Quarta-feira, 30 de Abril de 2008

 

Ora aqui está um "post" fantástico, que tive a liberdade de "roubar". Que me perdoe a Ana o abuso:

 

"Uma pessoa envelhece lentamente: primeiro envelhece o seu gosto pela vida e pelas pessoas, sabes, pouco a pouco torna-se tudo tão real, conhece o significado das coisas, tudo se repete tão terrível e fastidiosamente. Isso também é velhice. Quando já sabe que um corpo não é mais que um corpo. E um homem, coitado, não é mais que um homem, um ser mortal, faça o que fizer... Depois envelhece o seu corpo; nem tudo ao mesmo tempo, não, primeiro envelhecem os olhos, ou as pernas, o estômago, ou o coração. Uma pessoa envelhece assim, por partes. A seguir, de repente, começa a envelhecer a alma: porque por mais enfraquecido e decrépito que seja o corpo, a alma ainda está repleta de desejos e de recordações, busca e deleita-se, deseja o prazer. E quando acaba esse desejo de prazer, nada mais resta que as recordações, ou a vaidade; e então é que se envelhece de verdade, fatal e definitivamente. Um dia acordas e esfregas os olhos: já não sabes porque acordaste. O que o dia te traz, conheces tu com exactidão: a Primavera ou o Inverno, os cenários habituais, o tempo, a ordem da vida. Não pode acontecer nada de inesperado: não te surpreende nem o imprevisto, nem o invulgar ou o horrível, porque conheces todas as probabilidades, tens tudo calculado, já não esperas nada, nem o bem, nem o mal... e isso é precisamente a velhice."

(Sándor Márai, in "as Velas Ardem Até Ao Fim", citado por Ana eno Blog "Como Um Rio")



publicado por Manuel Maria às 11:15 | link do post | comentar | ver comentários (4)

Terça-feira, 22 de Abril de 2008

 

 

 

        Com receio do arguido, confessava o ansião arrolado como testemunha de acusação, ao advogado:

       - Agora é que ele me mata, senhor doutor!

        -Não mata nada -tranquilizou-o o advogado- se não o fez até agora, também já o não faz...

       E transpuseram a porta da sala de audiências.

 



publicado por Manuel Maria às 14:54 | link do post | comentar | ver comentários (3)

 

 

  

 

António Rasteiro, homem do povo,

Completamente analfabeto

Mas rico em memórias e afectos..

Sua vida resume-se assim: criado lá em casa desde menino,

Guardando ovelhas e sonhos pelos cabeços,

Emigrou depois a salto para França,

Consumindo-se em saudades da terra distante.

 

António Rasteiro

Voltou, passados muitos anos voltou,

As botas cobertas da fina poeira da estrada,

E desembarcando nos meus sonhos

Saiu-me ele um dia ao caminho,

De saco cheio de memórias

Ao ombro.

 

Abrigado à sombra da velha Acácia

Escutei então algumas histórias

Ao António Rasteiro,

Que vinha do passado,

Assim… Sem pedir licença,

Com memórias da vida dos meus avós,

Da infância de minha mãe

E da sua.

 

Deixei-o entrar nos meus sonhos.

Nesta terra onde não há guarda-fiscal,

Alfândega, ferrolho à porta.

O saco vinha a abarrotar,

De histórias, de pessoas,

De memórias

Que lhe vergavam

As costas.

 

E o António Rasteiro,

Não lhe podendo mais suportar o peso,

Despejou-o ali no meio da praça,

Assim:

Recordou primeiro como eram cristalinas as águas da fonte velha

 E corriam ao desdém pelo caminho, até às Entre-Vinhas;

Falou por alto dos grupos alegres de raparigas que iam lavar à ribeira;

Referiu em pormenor algumas façanhas do Nino Badana no tempo do contrabando;

Contou as peadas de rebanhos que havia no povo,

E enganando-se duas vezes, desculpou-se, fazendo a estimativa por alto;

Falou com saudade do tempo em que foi pastor em casa dos meus avós;

Lembrou quando na meninice ascendia uma grande fogueira no cabeço da Atalaia

Para se aquecer das frias e solitárias noites de pastorícia;

E numa curiosa analepse,

Saltou para a linda sopeira, que lhe aquecia os pés quando foi praça na Cova da Moura.

 

Depois, enigmático,

Concluiu:

 

-Ah doutor, aquilo é que eram tempos, catano!

 

 



publicado por Manuel Maria às 14:53 | link do post | comentar | ver comentários (2)

Domingo, 20 de Abril de 2008

 

 

 

 

               Na vivenda, situada numa rua pacata rodeada por um extenso pinhal, funcionava uma casa de passe, que a judiciária vigiava discretamente. E um dia, munidos do respectivo mandato judicial,  os agentes entraram de rompante pela vivenda, apanhando as mulheres em flagrante com três clientes.

                Os agentes, polidamente e com a maior discrição possível esperaram que os clientes acabassem e mulheres acabassem a "função" e, de seguida, identificando as mulheres e os clientes, procederam à busca, tendo apreendido, entre outros, vários registos de “contabilidade”, uma significativa quantia em dinheiro, preservativos, vários vibradores e lubrificantes utilizados na prática da prostituição.

                Deste round da “Judite”, resultou a acusação da arrendatária da vivenda, da senhoria, por ser, na tese do M.P. a verdadeira exploradora da casa de passe, e do sobrinho desta, receptador do dinheiro, todos por crime de lenocínio em co-autoria, punível até 5 anos de prisão. Uma das mulheres, em situação ilegal no país, foi expatriada e os clientes arrolados como testemunhas de acusação.

                Na aflição telefonaram-me para defender a senhoria. Como é tipo de processo a que tenho aversão, mas porque se tratava de pessoa que vinha por intermédio de um conhecido, pedi uma quantia exorbitante na esperança de que declinassem os meus serviços.

                Mas para meu espanto, a cliente apreceu-me com um maço de notas embrulhadas em papel na quantia solicitada, que exibiu mesmo sob o meu nariz:

                -O doutor tem algum problema em receber em dinheiro vivo?

                -Não… Claro que não!

                E nessa tarde, sentado ao computador, com o maço de notas à frente a estimular a imaginação, inventei a seguinte história que enviei para tribunal:

                                                    

 

Exmo. Senhor Doutor Juiz de Direito

            Do Tribunal da Comarca de…

 

             

Inq…

Serviços do MP de …

V/ Ref. ª …

 

F…, arguida nos autos de inquérito a margem indiciados, tendo sido notificada do despacho de acusação, vem, nos termos do n.º 1 da línea a) do art.º 287´º do Código de Processo Penal, requerer a abertura de instrução, com os fundamentos seguintes:

1.º

A arguida vive há mais de duas décadas na Freguesia de …, Santarém onde trabalha também, há mais de uma década, cuidando de idosos (doc.1, 2, 3, 4, 5, 6, 7 e 8 que junta)

2.º

E foi com intuito de explorar por sua conta um lar de idosos, que construiu, com as características descritas na douta acusação, a vivenda também na mesma acusação mencionada, sita na …, a que por isso deu o nome de “Repouso de Pêro Neto”,

3.º

E não o conseguindo legalizar como lar, como sempre pretendeu, como lar de terceira idade, desistiu de tal, pelos muitos requisitos que lhe foram exigidos pelas entidades oficiais e resolveu arrendá-lo para habitação

4.º

Para o que, estando a residir e tendo a sua vida profissional montada na Freguesia de …, Santarém, emitiu procuração a sua cunhada, f…, para que tratasse de todos os seus assuntos relacionados com a referida, incluindo a recepção de rendas e quitação das mesmas, (doc.9 e 10 que junta)

5.º

E foi em 1997, que no âmbito desta e das sucessivas procurações emitidas pela arguida à sua cunhada para esse efeito, que deu em arrendamento verbal a aludida vivenda à também arguida f….

6.º

Este arrendamento foi efectuado verbalmente porque a arguida não tinha licença de utilização para a vivenda e por isso não a chegou a declarar o aludido contrato às finanças,

7.º

mas recebeu as rendas que a inquilina pagou, sempre por intermédio da sua cunhada e procuradora supra identificada, que era quem nesta qualidade diligenciava nesse sentido.

8.º

A arguida é tia materna e madrinha de baptismo do arguido f…, por quem nutre grande afeição e reputa, na ausência de filhos próprios, como seu filho.(doc.11 e 12 que junta)

9.º

E por virtude dessa afeição que nutre por esse seu sobrinho e também afilhado, sempre o presenteou generosamente, oferecendo-lhe quantias provenientes das rendas, e ainda outros presentes, o que acontecia por vezes, pelo Natal, Páscoa e aniversários natalícios do arguido.

10.º

Tendo sido, aliás a arguida que lhe ofereceu a carta de condução.

11.º

A arguida, vivendo na Freguesia de …, Santarém, deslocava-se muito esporadicamente a Leiria a casa da sua cunhada em …, a qual, por sua vez, dista mais de 10 km da referida vivenda “Repouso de Pêro Neto”, onde nunca mais entrou desde que foi arrendada à arguida Ana Maria,

12.º

Pelo que nunca se apercebeu que a sua inquilina a utilizaria em práticas contarias à moral e bons costumes, designadamente à prática de prostituição

13.º

De que só ouviu um comentário de sua cunhada, que lhe referiu ter conhecimento de um boato que circulou a tal respeito, e que pedindo que fosse averiguado, nunca pode, por ausência de provas concretas, confirmar

14.º

E de que só ficou ciente quando foi chamada à polícia judiciária por este motivo,

15.º

E mais recentemente, após a acusação e levantamento do segredo de justiça no presente inquérito, que lhe permitiu o acesso a provas concretas,

16.º

A exploração da prostituição de tais mulheres decorria, se os factos da acusação tiverem consistência, na sua aludida vivenda sem que a arguida o soubesse ou interviesse pessoalmente, quer por si ou intermédio de outra pessoa, na sua organização, exploração lucrativa ou no engajamento de mulheres para aquele “metier”.

17.º

E nunca a arguida recebeu qualquer contrapartida ou participação por quaisquer serviços sexuais prestados naquela sua vivenda, para além da renda fixa pelo arrendamento que da mesma fez para habitação.

18.º

E assim sendo, por tudo o que se vem dizendo, a arguida não actuou de forma profissional ou com intenção lucrativa no fomento, favorecimento, facilitação do exercício da prostituição, quer de forma directa, quer indirecta, naquela sua vivenda “Repouso de Pêro Neto”

19.º

A sua intenção foi sempre a de arrendar para habitação da sua vivenda que construíra de raiz para explorar um lar de terceira idade,

20.º

A Arguida é aliás, pessoa de profundas convicções religiosas, frequentadora assídua da igreja da sua terra e recebendo os sacramentos da religião católica, repudiando veementemente a exploração de mulheres para a prática de prostituição, que é contrária às suas arreigadas convicções religiosas

21.º

E toda esta situação, designadamente o ver serem confirmados pela polícia os rumores que nunca conseguiu provar, provocaram-lhe um profundo desgosto e abalo psicológico, que a traz profundamente envergonhada e triste.

22.º

Pelo que, salvo o devido respeito, não se contam reunidos os elementos do tipo de ilícito objectivo nem os Subjectivos, dolo, previstos no art.º 169.º do Código Penal, para que a arguida seja pronunciada por crime de lenocínio.

23.º

E lembra a arguida, que nos termos do art.º 13.º do Código Penal, «só é punível o facto praticado com dolo ou, nos casos especialmente previstos na lei, com negligência» exigindo o n.º 1 do art.º 169.º do Código Penal, como requisito subjectivo da imputação dos factos ao agente, o «exercício profissional ou a intenção lucrativa», isto é, o dolo directo.

24.º

Por mera cautela oferece, além de prova documental, prova testemunhal.

 

Pelo que se requer:

-Que se declare aberta a instrução;

-Que sejam ouvidas por V.ª Ex.ª as testemunhas indicadas, e

-Que, a final, seja proferido despacho de não pronúncia.

 

Testemunhas:

Devem ser ouvidas à matéria dos artigos 1.º a 24.º do requerimento de abertura de instrução, e toda a matéria da acusação, excepcionando a matéria respeitante à busca policial.

 

P.D.

 

Junta: 12 documentos, duplicados, procuração e comprovativo de pagamento de taxa de justiça.

 

O Advogado

                                                            (ASS)

 

                Depois, satisfeito com o meu trabalho, tirei umas notas do maço e fui gastá-las.

 



publicado por Manuel Maria às 15:35 | link do post | comentar | ver comentários (3)

Quarta-feira, 16 de Abril de 2008

 

Peixe Voador

 

 

 

            Nas traseiras do tribunal existem três bares, todos na correnteza do mesmo edifício e quase de portas contíguas.

            Embora sejam abertos à generalidade da população da cidade, o primeiro é mais frequentado por magistrados; o segundo por advogados e funcionários judiciais e o último pelos arguidos e partes judiciais, numa selecção de espécies espontânea e que foi surgindo ao longo do tempo.

            O único espécime a não respeitar esta selecção quase natural é o Domingos Baptista, que frequenta teimosamente o último dos bares.

Há dias, passando dos correios, vi o Domingos à porta do bar dos arguidos e convidei-o para um café no bar dos advogados. A resposta foi pronta:

-Obrigado colega; mas estou bem aqui.

Há pessoas assim... como peixes voadores... só vivem fora de água.

           

 



publicado por Manuel Maria às 09:32 | link do post | comentar | ver comentários (3)

Segunda-feira, 14 de Abril de 2008

 

 

 

 

 

            «Respondeu Nausicaa de níveos braços (a Ulisses que naufragara nas praias da sua pátria): Estrangeiro, visto que me pareceres ser mau nem insensato (…) já que vieste à nossa cidade e a esta terra, não terás falta de roupa nem de nenhuma coisa das que necessita um pobre desgraçada que vem ao nosso encontro. Quero indicar-te a cidade e dizer-te o nome destas gentes.»

           

            E a jovem recorda às servas assustadas com o estrangeiro:

 

            «Fugis à vista de um homem? Julgais, porventura, que é algum inimigo? (…) Este que chegou aqui é um infeliz que anda errante. Nós devemos cuidar dele, porquanto São de Zeus todos os estrangeiros e indigentes; e o bem que se lhe faz, por pequeno que seja, é precioso. Dai-lhe, pois, de comer e de beber; e em seguida levai-o, num lugar abrigado do vento.»

(Odisseia, VI, 187 e ss)

 

 

 

“Não posso existir sem o outro, que o não será plenamente se em tudo me for idêntico”.

(Eduardo Lourenço)

 

 ...

 

«Não me chames estrangeiro

Não me chames estrangeiro, só porque nasci longe

Ou porque tem outro nome essa terra donde venho.

Não me chames estrangeiro porque foi diferente o seio

Ou porque ouvi na infância outros contos noutras línguas.

Não me chames estrangeiro se no amor de uma mãe

Tivemos a mesma luz nesse canto e nesse beijo

Com que nos sonham iguais nossas mães contra o seu peito.

Não me chames estrangeiro, nem perguntes donde venho;

È melhor saber onde vamos e onde nos leva o tempo.

Não me chames estrangeiro, porque o teu pão e o teu fogo

Me acalmam a fome e o frio e me convida o teu tecto.

Não me chames estrangeiro; teu trigo é como o meu trigo,

Tua mão como a minha, o teu fogo como o meu fogo,

E a fome nunca avisa; vive a mudar de dono. (...)

Não me chames estrangeiro; olha-me nos olhos

Muito para lá do ódio, do egoísmo e do medo,

E verás que sou homem, não posso ser estrangeiro.»

 

(Rafael Amador – poeta e cantor Argentino)

 



publicado por Manuel Maria às 11:48 | link do post | comentar | ver comentários (4)

Quarta-feira, 9 de Abril de 2008

 

 

  

Sou uma árvore.

 

Uma árvore que viveu

Na orla da floresta

Estendendo seus braços

Sobre o caminho.

 

Sou uma árvore.

 

Uma árvore que viu

 Vezes sem conta

A fina areia a esgotar-se

Na ampulheta do tempo

E as registou,

Uma a uma,

Nos anéis da sua alma

Para lembrar cada uma das Primaveras,

A época feliz dos sonhos e das flores

Em que os pássaros vinham,

Em bandos,

Fazer os ninhos

Nos meus braços.

 

Sou uma árvore.

 

Uma árvore que desanima

Porque subindo em altura

Lhe é cada vez mais penoso

Juntar forças

Para ir buscar a seiva à terra

E levá-la

Às mãos distantes.

 

 

Sou uma árvore

 

Uma árvore

Que morre.

 

Lenta, lentamente

Morre

À beira do caminho

Porque os pássaros, pressentindo

O influxo do sangue aos braços

E o gélido torpor da morte

Levantam voo

E vão fazer o ninho

Noutras paragens.

 

Sou uma àrvore.

Uma àrvore que morre...

 

Lenta, lentamente,

Morre.

 

 

 

 



publicado por Manuel Maria às 09:30 | link do post | comentar | ver comentários (6)

Segunda-feira, 7 de Abril de 2008

 

 

  

            Há dias fui com um colega medir uma serventia agrícola, nos arredores da cidade. Tratava-se de proceder à delimitação de uma passagem entre duas habitações e respectivos quintais, para uma futura urbanização.

            O local ainda é bastante rural, com casas dispersas na mancha verde, mas onde já despontam as primeiras urbanizações, fruto da pressão da malha urbana.

            Atravessando um dos quintais das casas, servido por um magnífico laranjal, colhemos cada um sua laranja, que comemos na orla de uma vinha em plena rebentação.

             A cena trouxe-me à memória um episódio semelhante, ocorrido há anos, com outros dois advogados como protagonistas:

            -As última vez de que me lembro de dois advogados a comer laranjas – provoqueio-o- um deles morreu.

            -Oh diabo! Não me digas…

            -Digo, pois…  

            -Estás a brincar, pá…

            -A sério…foi o Antunes Ferreira com o Gastão, na quinta deste no Fundão…  - e levando um gomo à boca- morreu o Gastão no dia a seguir…

            -Ora essa… Então morres tu, pá!

            -Não, não… É sempre o mais velho que “estica o pernil”…

             Riu-se e acabou de comer a laranja.

            Pediu-me depois boleia até ao centro da cidade, porque queria visitar a sogra. Ainda lhe quis oferecer a laranja que trazia no banco detrás para fazer um mimo à sogra, mas recusou:

            -Obrigado; deixa estar... -e afastando a laranja, que eu lhe estendia- Tu queres é matar-me a velha!

            Na manhã seguinte telefonei-lhe para tratar de outro assunto e não atendeu. Repeti a chamada e não atendeu. Enviei-lhe então a seguinte mensagem:

            “Além do Gastão, o episódio também se passou comigo e o Zé Alves de Figueiró. Morreu o Zé Alves, que era o mais velho. Como não há duas sem três... Se fosse a si, pelo sim pelo não “punha as barbas de molho.”

            Pelo cair da tarde ligou-me:

            -Olá jóia; é só para te dizer que ainda não morri…

 

 



publicado por Manuel Maria às 10:23 | link do post | comentar | ver comentários (1)

Quinta-feira, 3 de Abril de 2008

 

 

  

            Esta xácara é da região de Almeida e recordo-me de a ouvir na minha meninice, com versões diferentes, da boca dos mais antigos. Perde-se no tempo, pelo arcaísmo da linguagem e pelo contexto das viagens além-mar. Possivelmente é do séc.XV, aquando da expansão africana de Afonso V ou da consolidação das possessões da Índia, no séc. XVI.

            O lugar é inquestionável; a raia, pela referência ao fronteiro. Garrett, que também a transcreve no seu cancioneiro, situa-a na região do Guadiana, pelas referências ao mar, no que discordo.

            As referências ao mar são naturais, porque a expansão além-mar, exauriu o sangue português até às suas entranhas; Do Norte a Sul; do litoral ao interior. Outras xácaras e romances genuinamente de Riba-Côa têm referências marítimas. Por outro lado, A referência a Castela, situa-a geograficamente muito acima do Guadiana, na actual fronteira de Castilha-Léon. Depois há o termo “voda”, que sempre ouvi entre as  gentes de Riba-Côa quando se referem ao casamento, mais precisamente os esponsais:

            -«”Fulano” convidou-me para a sua voda!»; -«Foi uma bonita voda, a de “Cicrana”!»

            Seja a xácara do Guadiana, seja ela de Riba-Côa, dúvida não subsiste de que se trata de  uma canção de estilo ingénuo e puríssimo, nisto sou concordante com Garrett, de um sabor popular cativante, pela exaltação primária dos sentimentos do amor filial e entre amantes, numa troca de falas em que seria impossível chegar mais ao nível da natureza.

-«E meu pai e minha mãe,

Tia, que os quero abraçar?»

                                                           ...

-«Que é da minha dama, tia,

Que aqui ficou a chorar?»

 

            Há um trexo, que espelha bem essa ingenuidade popular. A saudação franca e a partilha generosa do pão entre os mais humildes:

 

-«Salve Deus, ó da voda,

Em bem seja o seu folgar!»

-«Venha embora o cavaleiro

E que se chegue ao jantar!»

 

            O tema, por sua vez, é recorrente na lírica popular: A situação altamente dramática, sublime de angústia, provocada pela ausência física dos que partem na aventura além-mar.

             Pois aqui fica, sem mais delongas, a xácara:

 

 

-«Deus vos salve, minha tia,

Na vossa roca a fiar!»

-«Venha embora o cavaleiro

Tão cortêz no falar!»

-«Má hora ele se foi, tia,

Má hora torna a voltar!

Que já ninguém o conhece

De mudado que há-de estar.

Por lá o matassem moiros,

Se assim tinha de tornar!»

-«Ai sobrinho de minha alma,

Que és tu pelo teu falar!

Não vês estes olhos, filho,

Que cegaram de chorar?»

-«E meu pai e minha mãe,

Tia, que os quero abraçar?»

-«Teu pau é morto, sobrinho,

Tua mãe foi a enterrar.»

-«Que é da minha amada, tia,

Que aqui mandei estar?»

-«A tua amada, sobrinho,

Mandou-a o fronteiro ao mar.»

-«Que é do meu cavalo, tia,

Que eu aqui deixei ficar?»

-«O teu cavalo, sobrinho,

El-Rei o mandou tomar.»

-«Que é da minha dama, tia,

Que aqui ficou a chorar?»

-«Tua dama faz hoje a voda,

Amanhã se vai casar.»

-«Dizei-me onde é, minha tia,

Que me quero lá chegar.»

-«Sobrinho, não digo, não,

Que te podem lá matar.

-«Não me matam, minha tia;

Cortezia eu sei usar,

Esta espada há-de chegar.

 

-«Salve Deus, ó da voda,

Em bem seja o seu folgar!»

-«Venha embora o cavaleiro

E que se chegue ao jantar!»

-«Eu não pretendo da voda

Nem tão-pouco do jantar;

Pretendo falar à noiva,

Que é minha prima carnal.»

 

Vindo ela lá de dentro

Toda lavada em chorar,

Mal que viu o cavaleiro,

Quis desmaiar.

-«Se tu choras por me veres,

Já me quero retirar;

Se é os teus gastos que choras,

Aqui estou para tos pagar.»

-«Pagar devia côa vida

Quem me queria enganar,

Quando te deram por morto

Nessas terras de além-mar.

Mas que fiquem com a voda

E bem lhes preste o jantar.

Que os meus primeiros amores

Ninguém mos há-de quitar.»

-«Venha juiz de Castela,

Alcaide de Portugal,

Que se aqui não há justiça,

Co esta espada a hei-de tomar.»

 

 

 

 



publicado por Manuel Maria às 10:10 | link do post | comentar | ver comentários (3)

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