Sexta-feira, 29 de Novembro de 2013

 

 

             

              Foi numa casa da Praça da República, Sabugal, que Manuel António Pina nasceu há setenta anos; e foi nessa mesma praça que deu os primeiros passos e disse as primeiras palavras, como ele muito bem sublinhou numa entrevista.

              No começo, como qualquer um de nós, ouviu as palavras dos outros, dos pais, da família, dos vizinhos, que primeiro lhe traduziram a realidade do mundo, interpelando-o à descoberta da linguagem e à plenitude do referencial da existência.

              Como ensinava Heidegger, o que fala não inventa ex-nihilo a sua linguagem sem apropriar o que lhe é pré-existente e herda.

              Isto, porque a língua materna é o sujeito antes de si, de que todos se apropriam, aprendendo a falar para poderem vir a si e existirem por si mesmo.

              O lugar concreto em que se transmitiu esta herança do dom da palavra a Manuel Pina foi a Praça da República, no Sabugal.

              Aqui, respondendo ao apelo da linguagem materna, Manuel Pina abriu a palavra dada em graça e aprendeu a falar, a nomear o logos, descobrindo-se como sujeito, construindo a sua identidade, a sua própria linguagem, o seu não-lugar.

              Por isso é que a língua materna é importante. É como uma segunda pele que nos acompanha para toda a vida para onde quer formos, desde o nascimento à morte, e ao mesmo tempo é aquilo que se desloca de nós, fazendo-nos saír ao encontro do mundo.

              Derrida dizia que a língua não é una; e falar é escrever um manuscrito a duas mãos  (duas palavras) que no mesmo gesto pedem e dão; uma que dá e outra que recebe a graça de se reinventar  e de se alienar do lugar em busca da utopia, de um não-lugar.

              É a nossa casa de onde nunca saímos, onde pertencemos, onde já não moramos, mas onde sempre regressamos, porque foi nela que aprendemos a nossa relação com o mundo e com os outros.

              É o nosso ponto de partida e uma espécie de cais de saudade onde estamos sempre a regressar.

              E foi na Praça da República que foi dada a palavra ao Manuel António Pina. Foi ali que começou a palavra do poeta. Primeiro, pela simples repetição, depois, pela apropriação do significante e do significado. E com ela Manuel António Pina disse, nomeou, deu, traduziu a realidade do mundo para quem o quisesse ouvir, construiu a sua singularidade e a sua fantasia espectral.

              Mas como todos ficamos reféns da palavra herdada para toda a vida, Manuel Pina, como homem agradecido pelo dom da palavra, regressava nostalgicamente ao Sabugal em busca da língua mãe, imóvel na sua mobilidade, móvel na sua imobilidade.

              Desde a infância refém daquela palavra herdada, da linguagem materna, toda a sua escrita foi necessariamente auto-bio-gráfica. Porque a sua linguagem foi um dom herdado, jamais a poesia que escreveu foi dele, mas da língua mãe.

              E se a palavra se recebe e a linguagem se herda, a poesia, tal como as pessoas, também tem um lugar de nascimento.

              Por isso é que a obra poética de Manuel Pina começou na Praça da República, no Sabugal!

 



publicado por Manuel Maria às 10:18 | link do post | comentar

mais sobre mim
Março 2014
Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab

1

2
3
4
5
6
7
8

9
10
11
12
13
14
15

16
17
18
19
20
21
22

23
24
25
26
27
28
29

30
31


posts recentes

PELO NOSSO IRMÃO MARCOS, ...

Canção do Volfrâmio

Bom Natal a todos!

O Primeiro Lugar da Poesi...

dramátia Aldeia ao abanon...

RAMOS ROSA E O SEGREDO O...

Recuperação do Património...

As viagens Iniciàticas de...

Os Talassas

Saudade Estranha

Tradição e Pragmatismo

Romance da Branca Lua

Cavaco e o canto da Maria

Crónica do Bairro Alto – ...

Uma História do Arco Da V...

Chá de Erva da Jamaica

Cada cabeça sua sentença!

Tribunal Constitucional ...

Até um dia, companheiro!

Meu último quadro

Paul, o dragão

A Terra Dos Cegos

A venda de uma vaca

Os Insensatos

Nostálgia...

O "Assalto" ao Castelo d...

A Conjura dos Animais

Lenda do Cruzeiro de Saca...

Boas festas!

tatoo

arquivos

Março 2014

Fevereiro 2014

Dezembro 2013

Novembro 2013

Outubro 2013

Setembro 2013

Julho 2013

Junho 2013

Maio 2013

Abril 2013

Março 2013

Fevereiro 2013

Janeiro 2013

Dezembro 2012

Novembro 2012

Outubro 2012

Setembro 2012

Agosto 2012

Julho 2012

Maio 2012

Abril 2012

Março 2012

Dezembro 2011

Outubro 2011

Setembro 2011

Agosto 2011

Junho 2011

Maio 2011

Março 2011

Fevereiro 2011

Janeiro 2011

Dezembro 2010

Novembro 2010

Outubro 2010

Setembro 2010

Agosto 2010

Julho 2010

Junho 2010

Maio 2010

Abril 2010

Fevereiro 2010

Janeiro 2010

Dezembro 2009

Novembro 2009

Outubro 2009

Setembro 2009

Agosto 2009

Julho 2009

Junho 2009

Maio 2009

Abril 2009

Março 2009

Fevereiro 2009

Janeiro 2009

Dezembro 2008

Novembro 2008

Outubro 2008

Setembro 2008

Agosto 2008

Julho 2008

Junho 2008

Maio 2008

Abril 2008

Março 2008

Fevereiro 2008

Janeiro 2008

Dezembro 2007

Novembro 2007

Outubro 2007

Setembro 2007

Agosto 2007

Julho 2007

Junho 2007

Maio 2007

Abril 2007

Março 2007

Fevereiro 2007

Janeiro 2007

Dezembro 2006

Novembro 2006

Outubro 2006

Setembro 2006

Agosto 2006

Julho 2006

links
Visitas
blogs SAPO
subscrever feeds