Manuel Maria às 16:11 | link do post

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