Sexta-feira, 20 de Julho de 2012

 

(Pinharanda homenageado por Quadrazenhas)

 

Quem quiser saber da biografia de Pinharanda Gomes, pode ler o excelente artigo do José Morgado no Cinco Quinas “on-line” de 02-04-2009, que está muito bem escrito e completo.

Para mim, Pinharanda Gomes é uma das mais notáveis figuras intelectuais portuguesas vivas. É um daqueles agentes da revalidação do movimento do culto do espírito, que age como catalisador e vai impulsionando a evolução, o progresso, o movimento espiritual.

E em que consiste este movimento do espírito?

Como dizia António Quadros, «Religioso ou laico, quer o mito do Espírito, arquétipo visível das elites, que haja movimento do homem e que este não seja apenas positivo, material e técnico» (no n.º 7 da revista 57).

Ou seja, Pinharanda, vê também o progresso da humanidade como evolução espiritual e os movimentos culturais como a manifestação da vertente espiritual do homem, um movimento teleológico da humanidade ou da pátria.

Nisto, tem certas afinidades com os movimentos mais recentes do «Romantismo», «Orfeu», e «Renascença Portuguesa», que estão na génese do referido movimento «57» a que pertenceram José Marinho e Álvaro Ribeiro, cujos pontos comuns seria muito interessante desenvolver, mas a brevidade de um artigo de jornal, infelizmente, o não permite.

Pinharanda, é, como bem resumiu Leal freire, um polígrafo. Contudo não tem o defeito da dispersão comum a esta actividade literária; sendo polígrafo, é, como dizia Leonardo Coimbra a respeito de Unamuno, «uma alma, um espírito da maior unidade, cheio daquela beleza que resulta da maior unidade na mais completa opulência». De facto, o seu pensamento tem a unidade própria de um sistema filosófico:

A de que cada acto humano leva consigo o peso da sua transcendência, toda a lei, instituição, governo, movimento cultural, obedecem ao plano superior do seu âmbito imediato e circunscrito e ser português é ser espiritual na medida das qualidades intrínsecas do nosso povo. Nisto se resume o pensamento de Pinharanda Gomes.

E nesta medida, tem afinidades, que talvez Pinharanda ainda não tenha percebido (quem vê de fora vê diferente) com o espiritualismo de Junqueiro, Pessoa do tempo da Águia e da nova poesia portuguesa e depois do Orphismo messiânico e sebastianista da mensagem), do messianismo de Sampaio Bruno, o saudosismo de Pascoais (este, curiosamente autor do livro Arte de Ser Português), o criacionismo de Leonardo Coimbra e o movimento cultural em torno da revista Águia o qual influenciaria, de uma forma ou outra, a Orpfeu, a Athena, a Contemporânea,  a Portugal Futurista, a Sudueste, a Serara Nova; o Integralismo, a Renovação Democrática, e o Movimento 57.

Por esse motivo, toda a obra de Pinharanda, seja na Literatura, História Religiosa, Antropologia, tem sempre por objecto tudo o que seja manifestação artística, literária, religiosa ou política do espírito português, tudo o que permita conhecer a alma genuinamente portuguesa, porque o pensamento de Pinharanda é, embora nunca o tenha visto escrito expressamente pelo próprio, como o do ideário do «57»: «não é possível servir Portugal sem conhecer Portugal. Não é possível servir o homem português sem conhecer o homem português».

O primeiro livro de Pinharanda que li foi a História da filosofia Portuguesa, por curiosidade, um ou outro capítulo cujo título mais me despertou, depois, percebendo aquela ideia global na obra, de uma só vez, do princípio ao fim.

Esta obra é fundamental na filosofia portuguesa e está ao nível e complementa o Labirinto da Saudade de Eduardo Lourenço, porque o objecto das duas é a alma portuguesa traduzida na dupla polaridade saudade-melancolia/messianismo-esperança; Pinharanda abordando o tema pela dimensão do messianismo e sua evolução nas várias manifestações da cultura portuguesa ao longo da história; Eduardo Lourenço, sobre o prisma da saudade (que Pinharanda também abordou na Introdução à Saudade), o sentimento de alma portuguesa que é contraponto e está na raiz do messianismo e Sebastianismo.

Ambos pensam Portugal de dentro para fora, sublimando a virtualidade de liberdade, imaginação e ação do povo português. Um e outro dão conta da particularidade saudosista, melancólica, messiânica e sebastianista, da carta poética, criadora e artística da nacionalidade portuguesa, que potenciam a viagem, o descobrimento e a invenção do nosso Povo.  

E se bem percebi, do que decorre do pensamento de ambos, é a reação contra esta mentalidade de dependência da nossa cultura em relação a tudo o que vem de fora, e que não tendo nada a ver com a nossa alma, esvazia todo o seu conteúdo espiritual, e só provoca dor,  angústia e estagnação.

O caminho é seguir todos os meios que, coadunados com a nossa identidade, deixem florescer as potencialidades do nosso Povo e que nos tirem deste «imobilismo paralisante».

Quando se homenageia Pinharanda Gomes, é o existencialismo e filosofia portugueses que se homenageiam. Defende-se, como ele, uma ideia de pátria viva como destino colectivo acima de quaisquer interesses egoístas. É escutar a mesma crença no destino teleológico da pátria cantada nos Lusíadas de Camões, na Pátria de Junqueiro, na Mensagem de Pessoa no Encoberto de Sampaio Bruno, no Marânus, Arte de Ser Português e Os Poetas Lusíadas de Pascoais.

Nenhum dos ilustres poetas e pensadores citados, que o antecederam, foi escutado… E Pinharanda Gomes também o não vai ser, apesar do seu futuro Centro de Estudos!…

Infelizmente, o caracter pitoresco e anedótico também caracteriza um Povo, como bem observou aquele viajante francês “civilizado” do séc. XVIII, que se admirava ser a península abundante em gado asino. Em Espanha, o couplete sobre Sancho Pança foi obrigatória ao viajante. Em Portugal, por mais difícil de fazer, encontrou o mesmo esta variante original:

«O Burro português, forte e bem tratado pelos seus donos, sabe pagar, pela sua docilidade e gentileza, os bons procedimentos que usam em relação a ele. Não é embrutecido como seu vizinho de Espanha e, a prova que ele é superior, é que ele não é mudo; ele zurra pelo contrário, com entusiasmo, eu direi mais, com voluptuosidade. Possuindo plenamente a sua liberdade, ele pode desenvolver as suas faculdades. Assim, ele recomeça voluntário o seu canto harmonioso três, quatro mesmo cinco vezes sem desfalecer, subindo a sua verga e a descendo com uma facilidade diabólica; mas não a descendo sem antes haver estado bem dura, o que marca, cremos nós, o summum de satisfação e de capacidade na arte musical asinesca.»

Que descanse pois o Josué Pinharanda Gomes, a quem daqui, de Leiria, envio um comovido e fraterno abraço; de uma forma ou de outra, com burros ou sem burros, a função terá Charanga!

E para “encher o papo” e “molhar o bico”, que sem isso nem há festa popular que se preze… “comes e bebes”!

É que a alma portuguesa, também mergulha na alma sensível da pátria “chica”…

(Por ocasião da inauguração do seu centro de estudos)

 

 



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É interessante que a fundação de Sacaparte, em Alfaiates, Sabugal, seja atribuída a D. Dinis  à Rainha Santa, e em Aldeia da Ponte e outras terras das proximidades, esteja arreigada a tradição o culto do Espírito Santo.

Francisco da Fonseca Benevides no seu estudo histórico acerca das Rainhas de Portugal (Tomo I, p. 178, 1878), e Frederico Francisco de la Figaniére no seu volume das Memórias das rainhas de Portugal (pp. 309-310 1859), bem como frei Manuel Esperança  na História Seráfica dos Frades Menores na Província de Portugal (p. II, liv.IX, cap.XVII) referem que a Rainha Santa fundou em Alenquer, cidade das rainhas, um templo de invocação ao Espírito Santo, agregado ao convento franciscano desta vila.  Aliás, Esperança e Figaniére, dão o milagre das rosas, como tendo ocorrido em Alenquer, por aquela ocasião.

Francisco Brandão na Monarquia Lusitana (p.6,1. xviiii, c. 42) diz que a mesma rainha instituiu o mesmo culto em Sintra, na sala dos infantes, dos paços daquela vila, que estavam na sua posse por concessão da Ordem de Cristo ou do Templo, a quem pertenciam. Estas celebrações, consistiam numa boda em cerimónia do "Imperador do Espírito Santo", ou do império, e o mesmo Manuel Esperança refere terem sido Santa Isabel e D. Dinis a instituírem o culto em Portugal. 

A doutrina subjacente a este culto, como diz o padre frei Diogo do Rosário, no seu tratado da Sacratíssima festa do Espírito Santo (p.439, col.1.ª) é que foi Cristo que pregou a vinda do Espírito Santo, quando disse aos seus discípulos que lhe enviaria outro mestre, e consolador, que os acompanhasse, esforçasse, e consolasse em todos os seus trabalhos, após a sua partida. Portanto todo o Evangelho seria profecia do Espírito Santo, e como os profetas foram profetas de Cristo, este foi-o do Espírito Santo.

Esta doutrina, de que a palavra de Cristo está no Evangelho inspirado pelo Espírito Santo, não precisando da intermediação de Roma, é a mesma que inspirou a renovação espiritual do século xiii, o regresso á simplicidade do Evangelho, o misticismo do abade Italiano Joaquim de Fiora (defensor do milenarismo e da idade do Espírito Santo e que através de alguns seguidores influenciaria uma corrente messiânica em torno do imperador Frederico II, o qual voltaria para inaugurar uma idade do Espírito Santo), a doutrina do Evangelho Eterno, a doutrina dos “flors d’amor” de que fizeram parte Dante, Petrarca, Bocacio e os gibelinos partidários do imperador contra a igreja, o misticismo dos franciscanos joaquinistas, e a tríplice gradação do Reino do Pai, do Filho e do Espírito Santo (Renan, Nouvelles études d'histoire réligieiuse, paris,  nouv. ed. de 1899 pp. 219 e seg) que  se propagou até ao século xvii entre nós, no Sebastianismo e mito do Quinto Império do Tratado das Ordens de D. João de Castro.

O milagre das rosas anda associado a Santa Isabel e ao culto do Espírito Santo, conforme referiu Araux no seu opúsculo sobre os mistérios da cavalaria e do amor platónico na idade média (Paris, 1858).

Os cavaleiros encantam-se da rosa selvagem; Aos poetas provençais do sec. Xi e xii, a flor das flores é a Rosa Branca do Oriente.

O romance da rosa, poema inacabado do sec. Xiii e de autor desconhecido, mas que Araux atribuiu a um Albigense, critica, na linha alegórica, oculta, e do neoplatonismo da Divina Comédia e Vida Nova de Dante, as mulheres, o clero e a Igreja.

Por sua vez, a Rainha Santa era originária de Aragão, onde se relacionou com o místico Arnaldo de Villanueva (defensor da simplicidade evangélica, e critico do clero e nobres, que com as suas riquezas e mau exemplo desviavam o povo do ideal evangélico), era vizinha do Languedoc e da Provença, tendo seu antepassado Pedro II (que cultivava na sua corte as letras e poesia provençal) combatido ao lado do conde de Tolosa, chefe dos Albigenses, contra o papado. O pai da Rainha Santa, Pedro III combateu o ao lado do império, contra Carlos de Anjou, aliado do papado; episódio este que Dante recorda no canto VII do Purgatório. A mesma Rainha Santa era devota fervorosa do apóstolo S. Tiago, ao túmulo do qual se deslocou com D. Dinis em romaria, o mesmo sucedendo, segundo alguns autores, com Dante. Compostela era, à época o contraponto espiritual ao centralismo de Roma.

Por outro lado, a Galiza, como diz Carolina Michaelis, na ed. Crítica do Cancioneiro da Ajuda, foi, tal como o Languedoc fora berço da lírica provençal, o berço da lírica peninsular e também inquinada, como o Languedoc o fora pela doutrina albigense, da doutrina herética de Prisciliano, que prevaleceu até às invasões árabes e no subconsciente do povo lusitano e galego até hoje, manifestando-se no sentimento religioso espontâneo do povo (Joaquim Correia no seu romance Celestina, a propósito da representação da paixão em Ruivós, narra um episódio comovente desta espontaneidade popular).

          Portugal mantinha ainda as tradições pré-romanas da igualdade e fraternidade, potenciado pelo culto do Espírito Santo e que inspira ainda hoje as Irmandades do Espírito Santo Açorianas. A própria raiz herética lusitana e galega do priscilianismo, patente no cancioneiro Galaico-Português e várias obras do ciclo da Graal editadas até aos descobrimentos, é expressão do sentimento religioso informal e espontâneo do povo lusitano, que apelava à união do homem com a natureza, desprezando o peso da religião organizada, romana e canónica.

Foi desta mesma raiz que nasceu a propriedade comunitária e florescesse uma rede de repúblicas municipais, muitas delas no tempo de D. Dinis. A Irmandade dos Municípios de Riba-Côa, região repovoada também por galegos, inspirava-se igualmente neste espírito de fraternidade e igualdade.

Foi o mesmo D. Dinis, que incentivou o culto do Espírito Santo, que recusou cumprir as ordens do papado e destruir a ordem do Templo, sendo Tomar, terra templária por excelência, onde no continente mais se venera o culto do Espírito Santo.

É nos Açores, terra onde maior influência espiritual teve o franciscanismo místico, que mais arreigado está o culto do Espírito Santo.

Também não será por acaso que Alfaiates, terra que foi da Rainha Santa, como Alenquer, esteja associada ao culto do Espírito Santo, que ainda tem reminiscências em Aldeia da Ponte.

Observando uma árvore a partir do tronco, só vemos os primeiros ramos; contudo sabemos que ela tem sucessivos ramos, sobrepostos em altura até à copa. A História é também como uma árvore: Dela só conhecemos o que mais facilmente está ao nosso alcance; o resto subentende-se.

Adivinho o sorriso céptico de alguns leitores perante o paradoxo da minha tese. Sorrio eu cepticamente dos métodos e preconceitos dos que substituem a actividade construtiva do espírito à passividade intelectualista dos conceitos perfeitos e acabados.

Como dizia Leonardo Coimbra nos seus Dispersos II – Filosofia e Ciência, o homem vê consoante os seus olhos aprenderam a olhar, isto é, pensa e vê como toda a gente.

«O paradoxo é a operação violenta e voltar para a esquerda um pescoço que se habituou para a direita, é a chamada enérgica da atenção, da liberdade individual, para o lado esquecido das realidades. O Paradoxo é o relevo do insólito, é o descolamento de impressões que a passividade do hábito tinha soldado.»

E «[…] Pode dizer-se que a ciência progride por paradoxos…» (Ed. Verbo, p. 306)

O último sorriso sabe bem melhor. 



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I

Os poetas, nas palavras de Erasmo, «formam uma raça independente, que constantemente se preocupa em seduzir os ouvidos dos loucos com coisas insignificantes e com fábulas ridículas. É espantoso que com tal proeza se julguem dignos da imortalidade». E continua: «esta espécie de homens, está, acima de tudo, ao serviço do Amor-Próprio e da Adulação». 

 E dizia isto Erasmo, não por julgar a poesia um género literário menor, mas por saber que o mudo da poesia é o da adulação e da crítica elogiosa, com que de poetas medíocres, se fazem poetas da moda.

É bem difícil um bom poeta ser reconhecido pelo público. De facto, como se reconhece o valor de um poeta? Sim; um poeta? Poderá alguém saber que é um poeta? E Grande?

Pois bem, para verem como esta coisa de ser poeta depende mais de interesses pessoais e conhecimentos nos meandros da crítica, do que de critérios literários, aqui  deixo um exemplo concreto, que deu, numa das suas verrinosas crónicas, Luíz Pacheco, personagem genial com quem privei:

Escrevia o insuspeito Urbano Tavares Rodrigues, em meados de sessenta, a respeito de um neófito poeta e seu livro:

« Os versos encantadores de … (omito, tal como o Pacheco, o nome do livrinho, por caridade)  anunciavam  já a problemática  que hoje enriquece  a vida  mental de… (ressalvo o do autor também, por pudor) e, sendo esses versos, como são, de bonne frappe (esta é para impressionar os tolos!) revelam o poeta lírico, que uma vez controlado por mais áspera auto-crítica, juntando o refinamento estético ao temperamento emocional que lhe exalta e acende as vivências – parece capaz de todos os voos».

A respeito do mesmo poeta, o Diário de Notícias disse: « … , afirma-se poeta de lei, vivendo a emoção sentimental e sabendo exprimi-la sinceramente em versos embaladores, melodiosamente ritmados, matizado o pensamento de imagens multicores, ora na singelez popular das redondilhas, ora na gravidade austera dos decassílabos heróicos ou na majestosa imponência  dos alexandrinos, modelando em formas harmoniosas a essência da inspiração».

O Primeiro de Janeiro, num rasgado elogio, apregoou também  urbi et orbe o certificado de pedigree do poeta, da seguinte forma: «… é o livro dum poeta (será?). E publicam-se tantos livros de versos, tão poucos poetas se revelando, que é agradável ler um livro como este em que a chama da poesia se sente crepitar. … trabalha a redondilha com toda a graça e subtileza.»

E sugeriu Luíz Pacheco, a páginas tantas da sua crónica, para averiguarmos da justiça da crítica, saborearmos a voz do tão elogiado poeta, sentirmos a forma «emocional em como ele exalta as vivências», em como «faz crepitar a inspiração», a  leitura do seguinte poema, intitulado Humanismo integral:

 

Na escola ensinava o mestre                 

Com seu ar profissional:

-Nunca se esqueçam: O homem

é animal racional.

Mais tarde, na aula de filosofia,

Dizia outro mestre com voz beatífica:

-Animal é o género próximo

racional é a diferença específica.

 

Uma mulher (que lidou comigo

Em convívio ideal

Levitando em profunda abstracção)

Dirá que sou um intelectual!

 

Nenhuma conseguiu ter

A minha visão total:

O excesso de ambas as coisas:

 

-Animal e racional.

 

De facto podemos constatar que neste poema não existe nenhum «refinamento estético», o temperamento emocional, que lhe exalta e acende as vivências», «os versos harmoniosamente ritmados», «as imagens multicolores», «a singeleza popular das redondilhas», «a gravidade austera dos decassílabos ou a majestosa imponência dos alexandrinos»… Muito pelo contrário!

 O insuspeito Júlio Dantas (nem mais nem menos), a respeito do mesmo livro e poeta também não fugiu à regra do exagero laudatório:

«Acabo de ler o seu livro. De todo o coração o felicito e lhe agradeço. Estamos na presença dum poeta. Nos seus versos há poesia (poesia verdadeira!), há alma, há vida, há centelha, há clarões, há talento às mãos cheias»

Dixit Júlio Dantas! Voltemos novamente ao poeta, só para tirarmos as teimas:

 Inspiração, se chama estoutro poema, do tão celebrado poeta, proposto ainda pelo Luíz Pacheco:

 

Para fazer os meus versos

Não posso ficar em casa.

O tecto prende-me a alma

Inquieta qual bater de asa.

A secretária e a cadeira

Não bastam para os poemas:

Não cabe lá a alma inteira

Nos seus variados temas.

 

Sublime inspiração! Aqui de facto «há vida, há centelha, há clarões, há talento às mãos cheias»! Quem não vê a genialidade do poeta, é cego… Cegaram-no os clarões da genialidade!

Agora outro poema, também proposto pelo Luíz Pacheco, só para vermos o que é o erotismo, bem à portuguesa, do referido poeta. Esqueçamos o título e vamos ao que interessa:

 

Quanta mulher fascinante

Beijei

E (julgava…) amei

Pela manhã adiante

E logo esqueci

Com a indiferença que sinto

Por todo o jornal que li.

 

Mais palavras, para quê?

Como se vê, já muito homem ilustre se enganou e iludiu publicamente acerca do que é ser poeta e do que é poesia. Afinal, o que é ser poeta? E poesia? São questões difíceis de responder.

O mesmo se acontece com a pintura; todos julgamos possuir uma ideia do que é pintura, de reconhecer onde ela se encontre e de, em consequência, proferir juízos sobre ela. Só para termos ideia, El Greco, que foi das relações de Miguel Ângelo –um pintor que dispensa apresentação- referindo-se a este, disse: «Miguel Ângelo, sim, um bom homem; mas, coitado, não sabe pintar...». E sabemos quanto enganado estava El Greco…

Estas questões são difíceis de responder porque quando as interrogações se elevam ao nível das categorias do belo, da criação, da contemplação artística, onde não temos o suporte histórico, ou da obra, entramos no campo da pura subjectividade.

Após a leitura de uma obra poética, analisando um estilo, um tema, uma originalidade, uma técnica, uma escola, podemos dizer que ela é talentosa, sublime, genial. Pensamos evidentemente, que o seu criador é, por isso, talentoso, sublime, genial. Mas isto são conceitos que tentam explicar mecanismos psicológicos. O que significam cada um deles? Existem de facto? Existem só em determinados indivíduos, ditos artistas, e não nos outros?

Donde, falar de homem vocacionado, talentoso, genial, é falar de conceitos que, tendo evidente utilidade instrumental, são escassos como explicação de um processo criativo.

Podemos dizer portanto que uma obra é genial, mas já dificilmente isso se pode afirmar de um artista, porque a explicação da criatividade artística é mais uma questão de psicologia; o que nos remete para a conclusão de que a compreensão da criatividade estética de um poeta deve ter em conta a compreensão da sua natureza. Isto leva-nos a Manuel Leal Freire e ao seguinte poema sobre a Capeia:

 

Negro
Mais negro que os fogueiros ào inferno;
Gordo,
Mais gordo que as mulheres de um rei negróide;
Bufão,
Mais bufão do que Noto, Eolo e Bóreas à compita;

Veloz,
Mais veloz que os golfinhos de Nereu –
Entrou na praça o boi galhardo.
Escarvando,
Olfacteou o argiloso chão,
Com um ar de Satã alucinado.

Depois,
Erguendo a cabeça,
Achou pequenas a pequenez da praça
E a amplidão dos céus.

Depois, ainda,
Mugiu
Em ódio clamoroso e clangoroso.
Então,
A praça entrou nos delírios do pavor.
O forcão
Quedou-se desamparado
No meio do terreiro
E os capinhas galgaram em pânico
O espaço que os separava das trincheiras.
Sozinho,
No meio da praça,
O boi,
Já gigante,
Mais se agigantava.

Empoleirado num carro,
Exalçado a lenha
E enfeitado a colchas,
O tamborileiro rufava,
Querendo rebentar o velho bode.

Então os solteiros ganharam coragem
E, saltando aos magotes para a arena,
Imobilizaram o boi
Entre os aplausos dos homens
E os gritos das mulheres.

 

Este poema é de inegável beleza; provoca sentimento de prazer. Mas porque digo isto deste poema, e dos anteriores não?

A resposta está no temperamento, carácter diferente de quem os criou, isto é, a criatividade que está na origem dos diferentes poemas baseia-se também em personalidades diferentes. E que tipo de personalidades são esses?

Ao contrário da anterior, que é plana, a personalidade de Leal Freire é redonda, ideativa- criativa, poética, pela facilidade que tem em pôr, de forma artística, um pensamento em verso, aliando a sensibilidade estética (formal), à sensibilidade ética (criativa).

O autor dos poemas anteriores, “arruma” versos; Leal Freire, personalidade artística, vive a vida como uma forma de arte, revive no dia a dia a sua fantasia, o lúdico, o sonho, que transporta para o quotidiano o seu sonho artístico, como se vê sobejamente no seu poema Capeia.    

É que a poesia é arte, e como tal, coisa do espirito que só conhecemos tendo educado um apurado sentido ético e estético. Por isso a poesia é coisa para ser tratada com a seriedade da filosofia, como faremos daqui para diante.

II

Quem melhor perceberam isto nos tempos modernos foram Hegel e Kant, ambos partindo de Platão no diálogo com  Hippias maior, da ideia geral do belo, para elaborar uma “filosofia da arte” ou da poesia.  Aquele tratando a poesia como as restantes manifestações de arte,  mas a mais sublime entre elas; este referindo-se expressamente à poesia.

          Para Hegel, como podemos ver na Introduction à l'Esthétique, Aubier, Paris, 1964.Tradução de Mirian Magda Giannella, o belo existe aqui e em todo lugar ao redor de nós, intervindo «em todas as circunstâncias da vida» como um «génio amistoso que reencontramos em todo lugar».

 E - não é para nos espantarmos - o único belo que o interessa é o belo artístico, o das produções humanas, excluindo-se o belo natural, porque aquele, sendo produção do espírito e comunicando a sua superioridade aos seus produtos e à arte, é superior a este.

Uma das consequências dessa superioridade incontestável do espírito é que a arte não deve imitar a natureza, ao contrário do que defendia Aristóteles, mas expressar o belo, porque o seu objetivo não é de satisfazer a lembrança, mas a alma, o espírito.

A prova é que a arte sempre simbolizou, representou, figurou o sentimento religioso do homem ou sua aspiração à sabedoria, sendo graças aos vestígios artísticos das civilizações e das culturas antigas, que podemos reconstituir o que foram as ideias e as crenças que animavam os homens das épocas anteriores.

E por isso é que para Hegel, a ideia do belo é a própria realidade concreta que toma a forma sensível do belo artístico, um pensamento que não é atividade passiva, recolhimento ou distanciamento, mas  na faculdade activa  responsável pelo domínio da criatividade, da capacidade de criar formas e instaurar significados, contrário de Platão, para quem a ideia do Belo, como a do Verdadeiro e do Bem, é abstrata, a-temporal, a-histórica.

Por sua vez, na Crítica da Faculdade do Juízo, Kant distingue entre beleza pura e livre (arte à grega) e beleza dependente (conceito): A primeira, encontra-se exclusivamente na forma, sem qualquer conceito (ex. música sem palavra e determinadas artes decorativas) que agrada pela forma pura; a segunda depende de algum conceito, o qual perturba a nossa relação com o objecto.

Quando a beleza depende dos conceitos, como a poesia, somos determinados por algo cognitivo da nossa relação com a forma que atrapalha esta nossa relação com a forma. Estes conceitos podem ser determinados, com um determinação objectiva, criados através de algo no objecto que determina esses conceitos ( ex. o conceito de mesa depende daquilo que é o objecto mesa, em  que para atingirmos o conceito de mesa temos de encontra um objecto externo correspondente), ou indeterminados, sem referência externa (ex. conceito de Bem-aventurança, Vida Além-túmulo, Beleza).

O nosso entendimento, o nosso sistema cognitivo, está montado expressamente para unificar os dados da experiência e para nos conduzir a conceitos objectivos claros e distintos e não encontrando este tipo de conceitos, a imaginação vai propor-lhe imagens, aquilo a que Kant chama ideias estéticas, de modo a encontrar um correspondente objectivo para estes conceitos.

A arte dedica-se precisamente a isto, à tentativa de criar imagens (ideias estéticas, segundo Kant) para conceitos indeterminados. Por exemplo, para o conceito de beleza seria representada por uma imagem da mitologia, o Pavão de Juno. Outro exemplo é a forma como Kant representa o cosmopolitismo, escolhendo um verso de Frederico II, em que este descrevia um belo pôr-do-sol e a certa altura compreendemos que ele está a falar de si próprio no fim da vida, tal como o Sol deu a volta ao mundo e compreendeu todas as coisas também o homem cosmopolita conheceu tudo, deu a volta ao mundo e pode descansar tranquilamente.

Contudo, estas imagens da imaginação dão-nos «mais que pensar que o próprio pensamento», as imagens para os conceitos indeterminados são mais ricas do que a explicação dos conceitos. Mas é exactamente na explicação da imagem que o entendimento tenta demonstrar porque é que o Pavão de Juno é uma ilustração da beleza. Podemos responder que é por o Pavão ter todas aquelas cores, que para aqueles que o admiram as suas cores não têm nenhuma utilidade, etc. Ou seja, a imaginação é um campo muito fértil que deixa muita coisa em aberto para que o entendimento se aplique na imagem, numa troca de informação, num diálogo entre a imaginação e o entendimento, a que Kant chama «jogo livre das faculdades». Livre porque a imaginação e o entendimento funcionam de certa forma a sós, sem nenhuma determinação objectiva. Não há nenhum dado empírico que ajude o entendimento a estabilizar a informação que retira da imagem proposta pela imaginação. Se fosse possível determinar algo objectivo para estas imagens o jogo livre das faculdades cessaria. 

É precisamente o carácter inesgotável deste jogo, de troca de informações entre o entendimento e a imaginação, que explica a sensação de prazer cognitivo tida perante o belo.

Ao longo desta relação entre a imaginação, o entendimento e a imaginação vão-se conhecendo um ao outro e perceber como concordam entre si de forma a aquele tentar explicar este, e não a esgotando volta a tentar explica-la, ao longo de uma troca cognitiva inesgotável entre ambos.

Este jogo livre das faculdades é tão importante para nós, «a sensação de prazer» que daí decorre é tão intensa, que nós queremos que os outros sintam a mesma coisa. Quando digo este poema é belo, não espero que o outro concorde comigo mas quero que o faça, é isto que ele deve fazer, embora não haja nenhum motivo para acreditar que ele o faça porque não há nada de objectivo em nenhuma forma que permita resolver as questões de gosto, mas se todos chegarmos a um acordo aceitando que estamos diante de uma determinada forma sentimos o jogo livre das faculdades, uma determinada imagem, todos concordarão com a beleza do poema. Vemos a forma e depois podemos virar-lhe costas porque a imagem estética do poema vai permanecer.

Percebe-se agora melhor, além da preferência de Hegel pelo belo artístico, formal, o que o separa de Kant:

Para Hegel, o Espírito, o Absoluto incarnam-se nas próprias coisas. Não há nada na realidade, que não seja, em graus diversos, a manifestação do Espírito absoluto, e nada, por consequência, que o espírito humano, ao menos em teoria, não possa conhecer: tudo o que é real é racional, e acessível à razão. A recíproca também é verdadeira: tudo o que é racional é suscetível de se concretizar na realidade. O belo encontra-se na forma, na estética, do conteúdo para a forma.

 Kant, ao contrário, apesar de falar de ideias estéticas, limita o poder da Razão ao conhecimento dos fenómenos. A Razão, o espírito humano não têm acesso às coisas em si, ao Absoluto. O belo está apenas na imagem que o jogo dialético entre o entendimento e a imaginação extrai da forma, na ética, da forma para o conteúdo.

A consequência, é que para Hegel, o único belo que o interessa é o belo artístico, o das produções humanas, excluindo-se o belo natural, porque aquele, sendo produção do espírito e comunicando a sua superioridade aos seus produtos e à arte, é superior a este.

Uma das consequências dessa superioridade incontestável do espírito é que a arte não deve imitar a natureza, ao contrário do que defendia Aristóteles, mas expressar o belo, porque o seu objetivo não é de satisfazer a lembrança, mas a alma, o espírito.

E por isso é que para Hegel, a ideia do belo é a própria realidade concreta que toma a forma sensível do belo artístico, um pensamento que não é atividade passiva, recolhimento ou distanciamento, mas  na faculdade activa  responsável pelo domínio da criatividade, da capacidade de criar formas e instaurar significados, contrário a Kant, que à semelhança de  Platão, para quem a ideia do Belo, como a do Verdadeiro e do Bem, é abstrata, a-temporal, a-histórica.

Percebe-se claramente, de novo, quanto a Ideia hegeliana do belo difere da Ideia kantiana:

Em Hegel, o belo é a própria realidade concreta apreendida no seu desdobramento histórico. Quando esta realidade toma a forma sensível do belo artístico, determina o Ideal do belo artístico. E este Ideal do belo aparece na história de várias formas fundamentais (arte simbólica, clássica e romântica), que traduzem o modo como a imaginação tenta escapar da natureza, dar forma a um conteúdo.

Para kant, o belo existe enquanto fim em si mesmo: agrada pela forma, mas não depende da atração sensível nem do conceito de utilidade ou de perfeição. A ideia do Belo, como a do Verdadeiro e do Bem, é abstrata, a-temporal, a-histórica, dá conteúdo à forma, vai além da forma.

Entre nós, foi Antero com a sua visão Hegliana, e Pascoais, com a sua visão Kantiana, que mais profundamente pensaram a arte poética.

Em Antero, apesar de atraído pelo positivismo de Proudhon e Michelet, foi a filosofia de Hegel, com a sua manifestação do ideal em arte, que mais influenciou a sua evolução intelectual, onde o  lugar concedido  à criação artística, enquanto manifestação do espírito humano, configura um pensamento estético singular, de cariz metafísico, no qual o belo surge como um absoluto.

No que diz respeito à sua concepção estética, Antero evolui em três estádios; no primeiro, onde se manifesta a herança estética do ideal Platónico, o sentimento e a verdade constituem o fundamento da arte e da poesia. Num segundo momento, e já profundamente imbuído da concepção hegeliana e algo positivista da arte, reconhece que a razão substituíra o sentimento, e se convertera na fonte do novo modelo naturalista da arte.

 Nesta fase, Antero admite a morte da arte. À semelhança de Hegel, entende que o século XIX, como século científico e positivo, viria a prescindir da arte, por esta já não corresponder à necessidade de uma consciência que se supera, ou seja, por já não corresponder a um ideal que existe por si mesmo, e que não carece de formas sensíveis para subsistir, mesmo as «mais esplêndidas».

 Numa terceira e última fase Antero defende, numa síntese entre o espírito e a natureza, entre o Sentimento e a Verdade, um estado superior da consciência que possa conciliar ciência e arte, poesia e filosofia, confirmando o Homem com o único e o último fim da arte, que é a Estética da Natureza.

O sentimento; à semelhança da intuição poética em Pascoais, seria a fonte da criação artística, em particular da poesia, e da gnoseologia a partir da noção de verdade intimamente relacionada com a espontaneidade sentimental do eu, à semelhança da imaginação em Pascoais.

A poesia, segundo Antero, a grande a verdadeira poesia, a que se escreve com uma mão sobre o coração, sem querer outros modelos além da natureza, outras leis mais que as da razão, essa vive e chega longe nos séculos.

A par do elemento natural, a «espontaneidade» constitui o segundo elemento que não caracteriza apenas a faculdade criadora mas deve estar presente em todo o processo poético e a qual jamais deve sacrificar-se às exigências estilísticas.

Por sua vez, Pascoais explica melhor a sua visão ética da poesia no Regresso ao Paraíso, obra que Leonardo Coimbra qualificou de criacionista.

Pascoais defende aqui uma realidade cuja aparência começa na matéria e se perfecciona, na dialéctica dos contrários (Matéria e Espírito, Alma e Corpo, Luz e Sombra; Queda e Redenção, Criação e Ressorção; Ciência e Poesia; Poesia e Filosofia; Deus e Satã; Jesus e Pã; Cristianismo e Paganismo; Teísmo e Ateísmo; inteligível e sensível, intuição e razão) superada pelo espírito saudoso.

Em simultâneo, a criação da obra de arte segue o mesmo processo transfigurador e idealizante, sob a acção criadora da saudade; isto é, todas as coisas e todas as obras necessitam que o tempo as converta em lembrança, para que, após serem  assimilados e integrados pela alma na sua substância, possam ser por ela exprimidos em eternas formas de beleza. E é o papel inventivo da fantasia e da imaginação que tem o poder de transfigurar o existente, criar algo de novo (heurésis), sendo partir deste momento que a obra se anima de outra vida, se converte em arte verdadeira.

            Por isso, a poesia, ao contrário da escultura e pintura, que tendem a ser miméticas, copiadoras do universo criado, não copia as formas, vai além do visível. Em consequência, o verdadeiro poeta é o homem que passa da Existência à Vida, da matéria ao espírito, ou seja, da realidade à verdade, processo possível só com um conhecimento  do cosmos, que a intuição poética permite.

Como vimos, partindo ambos de Platão, atalhando pela via do Heglianismo ou do Kantismo, Antero e Pascoais acabaram por chegar à mesma conclusão:

A resposta ao que é poesia e um bom poema, está de facto no temperamento, carácter e personalidade do poeta, na maneira como sente o mundo, a espontaneidade e imaginação com que exprime a sua ideia do mundo.

III

A universalidade da obra de arte radica na verdade pessoal do poeta, no seu carácter, nesse húmus que é comum a todos os homens, do qual brota, turva a seiva da «espontaneidade»; é neste sentido que para Antero ser verdadeiro é ser natural, já que, no poema, sentimento e ideia se adequam por intermédio da palavra – da forma –, sendo nos limites deste postulado que o justo e o belo hão-de ser medidos.

Pascoaes afirma que é na «inspiração» que reside a identificação ontológica do homem com o mundo, e será a partir desta que toda a relação estética se torna possível: «a inspiração do poeta é a sua identificação com o cosmos, a exprimir-se verbalmente ou por meio da substância originária que é o verbo, o som, música divina».

Portanto tudo se resume no verbo fiel ao pensamento e à ideia, à representação completa do sentimento, que por intervenção da imaginação (em Pascoais) ou espontaneidade (em Antero), é a linguagem do coração do poeta.

 Resumindo: A poesia é a palavra que exprime fielmente um sentimento e uma ideia. A boa poesia exprime esse sentimento e ideia com espontaneidade e imaginação, as quais dependem da personalidade do poeta.

Como se vê, demos as voltas que dermos, vimos sempre dar ao mesmo: ao génio criador do poeta!

O que nos remete para o seguinte texto de Lobo Duarte, onde se vê este essencial equilíbrio que a poesia consegue alcançar entre ética e estética, forma e ideia e sentimento, imaginação e espontaneidade, que lhe dá uma leveza extraordinária, leveza profunda, medida pela precisão e concisão de suas imagens:1

 

A Dona Antonia escreve versos, aquilo parece a sirene dos bombeiros a correr para o fogo. Que aqueles babosos versos lhe adocem os beiços. Ela ha-de dar aquelas lamechices a uma casa de caridade. São fracos versos que a consolam naquele abandono de homem e filhos. A Dona Antonia gosta de costurar, é uma artista no ponto cruz, uma devota do ponto cruz e do Dr Sousa Martins padroeiro das diarreias e das cólicas. A Dona Antonia e os seus versos amarelos como a bilis. Ela entretem os seus bichos de estimação entre eles as pombas que poisam no peitoral a mendigar umas migalhas literárias. Dona Antonia e os seus versos fofos e quentinhos que cheiram a mofo e a naftalina.

 

Isto é que é poesia! A boa poesia, porque é harmonia estética e ética. A Beleza, que vivendo num espaço e tempo próprios, que é o da realidade essencial do génio criador, está para além da realidade aparente, e nos faz participar no tempo primordial e mítico da criação.

Leonardo Coimbra é suficientemente eloquente a este respeito:

«O Poeta fala e as suas palavras são astros, sóis, nebulosas […] e quando a voz do Poeta vai falando, o infinito do espírito e o infinito do Cosmos, a face contida da loucura, os olhos desorbitados do assombro, Júpiter grita:

Fechem-se essas janelas. Quem quebrou o cristal do Olimpo, que vento de Mistério é este que atravessa os ossos? Que é aquilo, além? Labaredas, mundos, consciências, dominando o espaço»!

Vénus começa de sentir dentro de si um calor estranho, uma humildade nova que a faz aproximar do Poeta, murmurando:

Como ele é belo! As suas palavras são candentes como os sóis, imperiosas como as erupções de astros, meigas, tristes e doces como o gemido da última  que beijou a face lívida da Lua.  

Ah! Estes peitos nunca sentiram a alegria fremente que deforma e dá vida, estas ancas são de uma beleza infecunda e inútil.

Quero ser Mulher; amar, sofrer, ser mãe com dores, esposa com dedicações humildes, sempre presentes e ocultas.

Tudo se desfaz em poeira doirada e apenas Minerva, volvida espírito criador, canta o novo Germinal de uma humanidade fraternizada consigo e com o Mundo.

O Poeta é esse homem novo e Vénus, volvida Mulher, é a filha, a Esposa e a Mãe do homem duma humanidade renascida» (Dispersos III Filosofia e Metafísica, Verbo, pág. 89).

Ou nas palavras de Jaime Cortesão, «O mundo é como a rocha de Horeb, dentro da qual cachoa a água da Verdade e de Beleza, ansiosa por brotar: e os poetas – o ponto da rocha, onde bateu a vara dum Moisés oculto, para que a água se despenhe em mananciais duma abundância infinita […] e os poetas desvendam, franqueiam novos mundos que estão à nossa volta, sob os nossos pés, ao alcance dos nossos braços, em contacto connosco, dentro de nós mesmos, e que sendo até aí os longínquos e vedados paraísos, tornam-se acima habitação comum de todos os homens» (Revista Águia n.º 1, 1ª Série, Dez de 1910, pág. 6)

Isto é, o Poeta, descobrindo no mundo a centelha da criação divina, a essência das coisas, o Espírito, eleva o mundo a Deus e faz descer Deus à humanidade «criando um novo céu, além do céu, criando um novo mundo, além do mundo.» (Pascoais 1990a:30, olha e eleva-se para o macrocosmos, ao mesmo tempo que, gradativamente desenvolve em si a força de autonomia no microcosmos.

Ainda nas palavras de Cortesão, «o verdadeiro Poeta é o que nessas abismais imersões vai acender novas estrelas nos recantos da Alma até então escuros, e volta de lá à superfície, transfigurado, alucinado, com uma centelha de infinito nos olhos pávidos, para cantar a sua visão numa ebriedade divina» (ibidem)

Ou seja, o Poeta transfigurado pela graça da inspiração ardente de Orfeu, com a sua polaridade apolíneo (representação, melodia, imaginação) – dionisíaca (fantasia, ritmo, intuição), a forma representativa do real - liberdade estética e criativa, comunga do ritmo dos astros, é atravessado por um arrepio de Eternidade, sente afluir à mão com que tange a lira, uma aluvião tempestuosa de gritos, vozes e hinos formidáveis, todas as vidas do Universo.

Ele «ouve o murmúrio que transita, fixa o instante fugitivo, e como em chapa de aço candente as águas que recebe no peito são asas de névoa, ascensão e fulgor, caindo no Mar transcendente da Memória em perfeito e luminoso corpo de eternidade. E assim eterniza o instante [...] e assim o Poeta ergue à Consciência os mais incoercíveis movimentos da alma, e assim o Poeta filtra no episodio a sua parte de eternidade, eleva sobre os indivíduos transitórios a fisionomia espiritual das Pátrias, da Humanidade e Deus» (Leonardo Coimbra no Discurso proferido no Teatro Águia De Ouro, em 10 De Junho de1920 apropósito de Camões e a Fisionomia Espiritual da Pátria)

Não há portanto na terra missão mais sublime, que esta: A de ser um mensageiro celeste e do mundo, ser o intérprete de Deus e da Humanidade, um ser divinizado que, apesar de humano, tem sobre os ombros, a pesada tarefa de «ser o Deus do Espírito, elevando as almas além da natureza» (Pascoais 1990a:74), liberta-las do Hades que é o mundo e ve-las com húmido olhar de comovidas lágrimas pairar, amorosas, entre as estrelas, fazer-lhes cânticos sublimes desse terno amor, e entregá-las depois, «ao som de ritmos sugestivos, na sua surpresa virgindade, ao coração dos homens, ávido e insaciável» (Cortesão, ibidem).

Por isso a poesia é a música harmoniosa da Lira de Orfeu, que os deuses colocaram entre as estrelas, a meio caminho entre o Olimpo e a terra.

É o cântico da Vida a sangue, fogo e cristal!



publicado por Manuel Maria às 08:10 | link do post | comentar

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