Quinta-feira, 31 de Outubro de 2013

 

Ó dramática aldeia de abandono,

antigas chaminés que aos poucos de vão apagando! casas vazias,

beirais que já não gotejam nestes chuvosos dias

de Outono...

E na praça o bebedouro que há anos não corre!

as portadas das janelas, com o tempo caindo...

O terreiro aqui e ali a erva invadindo,

ao pelourinho, a secular acácia que finalmente morreu,

depois de longa agonia.

 

 

Ó triste aldeia ao abandono,

lamúrio de almas transidas ao frio

de Outono...

Pardieiros, ruínas, húmido deserto

de famílias inteiras que foram por esse mundo fora,

espectros de mortos-vivos... sonho encoberto...

e saudade... tanta saudade, que ao passarmos na ponte,

o rio chora,

por nós que também vamos embora.

 



publicado por Manuel Maria às 18:00 | link do post | comentar

Terça-feira, 1 de Outubro de 2013

 

  

   O Segredo da obra de Ramos Rosa já pode ser revelado! Sob o olhar vigilante do Mestre do segundo pilar, iniciou o seu trabalho, pelo meio dia, conforme revela no seu poema, “O Aprendiz Secreto":

   «Tudo será construído no silêncio, pela força do silêncio, mas o pilar mais forte da construção será uma palavra. Tão viva e densa como o silêncio e que, nascida do silêncio, ao silêncio conduzirá».

   Este poema faz parte do livro "A Construção do Corpo” de 1969, de Ramos Rosa, que os críticos interpretam como sendo sobre o corpo como uma construção ou sobre construção propriamente dita. Este livro é, contudo, muito mais profundo, hermético e simbólico do que se pensa. É sobre "construção", é... mas de outra bem diferente; a do espírito!

   O livro "A Construção do Corpo" de Ramos Rosa trata da Arte Real, tal como o livro de Hermann Hess, "A Viagem Ao País Da Manhã", que estranhamente, à semelhança do livro de Ramos Rosa, também nunca ninguém soube interpretar correctamente até hoje.

   Acerca do livro de Hesse, os críticos dizem tratar-se de uma obra alegórica e poética de leitura hermética, ficando-se por aqui na explicação da mesma.

   O relato de Hesse é o de uma viagem alegórica de um grupo de uma misteriosa Ordem ao País da Manhã, que geograficamente é onde nasce o Sol, isto é, a Luz, o Oriente. Este Oriente não é geográfico, mas simbólico, porque a viagem também não é física, mas de autoconhecimento depois de uma iniciação. Por isso é que o autor refere logo no início a prova pelos três elementos  Ar , Terra e Fogo a que foi sujeito, correspondente à cerimónia de iniciação, e da necessidade do hermetismo no relato desta viagem, por estar obrigado ao dever de sigilo imposto pela Ordem.

   A Chave do livro de Ramos Rosa, tal como o de Hesse, está precisamente nas páginas iniciais.

   O sentido do citado poema “Aprendiz Secreto”, é claro:

   O aprendiz maçon, durante os três anos a seguir à iniciação, permanece, à semelhança dos mistérios Pitagóricos, em silêncio absoluto durante os trabalhos, para que possa ouvir as palavras dos mestres, adquirindo o conhecimento que fará saír da sua boca as palavras sábias. Os seus trabalhos fazem-se sob a vigilância do Mestre que se senta a Norte, do lado do pilar da força, Boaz.

   Não existe por isso qualquer dúvida da influência maçónica na obra de Ramos Rosa. Um outro poema da mesma obra, que a seguir transcrevo, vai mais longe, falando do Trabalho da Arte Real e da transformação que esta provoca no iniciado maçon, recorrendo a alguns dos mesmos elementos simbólicos da obra de Hesse:

 

«Sempre a tentativa nunca vã...
O equilíbrio musical dos instrumentos,
a paciência do teu pulso suave e certo,
o teu rosto mais largo e a calma força
que sobe e que modelas palmo a palmo,
rio que ascende como um tronco em plena sala.
A tua casa habita entre o silêncio e o dia,
Entre a calma e a luz o movimento é livre.

Acordar a leve chama veia a veia,
erguê-la do fundo e solta propagá-la
aos membros e ao ventre, até ao peito e às mãos
e que a cabeça ascenda, cordial corola plena.
Todo o corpo é uma onda, uma coluna flexível.
Respiras lentamente. A terra inteira é viva.
E sentes o teu sangue harmonioso e livre
correr ligado à água, ao ar, ao fogo lúcido.

No interior centro cálido abre-se a flor de luz,
rigor suave e óleo, música de músculos, roda
lenta girando das ancas ao busto ondeado
e cada vez mais ampla a onda livre ondula
a todo o corpo uno, num respirar de vela.
Sobre a toalha de água, à luz de um sol real,
dança e respira, respira e dança a vida,
o seu corpo é um barco que o próprio mar modela».

  

   No poema podemos identificar, como noutro célebre poema de Pessoa, poeta maçon e cuja obra teve influência maçónica, recentemente provada (saíu um artigo excelente no “Jornal de Letras”, sobre o assunto), o trabalho de polir a pedra as viagens iniciáticas, os elementos fundamentais do universo, alguns elementos simbólicos dos trabalhos.

   Começa logo por falar da Justa Harmonia do emprego dos instrumentos de trabalho do maçon, que é um trabalho “de pulso”, persistente, calmo e firme, modelando o que se encontra no centro da sala, que nada mais é a pedra informe, que paulatinamente se transforma em pedra cúbica.

   E esta obra de Ramos Rosa, nem é a única que tem influência maçónica. Ele escreveu pelo menos outras duas ou três, cujo título é revelador, e que a brevidade de um artigo de jornal, não permitem analisar; são elas  “A Pedra Nua”, “Estou Vivo e Escrevo Sol” e outro, cujo título até é semelhante ao de Hess, “Viagem Através De Uma Nebulosa”.

   O percurso espiritual de Ramos Rosa, só pode ser escandaloso para quem é ignorante em determinados assuntos, e é, aliás, em tudo semelhante ao de Leonardo Coimbra, Pascoais e Pessoa, que partindo da filosofia maçónica de inspiração neoplatónica, evoluíram para um misticismo, no caso de Coimbra, católico, e Pascoais, Pessoa e Rosa, de fraternidade universal, perto do panteísmo, espiritualidade e filosofia próprias de influência oriental, pacifista e ecologista, muito semelhantes ao de Tolstoy e de Hesse.

   Hermann Hesse fala na sua “Viagem ao País da Manhã” do mesmo que Ramos Rosa fala nestes poemas.

   E para desfazer preconceitos, Leal Freire, que não tem influências maçónicas,  no belo poema Prece, que já analisei num artigo sob o título “A Linguagem Poética de Leal Freire”, também canta o destino da vida, que consiste em alcançar a terra natal enquanto pátria da Alma Peregrina que regressa a casa, ao «húmus da Terra-Mãe».

   Todos os poetas sabem onde reencontram a essência das suas Almas Peregrinas: O Circuito Solar da Alma de Ramos Rosa e Hermann Hesse completa-se quando os olhos da alma desvendarem a Luz Primordial ao homem peregrino neste mundo de sombras, em busca permanente da Luz/Verdade; a de Leal Freire, quando a Sombra da «Noite» se diluir outra vez na luz difusa da «Manhã».

   No fundo, a vida de todos os homens superiores é uma mesma viagem iniciática de autoconhecimento, de ver sempre para lá das sombras, que podendo divergir no caminho escolhido, tem sempre o mesmo destino:

   Tentar ver o lado iluminado da caverna, e o  regresso à Luz Primordial do Amor Infinito do Criador, que desenha o controno das sombras neste nosso mundo transitório!



publicado por Manuel Maria às 14:09 | link do post | comentar

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