Terça-feira, 5 de Junho de 2007

 

 

  

 

                        Tenho aqui na aldeia um magnífico castelo de muitos quartos, duas salas, sótão e dependências. Agora vai a obras novamente; A casa velha transformada em atelier de enorme clarabóia no tecto.

            A cidade morreu. O amor, os amigos, o irmão, ficaram para trás no labirinto de ruas e de carros.

            Foi um distanciamento gradual, feito de lutos sucessivos, e de repente, sem dar conta, dei por mim sózinho no meio deste verde oliva de flor em rama!

            De vaga em vaga, como canta o Zeca, pelas praias do mar eu vim, não sabendo de dor nem de mágoa, à procura da manhã clara.

            Haviam de ver-me agora a brincar à criança  a que voltei, aqui debaixo das ramadas da amendoeira do horto!

            Todas as noites me sento horas a fio, à fresca da noite, a ouvir o canto das cigarras, o coaxar das rãs na charca. E neste profundo alheamento, estiro-me de costas no restolho, nuca apoiada sobre as mãos abertas, a ver a cúplua da estrelas.

            Um dia, quando se calarem as cigarras e as rãs; quando um dia se agravar a miopia e os pontos bem distintos no céu se transformarem numa nebulosa indefinida de luz, hei-se acabar louco como o Ti Vicente em monossílabos, a resmungar: “Bô s’ta... Bô s’tá”...

            Como ele palmilharei este meu pequeno mundo de duas léguas em redor, casqueiro debaixo do braço, indiferente às vagas sucessivas de colinas e vales, fitando unicamente, nas copas das árvores ao vento, as velas enfunadas da invisível armada!

            Nesse dia já nada terei a fazer sob a amendoeira do horto. Esperarei de olhos fechados, que a brisa se levante... mas sem as mil velas do ti Vicente, faço como a lagarta: Enrolo-me numa folha deste mar verde, trémulo, deitado, sem dizer palavra, morrendo de ter-te amado tanto.

            -E depois? – quererão saber- E depois, Manuel Maria?

            Depois o halo de uma borboleta azul a subir do roseiral, a trincha esquecida sobre o cavalete da memória, o traço interrompido na tela de um sonho.

            -E depois? Ora... depois, morrem as vacas... ficam os bois!

 

 



publicado por Manuel Maria às 10:43 | link do post | comentar

3 comentários:
De t.a. a 5 de Junho de 2007 às 18:39
Morrer de amor? - isso existe?
De amor, morre-se ou vive-se?
Ouço falar em morrer de saudade, em humanos e canídeos. E, nisso, consigo acreditar.


De Anónimo a 6 de Junho de 2007 às 10:26
Comentário apagado.


De t.a. a 6 de Junho de 2007 às 22:47
Saudades do passado, é bom. Dessas, tenho algumas!
Do futuro que não terei, mais ainda...


De chanesco a 5 de Junho de 2007 às 23:24
Há uns tempos que por cá não vinha, mas sabe bem a gente perder-se por aqui.

E depois?
E depois, é claro que na aldeia a esta pergunta só é dada uma resposta...

Um abraço para Vilar Maior


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