Sexta-feira, 26 de Agosto de 2011

 

 

Negro
Mais negro que os fogueiros ào inferno;
Gordo,
Mais gordo que as mulheres de um rei negróide;
Bufão,
Mais bufão do que Noto, Eolo e Bóreas à compita;

Veloz,
Mais veloz que os golfinhos de Nereu –
Entrou na praça o boi galhardo.
Escarvando,
Olfacteou o argiloso chão,
Com um ar de Satã alucinado.

Depois,
Erguendo a cabeça,
Achou pequenas a pequenez da praça
E a amplidão dos céus.

Depois, ainda,
Mugiu
Em ódio clamoroso e clangoroso.
Então,
A praça entrou nos delírios do pavor.
O forcão
Quedou-se desamparado
No meio do terreiro
E os capinhas galgaram em pamco
O espaço que os separava das trincheiras.
Sozinho,
No meio da praça,
O boi,
Já gigante,
Mais se agigantava.

Empoleirado num carro,
Exalçado a lenha
E enfeitado a colchas,
O tamborileiro rufava,
Querendo rebentar o velho bode.

Então os solteiros ganharam coragem
E, saltando aos magotes para a arena,
Imobilizaram o boi
Entre os aplausos dos homens
E os gritos das mulheres.


Manuel Leal Freire



publicado por Manuel Maria às 16:31 | link do post | comentar

 

 

Ricardo Paula, Pintura "o abraço do mar III" 

 

 

Como se o mar me prendesse os braços
e eu ficasse no chão sem vontade
de fazer e de construir
como se os lábios
ficassem presos
e fosse impossivel sorrir.
Sorrir aos amigos
e escutar as conversas
as histórias da força
dessa luta de quem recomeça a viver

Como se o mar me prendesse os braços
e fosse como a corrente que prende os barcos
e eu ficasse no chão sem vontade.
Como se a liberdade
fosse aquele acto
que cai e se levanta
como se faz no teatro.

Lobo  Duarte



publicado por Manuel Maria às 16:14 | link do post | comentar | ver comentários (1)

Quinta-feira, 25 de Agosto de 2011

 

 

 

 

Muitas àguas leva a Côa,

Junto à vila do Sabugal;

Quando as àguas vão crescidas,

Ninguém passa no pontal.

 

O meu rio vai tão cheio,

Que não o posso atravessar!

Vai cheio de mil dores...

Ninguém o póde passar!

 

Foje a Còa, fujo eu,

Cada um com o seu fado,

Sempre em direcção ao mar,

Qual de nós o mais pesado?

 

Eu levando meus desgostos;

Ele, a rama dos salgueiros...

Qual de nós o mais pesado,

Correndo ambos ligeiros?

 

Mas debaixo da velha ponte,

Onde  a àgua faz remanso,

Quando beija os salgueiros,

Tem a Côa bom descanso.

 

As àguas do arco grande,

Aos pés da velha muralha,

Em noite de lua cheia,

Há lá melhor mortalha?

 

O luar batendo nas àguas,

E nos salgueiros como ladrão,

Assim me roubou a Còa,

A alma e o coração.

 

Estas àguas da velha ponte,

Por querer seus amores,

Na alma me deixaram,

Mil penas e mil dores.

 

Mansas àguas tem a Côa,

E salgueiros ao Luar!

Mas quando a cheia é de máguas,

Ninguém as póde passar!


 

Obs: O meu avô Lourenço Martins, devido à sua conhecida paixão da pesca, foi o homem do concelho do Sabugal que mais conheceu e amou o Côa. Ele tratava o rio como mulher; «a Côa», pela fertilidade das suas àguas. Este poema é, glozando uma cantiga de Antero de Quental, homenagem aos dois.

 



publicado por Manuel Maria às 16:54 | link do post | comentar

Segunda-feira, 22 de Agosto de 2011

 

 

Alla me tienes contigo

Serranica de aragon

El alma y el coraçon.

 

Serranica tu querer

Me tiene passado en ti

Yo por tuyo me hazer

He me desecho de mi

Dende el dia que te vi

Me robou tua perficion

El alma y el coraçon

Mil penas y mil dolores

Porquerette  tus amores

Serranica me han robado

En alma me han dexado

Tus oios me han salteado

En bosque como ladron

El alma y el coraçon.

 

Tienes me outro totoznado

En nada perezco yo

Sy soy algo soy traslado

Del rostro que dios te dio

Tu vista me salteo

Tudo con mucha razon

El alma y el coraçon.

 

Si yo antes mio era

Luego en verte tuyo fuy

Que tu vista lastímera

Me lhevo luego tras si

Donde estoy estoy en ti

E  assi tienes ocasion

De tenerme el coraçon.

 

El querer queyo te quiero

Por te ver linda e galana

Es causa que todo entero

Alla me tengas serrana

Robaste me de inhumana

Con tu rostro y discrecion

El alma y el coraçon.

 

El dia que te mire

Passe en ti my proprio ser

El mio mismo ser

Por mas cerca te tener

Tu procuras me traer

El alma y el coraçon

Presos en tu perdicion.

 

 (Vilancete do Marquês de Santilhana in Espejo De Enamorados, séc XVI)




publicado por Manuel Maria às 14:33 | link do post | comentar

Quarta-feira, 10 de Agosto de 2011

 

  

Konstantinos vivia na megapolis de Atenas; foi a crise que o levou a desfazer-se do apatamento citadino, e regressar com a mulher à aldeia paterna.

 Hoje vive de transportar os turistas pelos caminhos ingremes e sinuosos da colina, entre a praia e a aldeia, com as suas duas mulas.

Recuperou a casa paterna e, numa pequena depressão da colina, para lá da aldeia, em pequeno  campo herdado, tem uma horta, meia dúzia de ovelhas e um velho burro.

A esse burro anónimo, que aluguei para companheiro acidental da minha viagem solitária, tive eu a honra de pôr nome.

Não é que o  bicho, a certo ponto do nosso passeio, tomado pela mosca, arrancou comigo em correria desabrida, escarpa abaixo?

Nem os rogos e vergastadas o estancaram; salvou-me um proverbial muro, sobre o mar, onde esbarrou o animal.

Por isso, refeito do susto, dei-lhe o nome de Sócrates; o político, não o filósofo...

Konstantinos e a mulher gostaram:

- Socrates? Very nice, indeed!

Não perceberam a “nuance”...  



publicado por Manuel Maria às 11:14 | link do post | comentar | ver comentários (1)

 

 

 

 

D’aquele esguio telhado

-Onde tu sabes que eu moro,

Eu acho os astros d’um ouro

Já bastante mareado!

 

Nenhum deles vai à trança

Dos teus cabelos cumpridos!

Por isso meu peito lança

Ao teu telhado gemidos!

 

Se eu fosse Deus, minha amada!

-Dar-te-ia, Satan m’ esfole!

Uma cartinha fechada,

Servindo de lacre o sol.

 

Mas sou um prédio em ruinas!

-Não tenho nada comigo,

Sou um mendigo,

 Que tomo o sol de esquinas.

 

Divago roto e contente!...

-Odeio um lente – e o filósofo!

E sob este azul clemente,

Triunfo alegre e faminto!

 

Meus deuses são Vico e Dante!-

E gosto, no meu caminho,

Encontrar Minerva Amante,

E as Musas cheias de Vinho.

 

Como um barco sem amarra,

Navego, turgidas velas,

E desafo as estrelas,

À noite, sobre a guitarra|

 

 

E a cabelo louro ou preto-

Fragilidades de barro!

Envio sempre um soneto

Na mortalha de um cigarro!

 

Erro sem norte e sem tino!

Ninguém me’estende o seu braço.

Quer-me por força o destino

Comendador ou palhaço!

 

Post scriptum:

 

Desculpa-me, flor amada!

-Ó minha musa divina!

Não fui hontem à escada,

Porque empenhei a batina!

 

(Gomes Leal, in Claridades do Sul)

 

 

PS: Resumindo; os copos fazem mossa!



publicado por Manuel Maria às 11:12 | link do post | comentar

 

 


 

A lua já se pôs,

As Plêiades também:

Meia-noite; foge o tempo,

E chora um mocho,

No silêncio do jardim.

 

Vem, meu amado.

Vem até este gracioso bosque de macieiras, onde a água fresca canta entre as raizes das árvores, e a trémula sombra da figueira desce um sono pesado sobre as minhas pálpebras.

Vem, meu amado.

Trancemos juntos multiflores coroas de ramos de sândalo e murta,

Que pomos em meus cabelos,

Vem, segreda-me palavras doces ao ouvido, e minha alma te ouvirá cativa e amorosa, e as nossas noites serão como os regatos tranquilos cobertos de flores primaveris, ou roseiras brancas, cujo perfume a brisa sopra docemente, em fragâncias doces ao olfacto;

E meus lábios serão teus lábios, meus cabelos serão os teus cabelos, como a raiz é da flor, a flor é da abelha e da abelha é do pólen.

Vem, decansa a cabeça nos meus seios, bebe a doçura da minha boca, que eu sou o mel de que teus lábios gostam.

Vem, amado do meu coração!

 Vem; vem, que toda eu te quero!

Vem; procura o calor das minhas coxas,

Que começam a estremecer;

E verás como, chamando-te com as minhas mãos, e puxando-te para o meu leito, um fogo urgente me sobe pela carne, um frio suor me recobre;

E como, no transporte doce da minha alma,

Sacudindo os cabelos orvalhados de estrelas,

Pálida, perdida, febril,

Um frémito me abalando...

O corpo se me arrepiando...

Respirando a custo...

Caio num langor profundo...

E morro.

 

Cai a lua, caem as plêiades;

Meia-noite; passa o tempo,

E eu, aqui deitada, sozinha,

Ouvindo o pranto do mocho,

Nada mais ouvindo que o pranto,

Morrendo de tristeza.


 



publicado por Manuel Maria às 11:10 | link do post | comentar

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