Sábado, 23 de Setembro de 2006

 

 

 

 

Há-de ser um dia pela tardinha,

quando o sol caír no serrado do Pedro,

eu deitado na cama de linho alvo,

as janelas escancaradas para a rua,

e tu sentada junto a mim, chorosa, pálida,

direi-te adeus, a ti, aos teus olhos tristes,

e comoverá toda a gente o  nosso adeus.

 

Depois, porás a colcha branca de damasco à varanda,

o cruxifixo de madeira na cabeceira

ladeado por duas lamparinas brancas,

O Daniel tocará o sinal da Extrema-Unção,

virá o prior de sobrepliz e estola roxa,

com a caldeirinha de àgua-benta e a cruz à frente,

o povo no balcão rezará o benedictus,

na rua tilintarão os chocalhos do gado,

E quando no relógio da sala derem as vinte,

chegará finalmente a minha hora:

Reclinarei a cabeça no travesseiro,

e vendo os meus olhos baços, vazios,

compadecida, cerra-los-ás,

e não te afastarás um só momento da cabeceira.

 

As Beatas entoarão noite dentro o miserere nobis

e como há-de ser precisa uma sepultura,

o João Monteiro fará, por misericórdia e amizade, de coveiro,

fecharás as portadas das jenelas em sinal de luto,

pela casa cheirará a alfazema e fromol,

 os teus olhos pisados, humedecerão de vez em quando,

 toda a gente andará em bicos de pés

com medo de me acordarem,

o relógio da sala parará com falta de corda,

e passadas vinte e quatro horas,

virá outra vez o prior de sobrepliz,

 à frente outra vez a caldeirinha com a cruz,

o Daniel tocara a finados,

e tu, querendo-me ver pela última vez,

debruçar-te-ás sobre mim num doloroso adeus,

enxugando as tuas lágrimas no lenço,

cobrirás o meu rosto com ele,

antes que sobre mim fechem o caixão.

 

E depois, hão-de levar-me em compasso lento para a matriz,

onde  rezarão os ofícios em latim

-a meu pedido, ficas a saber-

e após, sairei em romaria para o cemitério,

atrás do pendão das almas e da irmandade,

e para verem o enterro do poeta,  virá o povo em magotes,

das aldeias em redor, encher de curiosos o cemitério.

 

Tu, -ficas já a saber também- nessas noites, não pregarás olho,

com saudades do calor do meu corpo na cama,

mandarás rezar vários trintários,

por bem da minha alma perdida de poeta,

e nunca mais ninguém verá esse teu lindo cabelo,

sempre apanhado sob o lenço preto,

nunca mais sairás, a não ser para veres o sol,

a caír precisamente às vinte horas no serrado do Pedro,

 e nunca mais haverá vida nesses teus olhos,

porque a luz deles se apagou para sempre.

 

 



publicado por Manuel Maria às 17:16 | link do post | comentar

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