Quarta-feira, 24 de Setembro de 2008

 

 

 

            Era um grande proprietário, com terras nos arredores de Coimbra e Celorico da Beira e do outro lado de lá do mar, no Brasil e mandou o rapaz tirar o liceu em Coimbra para depois frequentar a Universidade.

            O rapaz perdeu-se no ambiente da boémia coimbrã e nunca chegou a frequentar a faculdade, mas tornou-se num dos mais famosos músicos coimbrões do seu tempo. Casou e teve um filho que amava em extremo e para o qual compôs e escreveu a mundialmente conhecida canção “menino de oiro”.

            Depois o rapaz amadureceu; o menino cresceu, regressando os dois ao Brasil, nunca mais se ouvindo falar deles.

            Muitas décadas depois o José Niza fez uma digressão com o seu grupo de Coimbra pelo Brasil e actuaram numa pequena cidade do interior onde interpretaram o “menino de oiro”.

            No fim da actuação acercou-se do José Niza um velhinho de cabelo esbranquiçado, curvado no peso da sua idade, mas com um brilho de criança dançar-lhe nos olhos, que lhe segredou ao ouvido:

            -Saiba o senhor que foi meu pai quem escreveu e compôs esta canção – e perante o espanto do José Niza, explicou com um sorriso nos lábios – o menino d’oiro era eu… sou eu o menino d’oiro de que fala a canção!

 

 



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Quinta-feira, 18 de Setembro de 2008

 

 

 

 

            «Por vezes as pessoas dizem-me que a infância é o melhor da vida e tudo o que se segue são apenas desilusões e poucas satisfações. Isto não me parece correcto e de qualquer modo um jovem atrevido ou um mestre esperto e bem preparado na sua oficina é bem diferente de um pequeno rapazinho imaturo. Apesar disso, por vezes, quando penso no passado, sinto-me estranhamente como o camponês que quando está a três horas da sua aldeia volta para trás. Não é que eu tivesse querido ficar criança para toda a vida ou morrido muito novo, não. Mas a vida é como um brinquedo muito bonito que se promete às crianças. Então elas esperam e esperam e morrem de qualquer avidez e impaciência por este belo objecto. E depois acabam por recebê-lo e têm-no na mão, brincam com ele e durante uma hora estão como que enfeitiçados de alegria, mas essa hora passa e depois vêm que na verdade não passa de uma coisa como as outras e a magia desaparece. É por isso que eu gostaria de poder voltar a ser criança durante uma hora. Não por causa da idade das crianças – pois as crianças também são pessoas e não têm as almas tão puras como se lê nos livros. Mas gostaria ainda de me alegrar tanto com a vida e de voltar a sentir o céu cheio de anjos. Porque naqueles tempos, quando olhava para as montanhas, imaginava o mundo um livro aberto de mágicas imagens coloridas, cheio de cidades deslumbrantes, rios poderosos, mãos fortes de homens selvagens, aventuras e sedução.»

 

            Herman Hesse, autor alemão, naturalizado suíço, Prémio Nobel da Literatura em 1946.

 

 

 



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            Cena I

 

            Era o primeiro dia de aulas. O Diogo e o Francisco reencontram-se no pátio do Jardim e contam as novidades das férias:

            - Sabes… Fui ao estrangeiro com os meus pais – diz o Diogo ao amigo.

            -Mentira!

            -Fui, fui!

            - Vá… foste onde, atão?

            - Á “República Dormir Na Cama”!

            - No Natal – contrapõe o Francisco - também vou a uma ilha com os meus pais…

            - Não vais nada!

            -Vou sim!

            - Não vais nada!

            -Vou sim…

            - Atão a qual? Vá!

            -À “Ilha Do Caldo Verde”

 

 

            Cena II

 

            A professora recebe a turma do primeiro ano, onde se encontra o Gonçalo. Explica a diferença entre a Escola e o Jardim-de-Infância:

            - Aqui já trabalhamos a sério, meninos. Não falam com os coleguinhas de carteira, não se levantam e quando quiserem interromper, levantam a mão. Percebem?

            O Gonçalo levanta a mão. A professora não lhe liga e continua a prelecção:

            - Vá… Tirem o caderninho da pasta; hoje vamos começar pelo alfabeto…

            -Olha… - insiste o Gonçalo, erguendo-se na cadeira.

            -Que é, Gonçalo?

            - Olha; sabes…Há aqui um engano…

            -Que engano?

            -Tu não és a minha professora…

            -Ah não?

            -Não…

            -E quem é, então?

            -A Lígia… - e não dando tempo a que a professora reagisse – eu pertenço ao Jardim de Infância…

            Quis fugir.

      

 



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Segunda-feira, 15 de Setembro de 2008

  

 

Quando construí a minha casa

-Diz o Zé Coelho da Arrifana-

Fiz-lhe logo duas portas;

Uma na frente

Para a minha sogra;

Outra nas traseiras

Para fugir

Logo que ela entra.

 

Olha a grande novidade!

 

Toda a gente sabe

Que as tocas têm dois buracos;

Um por onde entra o furão

Outro para fugir

O coelho…

 

 



publicado por Manuel Maria às 16:33 | link do post | comentar | ver comentários (2)

 

  

           Aqui ficam, em forma abreviada, umas dicas para mostrar ao Sócrtaes como saír da crise. Trata-se do extracto de um capítulo do "tratado de Política" de Aristóteles e a que sintomáticamente o filósofo deu o título de "desalento".

            As notas entre chavetas são da minha autoria e do tempo em que estudei ciência política. Espero que também lhe sejam úteis, caso alguma alma penada socialista passe de relance por este limbo e tenha a amabilidade  de lhas fazer chegar no inferno:

 

            «Os demagogos deste tempo, para fazerem a corte ao povo, procuram-lhe, por intermédio dos tribunais muitos confiscos.

            Os que levam a peito a salvação do Estado devem agir de maneira diversa e, em lugar de se apropriarem em proveito do povo, dos bens dos condenados, devem consagra-los à religião. (promoção de valores ético-políticos comuns, que fazem o substrato da nação e que estão consagrados nas constituições dos Estados modernos)

            O castigo será o mesmo e porá termo, igualmente aos crimes, mas o povo mostrará menos pressa em condenar, uma vez que não tirará qualquer proveito da sentença. (primado da lei geral e abstracta)

            Além disto, os legisladores devem tomar muito raras as acusações públicas estabelecendo penas graves contra aqueles que agem levianamente, porque não são as pessoas comuns, mas os meios mais distintos, que se costumam atacar e vexar deste modo. (política legislativa e judicial em função do desvalor social do acto, independentemente do poder económico do agente)

            È preciso inspirar a toda a gente, sobretudo aos cidadãos, afecto pelo governo, tanto quanto se puder, ou, pelo menos, evitar que os grandes sejam considerados como inimigos… (a necessidade da honra e ética na política, para que o exercício da função governativa seja respeitada)

            […] Quando o Estado tem finanças reduzidas, não se devem convocar assembleias nacionais senão muito raramente; da mesma forma, não se devem reunir tribunais numerosos senão por poucos dias. (a politica governativa maximizando a  eficiência do aparelho do Estado e dos tribunais para poupar recursos)

            […] Se há rendimentos insuficientes, não é preciso, como fazem os demagogos, distribuir o dinheiro que resta ao simples povo. Ainda não acabou de recebê-lo e já se encontra de novo na indigência, porque estas pessoas são barris furados a quem esta liberalidade não traz qualquer proveito. (a inutilidade e demagogia de medidas que não resolvem o problema da miséria)

            Um homem (governante) verdadeiramente popular deve, antes, providenciar para que o povo não seja demasiado pobre.

            A miséria é a fonte de todos os males na democracia. È preciso, portanto encontrar maneira de toda a gente desfrutar dum nível de vida aceitável, e isto duma forma duradoura; isto servirá para os próprios ricos. (a miséria é o principal mal da democracia. O bem estar material do povo é a principal função do governante)

            O melhor investimento dos rendimentos públicos, quando se determinou a sua recepção, é ajudar com liberalidade os pobres para os colocar em situação quer de comprarem um pedaço de terra ou de instrumentos para o seu trabalho, quer de montarem um pequeno comércio. (a política social com investimento na requalificação das pessoas e apoio aos pequenos produtores de base)

            Se não for possível socorrê-los a todos, que ao menos se ponham os subsídios na caixa de alguma tribo ou cúria ou de uma parte de estado, ora numa ora noutra. (apoio às colectividades e associações de base)

            Obrigar-se-ão os ricos a contribuir para as despesas das assembleias necessárias, em vez de se dedicarem a gastos frívolos e puramente faustosos […] (a política fiscal pela tributação com escalões progressivos para os mais ricos e para o consumo supérfluo)»

 

Aristóteles, filósofo grego, preceptor de Alexandre Magno, in “Tratado de Política”, tradução das publicações Europa-América, 2.ª ed, pág 180

 



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Segunda-feira, 8 de Setembro de 2008

 

 

 

     O dia estava belo e tudo preparado para a romaria. Todos os casados desse ano, da aldeia de Ruvina no concelho do Sabugal, estavam já prontos para a partida, uns a pé, outros a cavalo. A família Calamote resolveu ir de carro (de bois), que ficara armado na véspera com alvos lençóis de linho, ligados fortemente aos estadulhos.

    Faltava só cobri-los com colchas. Sobre isso houvera divergências em casa. A Brízida queria que se enfeitasse o carro com uma colcha amarela, as filhas com uma linda colcha bordada a frouxo, em pano de alvíssimo linho, embora grosseiro, na qual, entre ramos caprichosos, havia correctas figuras em posições extravagantes.

     Venceu a Brízida, alegando, e com razão, ser mais vistosa a colcha amarela e que, ainda que se estragasse, havia muitas iguais à venda. Resolvida desse modo tal contenda, teve o ganhão ordem de cobrir o carro com a coberta amarela, logo que nascesse o sol, e de lhe estender dentro os melhores cobertores para atenuar o choque e a trepidação na marcha. Eram sete horas da manhã quando a Domingas e o marido foram saber se já estavam prontos.

     - Vou já vestir as meninas e encher as cuncas de merenda, enquanto o ganhão põe os bois no carro e o meu homem enche a borracha de vinho e albarda a égua nova.

     - Não sabia que tinham uma égua nova!

     - Pois temos, trocámos pela russa e vamos hoje experimentá-la à Senhora da Póvoa. - Quem vai nela?

      - Ele para lá, eu para cá, se vir que ela é mansa.

      - Daqui a caisnadinha cá volto mai las cachopas. Até logo.

    Seriam nove horas da manhã, quando o carro do Calamote começou a rodar, puxado pelos gordos bois vermelhos, que tinha comprado na última feira de Belmonte. Dentro ia a família da Brízida, isto é, ela e as filhas, porque só a elas se referia quando falava na sua família. Fora, a servir de pagem, montado na égua nova, ia o Calamote acompanhando os passos pachorrentos dos nédios ruminantes.

     À frente o ganhão, em companhia de outros rapazes e raparigas da aldeia, entoavam a velha música, ou seja a velha moda da Senhora da Póvoa, para nos servirmos da expressão própria do povo. Uma das mais belas e garridas tocava com garbo um adufe, que herdara já de sua mãe. E assim, de povoação em povoação, deram entrada na vila do Sabugal, cujos habitantes nesse dia se entregavam, segundo antiquíssimo costume, ao simples entretenimento de ver passar os romeiros.

     Pelas ruas da vila passavam ranchos inúmeros, alegres, cantando ao som dos adufes, esses velhos instrumentos, que os mouros nos legaram. Tudo pára na Praça e as tabernas não comportam tanta gente. Os ranchos dão a vez uns aos outros. Na cadeia entoa-se também a Senhora da Póvoa. A gente não cessa de passar e como que se empurra, num delírio de entusiasmo, que os adufes e pífaros aumentam grandemente.

     Era pela tarde quando o carro do Calamote atravessava a ponte do Sabugal, reflectida nas espelhadas e cristalinas águas do Côa, juntamente com os muitos romeiros que passavam cavalgando, produzindo assim, um efeito encantador. Após este, outros carros, caprichosamente enfeitados, seguiam repletos de lindas raparigas.

     De quando em quando passavam homens descalços, em cumprimento de promessas e outros que nem palavra respondiam às perguntas que lhes fizessem, num completo mutismo a que o seu voto os obrigava. Uns e outros sobem o Outeiro da ponte, numa alegria comunicativa e desaparecem na volta da estrada, orlada de silvas e moitas, de carvalhos, vencendo a encosta, onde hoje (1904) existe um vigoroso pinhal.

     Da Fonte do Piolho vinham várias raparigas, vergando ao peso de grosseiros cântaros, mas estacavam para verem os romeiros. Não tarda que o rancho do Sabugal vá na pista dos outros, a caminho de Vale de Lobo, e chegue ao vasto terreiro da senhora da Póvoa, nas faldas da Serra d’Opa. É noite. Sente-se um murmúrio ensurdecedor. Mistura de vozes de gente, de relinchos de cavalos, de sons de pífaros, violas, flautas e cânticos de uma multidão, gritos de saltimbancos e rufos de tambores e adufes, estalos de bombas e foguetes, estralejando, ou como peças de artilharia, ecoando de vale em vale, os estampidos de bombas de dinamite.

     Na encosta da serra acampam milhares de pessoas que não cabem no largo em volta da capela, onde os carros ocupam grande espaço, transformados em casas ambulantes em que dormem famílias inteiras. Cada luzeiro que se descobre na serra é prova de que uma família ali se acantonou. Os foguetes sobem aos milhares e as filarmónicas percorrem o arraial, onde vai ser exibido formidável fogo de artifício.

     Ninguém dorme nem sossega em toda a noite, tal é o barulho, o movimento, o entusiasmo, por mil modos ali manifestado. Nas barracas dos comediantes reina grande entusiasmo e no circo mulheres novas exibem ao público ansioso difíceis trabalhos de equitação, dando saltos sobre cavalos numa corrida vertiginosa, que maravilha o povo, entusiasmado ao mesmo tempo pelo palhaço, com uns ditos alegres e cabriolas de assustar.

     Assiste ao espectáculo a família Calamote, mas sai no meio porque Brízida não quer que as filhas continuem a ouvir tolices e obscenidades que alguns rapazes pouco respeitadores e inconvenientes soltavam a cada instante. Ouvem-se realejos perto e muitos harmónios de fole; cantam ao desafio, ao som de violas, rapazes agigantados e raparigas formosas.

     Além existe um bazar, acolá uma tenda que vende bilhetes à sorte, as rifas, e aqui e em toda a parte tabernas, botequins e estalagens ou restaurantes improvisados. Centos de padeiras, vendedores de amêndoas e flores artificiais completam esta confusão, falando, berrando, e produzindo um murmúrio que mal se pode descrever e que só de madrugada esmorece.

     A hospedaria está cheia de gente. Amanhece. De todos os lados chega gente a engrossar a multidão vinda de longes terras. A família Calamote, querendo dar fé de tudo, não se deitou, ficando o carro e a égua confiados ao criado. Só se lembraram deste, quando se sentiram extenuados, quase incapazes de andar e com precisão de comer.

      - Vamos almoçar – disse ele à mulher e às filhas. (o almoço era logo pela manhã) - Primeiro vamos à Igreja comprar uma mortalha para esta pequena e dar esmola a Nossa Senhora.

      - Comprar onde?

     - Vendem-se lá mesmo na Igreja e também medalhas e estampas.

     Foi toda a família à Igreja, onde mal se podia entrar tanta era a gente que nela havia.

     - Vede os milagres de Nossa Senhora! Dizia o Calamote, apontando com o dedo muitos e variados quadros a óleo que revestiam as paredes da capela, ao lado de inumeráveis figuras de cera, representando várias partes do corpo humano, oferecidas por doentes, que foram salvos por milagre. Ao braços, pernas, pés, cabeças, mãos, olhos, orelhas, e até narizes de cera, não era fácil contá-los.

      Entrou uma rapariga formosa; e tirando o lenço que lhe cobria a cabeça, pediu a outra que lhe cortasse o cabelo. Esta, já prevenida com uma tesoura, cortou àquela a mais formosa cabeleira que possa imaginar-se, loura, comprida, luzidia e volumosa. Que crueldade! A rapariga, soluçando e toda banhada em lágrimas, depunha na mão dos mordomos a formosa cabeleira, dizendo:

     - Ofereço esta prenda a Nossa Senhora da Póvoa.

     Veio um rapaz do lado, perfeito e bem vestido e ofereceu uma moeda pela prenda. Ninguém lhe deu ouvidos e aquela inesquecível cabeleira foi colocada na parede, atada com fita azul, num prego comido da ferrugem.

     Chorou o Calamote e a família ao presenciarem tal cena e ele foi comprar a mortalha que a Ritinha devia levar na procissão. Ouviram três missas ao mesmo tempo, o que não admira, porque nesse dia não têm conta as que ali são celebradas. A custo deixam a igreja onde os mordomos tinham recebido quantias de mui subido valor e foram almoçar ao carro, almoço de lavrador, simples, mas substancial e suculento. Presunto, chouriço, almôndegas de bacalhau, frangos assados e peixe frito, queijo, vinho e pão espanhol era o menu deste repasto, saboreado sobre o carro, ao som de músicas alegres, de cânticos variados, toques de cornetas e clarins.

     A Ritinha não almoçou e foi vestir a mortalha que a mãe acabara de comprar. O céu toldou-se de nuvens que faziam prever borrasca certa, mas a festa tinha começado e não tardaria que a procissão saísse. Tudo estava inquieto, porque o trovão ribombava ao longe, produzindo um medonho estampido, que de vale em vale ia ecoando de modo aterrador.

     De quando em quando ouvia-se tão formidável estalo, que parecia cair em pedaços a abóbada celeste, fundida, desconjuntada. Estava terminando um discurso brilhante o notável orador Padre João de Matos (pároco da aldeia da Ribeira, de onde era natural, brilhante e culto pregador e principal figura do romance inédito “Celestina” de onde é extraído este capítulo), e não tardaria que se organizasse a procissão. Mas a chuva menos demora teve, caindo mansamente em fios delicados. Num momento transformou-se o aspecto daquele imenso acampamento, abrindo-se milhares de guardas-chuva, das mais variadas cores.

      A grande camada de pó do largo do terreiro começou a empastar-se, transformando tudo em vasto lamaçal, ou lameiro, como noutros pontos do país costuma dizer-se, parecendo um mar de lama. Brízida estava aflita ao lembrar-se de que a filha devia dar volta àquele imenso lamaçal, incorporada na procissão, percorrendo de joelhos todo o trajecto do costume; mas tinha de cumprir a promessa.

    - Vamos consultar o padre João para sabermos se pode mudar a promessa. Disse o Calamote, afastando-se, ao passo que elas esperavam dentro do carro, onde chovia como se não estivesse coberto. Passara mais de meia hora e ele não trazia a resposta.

    Por fim apareceu, dizendo que o padre João tinha partido a pregar noutra freguesia e que um outro padre lhe dissera não poder alterar a promessa, substituindo-a por outra.

     - Vimos cá outra vez – lembrou Calamote. - Tomara-me eu bem longe daqui! Nesta caí eu, noutra não será fácil; mas ao feito não se dá remédio; vamos vestir a mortalha.

     Oxalá que não sirva ela de verdadeira mortalha, que arranjes aqui a tua morte – pensou Brízida, cujas lágrimas rolavam pelas grossas faces rubicundas.

     - Então, aviem-se, porque a procissão já começa a sair – disse de novo o Calamote.

     - Mas isto é uma perfeita parvoíce, uma asneira nunca vista, com o dia que está – comentou Brízida nervosa, não podendo desabafar por não ser senão ela a culpada.

    - Tu não sabes que é muita a gente a prometer e todos querem cumprir?...

    Um grupo de quadrazenhos que ouvira parte da conversa aproximou-se e procurou dizendo:

     - Poi bel-àhi. Tamém nos otros vamos descalços de pé e perna amortalhados. Seja o que Deus quiser, mas não nos podemos precatar mai las cachopês que inda hão-de oferecer as esmolês e comprar as mortalhas. Olhêi que os guiões já começam a subir, oubistes?

    - Ai mãe, quem há-de romper com tanta lama para comprar tantas aquelas...?

    - Vou eu comprar tudo – disse um velhote, que usava calção de riscas com botões amarelos, jaqueta de gola levantada, assim como colete também com botões de metal (latão) e colarinho alto e dobrado. Tinha tirado o chapéu, porque as cruzes tinham começado a sair da Igreja, e segurava-o contra o peito.

     - Mexe-te homem de Deus ou dos dianhos, senão aqui quedamos todo o santíximo dia. Anda, senão pego-te pela cisgola da véstia e vais num rufo aviar tudo – disse a mulher dele, uma velhota alta e vigorosa, de lenço atado em pontas, que lhe caiam na testa, coro orelhas de grandes lebres, e com as mãos metidas sob o xaile, que lhe cobriam o seio, tendo no avental, atado à frente, uns objectos volumosos, nem mais nem menos que maços de charutos espanhóis.

     O quadrazenho desapareceu, voltando pouco depois.  A mulher vestiu sobre o fato que trazia um amplo vestido branco, semelhando uma alva.

      - Tira primeiro os charutos senão hão-de dizer que andas...

     - Aqui vão siguros, não vêm revistar-me os guardas, meu chòninhas. E vamos que a música já toca o Hino da Carta e o pálio já vem a despontar. Não enxergas daí tantos resplandores de Santos?

     - Bêjo, bêjo. Metemo-nos aqui na procissão e o calrista que vá com o chapéu para te quitar a chuva. Ah! Pranta esse ramo, oubiste? 

     - Não quero cá mais tafulhos, nem penduricalhos neste mantéu branco.

    Mal pode descrever-se a imundície que ali existia no terreiro, porque a chuva não cessava. Homens, mulheres e crianças, cujo número não podia facilmente calcular-se, abriam sulcos profundos na lama, percorrendo de joelhos largo tempo o caminho do costume.

      Era um modo horrível, abominável, de amassar a terra. Os devotos seguiam resignados, segurando-se de cada lado a uma pessoa de família, dando lugar a que a marcha fosse lenta, para maior ser o sacrifício através de tanta dificuldade.

      Um quadro que causava riso e compaixão ao mesmo tempo; riso pela extravagância das figuras, compaixão pelo enorme, incalculável sacrifício, amargura, que deviam sofrer tantos desgraçados.

       A Ritinha ladeada, amparada, pelo Calamote e pela mãe, ia deslizando sobre a lama, deixando um sulco luzidio que fazia com a mortalha que lhe envolvia os joelhos, sulco cujas paredes se uniam atrás dela, sem demora, para ser aberto de novo por outros infelizes e sacrificados devotos!

      Alguns arrastavam-se de costas em posições caprichosas. A cada passo, ataques de nervos e desfalecimentos ocorriam nesse imundo percurso, terrível via sacra ou rua da amargura.

       A Ritinha não resistiu e foi mister levá-la o pai ao colo, apesar de ter já dezasseis anos; mas ele era valente e tudo suportava. O andor da Senhora da Póvoa andou de mão em mão, dando cada um grossa esmola para poder levá-lo, o que mais retardava a procissão.

       É grande a confusão, enorme o alarido, os gritos das penitentes e devotos, que caem, desmaiam, choram, pedem socorro! Mas a procissão continua lentamente apesar da chuva, do vento e do grande lamaçal. Parte do fato ficara no caminho, desfeito, e o resto coberto de lama.

      Linda, formosa como poucas naquela idade, a Ritinha vem coberta de lama e não menos os pais e a irmãzita que chorava também, encharcada, suja como toda a gente. Os padres cantavam e a filarmónica tocava, produzindo péssimo efeito; e a grande vozearia da multidão aumentava cada vez mais aquele murmúrio, misto de cantos e choros, de imprecações e blasfémias. Mas em breve ia debandar a multidão, que se acotovelava e impelia em ondas temerosas e terríveis nesse pavoroso lodaçal.

     - Para casa, para casa – gritam de vários lados.

     - Para o carro! – diz o Calamote, levando nos fortes braços a filha, toda molhada, com o fato a desfazer-se sem dar acordo de si.

     A mãe chorava em dueto, passando com dificuldade por entre aquela muralha de gente. Chegaram com dificuldade ao carro, onde os bois coleavam, agitando as campainhas pendentes, de coleiras enfeitadas que lhes cingiam o volumoso pescoço, onde cada um levava um saco de trigo de esmola durante a procissão.

    Tapando o melhor que podiam as aberturas do carro, foram todas três mudar de roupas, enquanto o Calamote dava as ordens para o ganhão por os bois ao carro e levar os sacos da esmola à Igreja.

     - E a égua? – Perguntou ele.

    - Deve além estar presa – respondeu serenamente o criado, dirigindo-se para uma tapada, onde havia centenas de cavalgaduras presas ao muro. Voltou logo, cabisbaixo, denunciando qualquer desgosto que o amo notou, perguntando-lhe o que havia.

       - Não está lá, nem viva nem morta.

        -Essa é boa! Era o que faltava!

        - Ora esta! Não faltava senão isto! Vai já saber dela, sem demora! Ah! Espera, que nem me lembrava do carro. Tu não podes ir. Vê se aí está algum rapaz da terra e pergunta por onde passares se dão notícia de uma égua amarela, frontina, e com o pé direito calçado.

     Brízida, apesar do grande murmúrio do povo, percebeu que se tratava da égua e deitou a cabeça pela abertura de dois lençóis que uniam a porta ou antes reposteiro daquela grosseira carruagem, e gritou:

     - Então esse bruto deixou abalar a égua? Pois há-de pagá-la com língua de palmo.

    - Eu não a deixei abalar e nem podia guardar os bois e a égua ao mesmo tempo e ainda por riba o que está no carro.

     - Se não aparecer hás-de pagá-la, tem a certeza disso, grande maluco.

    O criado, humilde, sem responder às ameaças e insultos, desapareceu e só passada uma hora, ou mais ainda, voltou, dizendo que lhe tinham dado inculcas da égua, uns da Meimoa, que a viram nas mãos de um cigano já velhote.

   - Vai ter com o administrador, que ainda agora ia para a hospedaria, e ele que dê providências – disse furiosa Brízida ao marido.

    - Põe primeiro, e já, os bois ao carro, que são horas e a chuva é cada vez mais abundante.  

    - E o meu amo?

    - Já vem.

   O criado obedeceu: mas o Calamote não aparecia.

    - Vai chamar o teu amo.

   - Onde?

    - Procura-o por essa feira, vai à hospedaria e dá por ai uma volta.

   O criado encostou a aguilhada às chaves do Formoso, nome de um dos bois, e desapareceu. 

 

 Joaquim Manuel Correia (1858-1945), meu conterrâneo da Ruvina, no Romance “Celestina”  (que faz a triologia dos romances de Riba-côa com a "Rosa da Montanha" e A "Maria Mim") em que retrata as gentes de Riba-Côa, há cento e vinte e cinco anos.



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Quinta-feira, 4 de Setembro de 2008

 

 

 

-Tempo; quanto tempo tens para mim?

-Eu, tempo, para ti não tenho...

-E porquê, ó Tempo?

-Porque sou o Tempo sem qualquer tempo...

 



publicado por Manuel Maria às 14:54 | link do post | comentar | ver comentários (3)

 

 

 

          Aqui fica o resumo de uma cantiga bem divertida que li em férias. É do género "Langue d’Oil", com o sabor picaresco de tantas outras que serviram de inspiração a autores de novelas tais como Boccacio, Chaucer (nos seus contos de cantebury), La Fontaine (também nos seus contos; não nas suas fábulas), Moliére, Rabelais e muitos mais:

  

            Boivin veio a Provins, famosa cidade de feira, disfarçado de camponês, vestido de grosseiro pano cinzento e calçado de tosco couro de vaca.

            «E, passado mestre em velhacaria

            (um mês e mais tinha ficado

            com a barba por fazer

            um aguilhão tomou na mão

            para melhor com vilão se parecer»

           Assim disfarçado, vai direito «à rua das putas» e senta-se em frente da casa de Mabile.

            «Sábia em astúcia e enganos

            mais do que qualquer outra mulher.»

            Falando sozinho, ele finge contar o que ganhou na feira, vendendo bens inimagináveis: bois, alqueires de trigo, lã, jumento e leitos… no que juntou 100 soldos, uma pequena fortuna, quando de facto, tinha um soldo na bolsa.

            A artimanha resulta; Atrai a gente da casa:

            «Não tenham receio», diz Mabile aos seus comparsas, «aquele não me escapa».

            Bovin prosseguiu no seu monólogo:

            «Se ao menos eu soubesse o que foi feito da minha sobrinha Mabile, que partiu há tanto tempo. Eu que estou sozinho desde a morte da minha mulher e dos meus três filhos…» E acrescenta:

            «Nunca alegria entrará no meu coração

            Se não puder rever a minha doce sobrinha.»

            Em resumo, nada mais lhe resta senão fazer-se monge. Mabile sai nesse momento e trava conversa. Não tardam a cair nos braços um do outro. Dois rufias  saem também. Apresentação; troca de amabilidades.

            «Verdade; é meu tio», diz Mabile

            «de quem tão bem vos falei»

            Mabile envia os dois rufias comprar fiada uma boa ceia:

            «É o vilão que pagará tudo.

            Apanhar-lhe-ei mais de cem soldos».

            A comédia pr4ossegue durante a refeição, com Mabile a pedir notícias da família e a fingir-se pasmada com as sucessivas mortes de familiares que o vilão lhe relata. E Mabile interroga o tio:

            «Depois da morte de sua mulher, teve companhia carnal com outras mulheres? È muito mau para a saúde privar-se muito tempo».

            «Sobrinha, faz sete anos bem contados».

            Mabile, compadece-se e propõe a sua sócia Ysane, que apresenta, como “noviça”:

            «Só para a sua virgindade possuir

            outros pagariam bons cabedais.

            Mas vós a tereis; pois assim quero.»

            (e a Ysane piscando o olho)

            «Que a bolsa lhe seja cortada».»

            Boivin, que conhece as manhas do meio, corta os cordões da bolsa e esconde-a na camisa. Enquanto se apodera de Ysane, esta procura às apalpadelas o desejado porta-moedas, sem o encontrar. Depois, Boivin finge-se desolado, mostrando as duas fitas:

            «Sobrinha, cortaram-me a bolsa!

            Foi aquela mulher que a cortou.»

            Mabile, julgando que a trapaça resultara, põe fora o cliente, que não resiste e na rua mostra os cordões cortados a quem passa. Em casa as coisas azedam. Mabile ordena:

            «Dá-me isso depressa.

            Que o vilão vai ao preboste.»

            «Mas eu não o tenho (protesta Ysane) e no entanto bem o procurei».

            «Pouco falta que te quebre,

            puta velha e porca, todos os teus dentes!

            Vi muito bem os dois cordões pendentes

            Que tu cortaste, sei muito bem!»

            E Mabile, arrepelando-lhe os cabelos, deita por terra Mabile, que mói de pancada. Ysane grita por socorro do seu rufia, que acorre, arromba a porta e se lança sobre Mabile, que berra. Vem o segundo rufia, amigo de Mabile, e agarra-se ao primeiro. Acorrem os vizinhos ao barulho:

            «Viu-se então a casa encher-se

            de tunantes e de putas.

            Cada um metendo a mão.

            Ali, vereis cabelos arrepelar,

            paus a bater, fatos a rasgar

            e um debaixo do outro abater-se.

            O único que se não incomoda é Boivin, a quem o preboste, divertido, dá dez soldos em recompensa.

 

            



publicado por Manuel Maria às 14:46 | link do post | comentar

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