Terça-feira, 11 de Julho de 2006

 

 

   

 

     Naquela tarde subimos a serra atravessando O Campo Romão, a Malhada Velha rumo a Folgozinho. À entrada da Vila, o cemitério e na rua um camponês atrás do burro carragado de milho, regressava a casa.

      - Ó amigo, posso fazer-lhe uma pergunta?

O  homem,  parou, esperando que atravessasses a rua.

       - Oiça amigo -continuaste- este é que é o vosso cemitério?

        - É. É o nosso cemitério. Porquê?

        - Ah, muito bem... Muito bonito, sim senhor... mas o da nossa terra é muito mais bonito!

    O Homem olhou-te de cima abaixo, não sabendo que responder. Nós do outro lado da rua, retorciamo-nos de riso. E tu insistias:

       - Olhe amigo, está muito arranjadinho e tem muita gente. Sim senhor!

O homem continuava mudo sem saber o que responder e concluiste:

      - Mas o da nossa terra é muito melhor... tem muito mais gente!  A  nossa terra sim é que é!

E o homem lá arranjou coragem e perguntou:

     - E os senhores são de onde, pode-se saber?

     - Hom'essa, de Manteigas, não se vê logo?

   E nós riamos... riamos, que nem perdidos do outro lado da rua.

    Na volta às tantas da manhã, parámos na ermida da Senhora da Saúde e sentados em roda, estendeste o pano. De um bolso do sobretudo tiraste um centeio caseiro e meio queijo de ovelha. Do outro uma garrafa de vinho branco.

      - Pessoal vamos merendar. Quem tem uma navalha?

      - Onde arranjaste isso, meu lateiro? - perguntou o teu irmão Luís-

      - Ora essa, sabes bem que ando sempre com merenda no bolso!

    Fomos comendo e bebendo e no fim, perante a nossa insistência lá confessaste, que era o farnel do pastor com que nos cruzámos no alto de Valezim. 

      Quando me lembro de ti Miguel, ocorrem-me só episódios alegres como estes. Lembram-me até dos calduços que davas à malta quando te provocava.

    Recordamos-te ali no adro de Santa Maria, durante a missa de corpo presente. Estava o Etelvino que veio da Suiça, o João de Deus vindo do Luxemburgo, o Zé António  de Lisboa, o Arlindo da Guarda, o Carlos que foi comigo de Leiria.  

       Mas nenhum teve coragem de entrar Miguel. nenhum. É que doi tanto perder um amigo! E   já lá vão dois... duas talhadas grandes da minha alma.

       Duas das grandes! cortadas com a mesma generosidade com que a navalha de pastor partilhou o queijo lá na Senhora da Saúde.



publicado por Manuel Maria às 10:24 | link do post | comentar

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