Segunda-feira, 21 de Janeiro de 2013

 

 

Há muito, muito tempo, junto a uma nascente, no meio de um descampado, onde mais tarde se viria a erguer uma igreja e um mosteiro, vivia um velho ermitão, rendendo culto a Deus e expiando os seus pecados.

Este ermitão, possuía, como único pecúlio, além do habito em farrapos, uma escudela de barro, que trazia presa ao seu bordão, uma sachola, e a água da nascente, de que era cioso, porque regava um jardim, de suave erva verde, de onde brotavam lindas flores semelhantes a estrelas e uma pequena horta, que ele cultivava com particular desvelo.

Um dia, quando estava o ermitão mondando ervas na sua hortinha, levantou a cabeça e viu passar ao fundo, no caminho, um homem andrajoso e coberto de pó.

-Dá-me de beber -lhe disse o viajante- e repartirei contigo do pão do meu bornal.

O ermitão, em vez de dar-lhe água, pronunciou um grande discurso, acerca dos grandes trabalhos com que escavara na rocha até à mãe daquele fiozinho de água, que naquele descampado, entre fragas e terreno maninho, tornava viçosa a sua horta.

-Por isso já vez – concluiu, por fim - não posso desperdiçar com um desconhecido esta água tão preciosa…

E o viajante lembrou-se daquele dia em que, subindo com os amigos a colina - a terra exalava a aromas estando, como a horta do ermitão, ataviada com o seu melhor manto, como uma noiva em dia de boda - e chegando ao lugar mais elevado, no meio de um jardim de flores rodeado pelas rochas do lugar, falou assim:

- Descansai aqui e abri as janelas do vosso coração, porque tenho um segredo a revelar-vos.

E sentando-se no meio deles, lhes disse na sua voz doce e calma: 

- Bem-aventurados os que não se apegam aos seus tesouros, porque só eles serão verdadeiramente livres; Bem-aventurados os que têm sede de verdade porque a sua sede os levará à fonte da vida; Bem-aventurados os que têm fome da beleza, porque a sua fome os levará ao pão!

            Decididamente - pensou- aquele ermitão ainda não tinha encontrado o Reino dos Céus, na profundidade do seu espírito.

            -Quem bebe do meu sangue – retorquiu o viajante, descobrindo a chaga aberta do peito – jamais terá sede, porque eu sou a fonte de vida eterna.

            E seguiu o seu caminho, desaparecendo por entre duas carrasqueiras, precisamente no lugar onde agora, em memória do acontecido, ergueram um cruzeiro.



publicado por Manuel Maria às 16:14 | link do post | comentar

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