Quarta-feira, 25 de Outubro de 2006

 

 

 

             Duas da tarde. Abre-se uma porta de par em par. Na sala, por detrás de uma grande secretária, estava sentado um homem jovem com um cabelo escuro e olhos pisados. Levantou os olhos dos papéis e estendeu-me a mão. Atrás de mim entrou a colega com o funcionário e de mão estendida, disse:

            -Parabéns, senhor doutor pelo novo rebento. Como estão, filhota e mãe?

            O jovem Juiz sorriu; fechou o processo e atirando-o para a pilha onde já se amontoavam outros, correspondeu ao cumprimento:

-Obrigado doutora. Estão bem, graças a Deus. Mas a cachopa é insaciável. – E iluminando-se-lhe o rosto, prosseguiu com voz suave e terna – veja lá que tive de me levantar de noite para a acalmar…deitei-a sobre o peito e de tão esfomeada, começou a chupar-me o queixo.

Todos sorrimos imaginado o jovem Juiz com a filhinha recém-nascida naquela íntima cena doméstica. A conversa a partir daí, girou em torno da importância do leite materno na primeira quinzena de vida; do clostro nos seios da esposa do jovem Juiz, que obstruía os mamilos, e aí a colega atreveu-se a sugerir a ordenha para um recipiente, para que se pudesse amamentar a petiz. O jovem Juiz percebendo que já era intimidade a mais, reabriu o processo e atalhou:

-Senhores doutores, vamos ao que interessa. Não conseguimos um acordo? Que me dizem?

Aí percebi as olheiras e ar cansado do jovem Juiz. A noite fora mesmo em branco e a vontade de realizar o julgamento nenhuma.  

-Senhor doutor, a questão é simples – resumi – : Temos uma doação sob condição resolutiva, mas em que não previram as consequências do incumprimento na escritura. A jurisprudência e doutrina são pacíficas nesta matéria…-aqui a colega deixou claro que não concordava - e ainda que assim não fosse…- continuei, ignorando as objecções - está especificada no saneador a impossibilidade de cumprimento dos meus clientes... -novo trejeito de discordância da colega.

-Mas existe uma acta onde se especificam as condições e as consequências – contrapôs a colega.

-Ai sim, colega? – Ironizei –. Se já existia em 2001, porque só agora aparece com ela? - E com redobrada ironia – será mesmo genuína essa acta, colega?

O jovem Juiz adivinhando o imbróglio em que se iria tornar o julgamento, fez um ar sério; franziu as sobrancelhas, irritou-se.

-Bem… bem… senhores doutores, já “vi o filme todo”… mas vou já avisando – atirou enigmático – comigo ninguém sairá a ganhar deste processo… chamem por favor os vossos clientes!

Entrou o João Tomé que expôs a sua razão. O Presidente da Junta contrapôs a da Junta. O jovem Juiz foi sugerindo várias soluções, todas liminarmente rejeitadas por ambas as partes. Passou o tempo e não saiu “fumo branco”. Pegaram-se o Presidente da Junta e o Tomé. Peguei-me eu e a colega. O jovem Juiz perdeu a paciência, consultou o relógio: Três e meia da tarde.

- Senhor funcionário, quantas testemunhas temos?

-Sete, senhor doutor; - e consultando a folha da chamada, confirmou – cinco da Autora, duas dos Réus, não contando o depoimento de parte.

-Então já não há tempo para fazermos o julgamento; - concluiu o jovem Juizvamos marcar uma nova data senhores doutores!

Que remédio senão concordarmos… Era um Juiz jovem, mas já “com a escola toda” dos adiamentos!

 



publicado por Manuel Maria às 13:53 | link do post | comentar

mais sobre mim
Março 2014
Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab

1

2
3
4
5
6
7
8

9
10
11
12
13
14
15

16
17
18
19
20
21
22

23
24
25
26
27
28
29

30
31


posts recentes

PELO NOSSO IRMÃO MARCOS, ...

Canção do Volfrâmio

Bom Natal a todos!

O Primeiro Lugar da Poesi...

dramátia Aldeia ao abanon...

RAMOS ROSA E O SEGREDO O...

Recuperação do Património...

As viagens Iniciàticas de...

Os Talassas

Saudade Estranha

Tradição e Pragmatismo

Romance da Branca Lua

Cavaco e o canto da Maria

Crónica do Bairro Alto – ...

Uma História do Arco Da V...

Chá de Erva da Jamaica

Cada cabeça sua sentença!

Tribunal Constitucional ...

Até um dia, companheiro!

Meu último quadro

Paul, o dragão

A Terra Dos Cegos

A venda de uma vaca

Os Insensatos

Nostálgia...

O "Assalto" ao Castelo d...

A Conjura dos Animais

Lenda do Cruzeiro de Saca...

Boas festas!

tatoo

arquivos

Março 2014

Fevereiro 2014

Dezembro 2013

Novembro 2013

Outubro 2013

Setembro 2013

Julho 2013

Junho 2013

Maio 2013

Abril 2013

Março 2013

Fevereiro 2013

Janeiro 2013

Dezembro 2012

Novembro 2012

Outubro 2012

Setembro 2012

Agosto 2012

Julho 2012

Maio 2012

Abril 2012

Março 2012

Dezembro 2011

Outubro 2011

Setembro 2011

Agosto 2011

Junho 2011

Maio 2011

Março 2011

Fevereiro 2011

Janeiro 2011

Dezembro 2010

Novembro 2010

Outubro 2010

Setembro 2010

Agosto 2010

Julho 2010

Junho 2010

Maio 2010

Abril 2010

Fevereiro 2010

Janeiro 2010

Dezembro 2009

Novembro 2009

Outubro 2009

Setembro 2009

Agosto 2009

Julho 2009

Junho 2009

Maio 2009

Abril 2009

Março 2009

Fevereiro 2009

Janeiro 2009

Dezembro 2008

Novembro 2008

Outubro 2008

Setembro 2008

Agosto 2008

Julho 2008

Junho 2008

Maio 2008

Abril 2008

Março 2008

Fevereiro 2008

Janeiro 2008

Dezembro 2007

Novembro 2007

Outubro 2007

Setembro 2007

Agosto 2007

Julho 2007

Junho 2007

Maio 2007

Abril 2007

Março 2007

Fevereiro 2007

Janeiro 2007

Dezembro 2006

Novembro 2006

Outubro 2006

Setembro 2006

Agosto 2006

Julho 2006

links
Visitas
blogs SAPO
subscrever feeds