Terça-feira, 11 de Julho de 2006

 


 

 

      No res-do-chão do meu prédio há um barbearia, a que faço visitas diárias para bater uns dedos de conversa independentemente de ter ou não que aparar as minhas extremidades capilares.

       Hoje existe uma boa relação entre mim e o meu barbeiro que vai muito além da  simples apreciação artística dos tipos de corte que vão bem na minha já acentuada careca.

      Mas nem sempre foi assim. Começámos a nossa relação cordialmente afastados um do outro. Eu era simplesmente o vizinho que passava á porta de toga no braço e a que ele cumprimentava com um:

      - Bom dia Senhor Doutor, como está?

      Um dia passava-lhe eu à porta e estava ele sentado a ler a bíblia no intervalo entre dois clientes. Foi então que percebi que se o estabelecimento se chamava "água viva", nada tinha a ver com aquelas àguas de colónia que nós homens usamos depois da barba e que aquele cumprimento do "venha com Deus Doutor", era mesmo por convicção e não mero  "potelache" social.

     Mas a nossa relação não evoluíu, nem sequer se transformou na de um "freguês" e "seu Barbeiro" durante muito tempo. Isto até ao dia do Jogo Portugal-Holanda em que tive a estúpida ideia de apostar uma rapadela de cabelo se a nossa selecção passasse.

     Recorri aos serviços dele para disfarçar a "rapadela" . Estava eu atado à cadeira, ele de navalha na mão e tive de confessar:

      - Sabe, Sr Hélio, é as apostas estúpidas que a gente faz. Mais valia ter ficado calado. Obrigaram-me logo ali a cumpri-la sem apelo nem agravo.

     - Pois, Sr Doutor - e disfarçava o riso- sabe como é... isto tem umas poucas "peladas", agora vai ser difícil de disfarçar... sugeria-lhe um pente três, que acha?

    - Olhe Sr Hélio, agora tanto me faz, faça o que achar melhor... entrego-me completamente nas suas mãos.

     Ele percebeu bem o enfase daquele  "entrego-me completamente". Estava mesmo completamente nas suas mãos, ou não poderia saír à rua durante semanas. Ele lá disfarçou a carecada, e no dia seguinte pude-me  apresentar minimamente condigno no Tribunal.

     Fiquei-lhe eternamente grato. 

    Agora somos mais que "Freguês" e "barbeiro". Somos confidentes, confessores, psicoterapeutas um do outro, cúmplices. Discutimos futebol, religião, política, a falta de estacionamento na rua. Zangamo-nos, contamos anedotas, as novidades.

    Mantemos ainda a mesma deferência respeitosa, mas sinto que já não é como dantes. Agora o Sr Hélio passou a cumprimentar-me com um simples:

    - Então Doutor, já lá vem?   

 



publicado por Manuel Maria às 10:29 | link do post | comentar

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