Sexta-feira, 25 de Janeiro de 2013

 

               Terra fria, sem arruamentos empedrados, com quase todas as daquela comarca distante do reino, a vila, parecia, naquele inverno rigoroso, uma grande pocilga onde chafurdavam homens e animais.

               Tudo ali se apresentava negrusco, sujo e enlameado; os casinhotos dispostos ao longo da abada da colina, construídos em granito enegrecido pelos anos, ressumando a humidade, formavam uma mancha sombria na paisagem.

               Naquele dia chuvoso, mal levantara o sincelo dos campos em redor, quando do alto da velha torre, que domina aquela paisagem austera, a sentinela avistou colunas de fumo erguendo-se na direcção da fronteira.

               Um almocreve que chegava daquelas paragens, confirmou o que logo se suspeitara: Uma hoste inimiga entrara na comarca e talava a região.

               Tocou-se a rebate, recolhendo os habitantes à segurança das muralhas, que o governador da praça reforçou e guarneceu de homens em armas.

               Já tudo estava aprestado para a defesa, quando a guarda avançada inimiga apontou no horizonte e, impedindo qualquer fuga ou reforços, contornou a praça, indo estacionar ao longo da ribeira, a qual, corre mansamente a Sul entre vidoeiros desfolhados pela invernia.

               O grosso da força, surgiu apenas ao fim do dia e, avançando a passo de fadiga, progrediu na lama das ruas, refocilada por quantos porcos se criavam no lugar e que constituíam o pecúlio e dispensa daquela gente.

               Derreada, chegou a força ao terreiro fronteiro ao castelo, que as chuvas e os porcos tornaram um chavascal de vários palmos de profundidade.

               Subitamente, à testa da mesma, o comandante deteve a montada e estendendo o olhar, procurou reconhecer os derredores.

               Era um grande lodaçal rodeado de uma dúzia de casebres a que o vulto do castelo, recortado à luz mortiça do dia, dava uma expressão lúgubre.

               Ficou ali especado a olhar o seu exército atolado na lama. Depois, para o seu cavalo enterrado nas patas até á barriga, sem se poder mexer.

               Demorou-se a contemplá-los, um, dois, três minutos; e vencido e cansado, praguejou:

               - Conho, que nos atascamos!

               E desembainhando a espada, para os homens:

               - A volver!

               Assim podia a companhia de teatro ter representado o assalto ao castelo de Alfaiates… Bastava vontade e imaginação.

               São uns “pixotes”; com medo da chuva!



publicado por Manuel Maria às 08:36 | link do post | comentar

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