Quinta-feira, 8 de Fevereiro de 2007

 

 

                       

 

Ele há coincidências incríveis! Não é que ontem, quando tentava acalmar a insónia, dei por mim, noite alta, a percorrer as lombadas de livros na estante da sala?

Hesitei entre a «História da Filosofia» do Nicola Abanhano, um tratado sobre «A Verdade» de Bertrand Russel, as «Poesias Escolhidas» de Pedro Homem de Mello, «As Religiões da Lusitânia» do Leite de Vasconcelos, a «História da Administração Pública» do Gama Barros, as “Escutas Telefónicas» de Manuel Valente, mas acabei atraído, imagine-se, pela «Cidade e as Serras» do Eça, indevidamente arrumado na prateleira do chão, entre o nono e décimo volumes do «Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa».

Pensei: “Foram a Marta ou a Catarina, quando cá estiveram, que o tiraram da ordem”. Nada me irrita mais que os livros fora de ordem, na estante. De cócoras, puxei o livro para o juntar aos restantes do Eça, e acabei por abri-lo. Folheando-o ao acaso, li o seguinte texto no último parágrafo, do capítulo VII do mesmo:

 

“Só o relógio monumental, que marcava a hora de todas as capitais e o curso de todos os planetas, se compadeceu, batendo a meia-noite, anunciando ao meu amigo que mais um dia partira levando o seu peso – diminuindo esse sombrio peso da vida, sob ele gemia, vergado. O Príncipe da Grã-Ventura, então, decidiu recolher para a cama – um livro… E durante um momento, estacou no meio da Biblioteca, considerando os seus setenta mil volumes estabelecidos com pompa e majestade como Doutores num Concílio – depois as pilhas tumultuárias dos livros novos que esperavam pelos cantos, sobre o tapete, o repouso e a consagração das estantes de ébano. Torcendo molemente o bigode caminhou por fim para a região dos Historiadores: espreitou séculos, farejou raças: pareceu atraído pelo esplendor do Império Bizantino: penetrou na Revolução Francesa donde se arredou desencantado: e palpou com mão indeliberada toda a vasta Grécia desde a criação de Atenas até à aniquilação de Corinto. Mas bruscamente virou para a fila dos poetas, que reluziam em marroquins claros, mostrando sobre a lombada, em ouro, nos títulos fortes ou lânguidos, o interior das suas almas. Não lhe apeteceu nenhuma dessas seis mil almas – e recuou, desconsolado, até aos Biólogos… Tão maciça e cerrada era a estante de Biologia, que o meu pobre Jacinto estarreceu, como ante uma cidadela inacessível! Rolou a escada – e, fugindo, trepou até às alturas da Astronomia: destacou astros, recolocou mundos; desceu, começou a procurar por sobre as rimas das obras novas, ainda brochadas, nas suas roupas leves de combate. Apanhava, folheava, arremessava: para desentulhar em volume, demolia uma torre de doutrinas: saltava por cima dos Problemas, pisava Religiões: e relanceando uma linha, esgravatando além num índice, todos interrogava, de todos se desinteressava, rolando quase de rastos, nas grossas vagas de tomos que rolavam, sem se poder deter, na ânsia de encontrar um livro! Parou então no meio da imensa nave, de cócoras, sem coragem, contemplando aqueles muros todos forrados, aquele chão todo alastrado, os seus setenta mil volumes – e, sem lhes provar a substância, já absolutamente saciado, abarrotado, nauseado pela opressão da sua abundância. Findou por voltar ao montão de jornais amarrotados, ergueu melancolicamente um velho «Diário de Notícias», e com ele debaixo do braço subiu ao seu quarto, para dormir, para esquecer.”

 

Sendo a minha biblioteca, infinitamente mais modesta que a do bom Jacinto, nem tive a veleidade de subir à Astronomia, recuar até aos Biólogos, pisar as Religiões, saltar Problemas. É que a prateleira mais alta das minhas estantes, está bem ao alcance da mão e, o cumprimento das lombadas, abarca-o à vontade três medidas dos meus braços abertos.

Assim, percebe-se bem, que enfadando-se o bom Jacinto com tanta abundância, mais depressa me enfadei eu com tanta falta dela.

Voltando a enfiar o livro na prateleira e, dando meia volta, durante um momento estaquei no meio da sala, desanimado, à procura de um jornal, de um papel qualquer para ler.

Pelos vistos, aqui não há memória de que algum dia tenha chegado o «Diário de Notícias»! E os papéis soltos, esses, acabam invariavelmente na lareira, a atear o fogo!

À falta de melhor, apanhei resignadamente um velhinho «Nordeste» que estava esquecido no parapeito da janela, debaixo de uma pilha de códigos desactualizados, e com ele debaixo do braço subi ao meu quarto, para dormir, para esquecer também.

 

 



publicado por Manuel Maria às 12:48 | link do post | comentar

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