Terça-feira, 31 de Outubro de 2006

 

 Spagnollo -- Ampulheta

 

 

Olho pelo intervalo do tempo,

A saudade comprime-me

Entre a pele e o sangue

E fico seco

Na praia dos meus dedos.

 

Lá fora

As últimas ondas

Vão apagando o ventre marinho

Da estranha mulher

Que aqui passou antes.

 

Aos poucos

Desabituo-me dela

E isso sabe-me bem.

 

 

 



publicado por Manuel Maria às 14:40 | link do post | comentar

Segunda-feira, 30 de Outubro de 2006

 

lareira.JPG 

 

 

 

A vela apagou-se. O silêncio escuro da sala é atravessado pela chama intermitente da lareira. As rosas da jarra estão demasiado maduras e começam já a decair, folhas pálidas, como lágrimas claras e cansadas sobre a mesa.

E o silêncio… Da porta acorre o som abafado da chuva a cair – na rua a água arrasta as folhas mortas.

E novamente o silêncio.

           As caleiras pingam. O boeiro corre.

            -Ponho mais um cavaco?

            -Sim.

            -Este grande?

            -Sim.

Aviva-se a lareira. A sala transforma-se. As paredes em redor afastam-se, as janelas perdem as sombras. As copas lá fora inclinam-se à força do vento.

Avivam-se as lembranças. A minha mão desliza até à testa. Já não encontra a testa lisa de criança, a franja grande e preta da meninice, mas uma calva dura e enrugada, com sobrancelhas espessas.

O silêncio… E lá fora as árvores que rumorejam, são ainda as do jardim do meu pai.

            A cabeça dói-me, fecho os olhos. Ai esta música da chuva e das árvores! Volto a abri-los – a infância já não existe.

 

 



publicado por Manuel Maria às 09:46 | link do post | comentar

 

 

 

O céu é azul,

Azul o mar,

Azuis as montanhas

E as glicínias,

Mas é do azul-bebé

Nos olhos da Mariana

Que mais gosta o Sol.

 

 

 



publicado por Manuel Maria às 09:08 | link do post | comentar

Sexta-feira, 27 de Outubro de 2006

 

 

 

 

            A tardinha estava quente e o céu limpo; soprava uma brisa que agitava os pastos e os ramos das árvores. Dirigi-me a um pequeno bosque de pinheiros, no fundo do vale, a meio caminho da lagoa.

A vereda descia as fragas, serpenteando pelos prados e pela colina repleta de vegetação rasteira. Caminhei devagar, pois estava cansando da longa subida da serra. Passei por castanheiros amarelecidos pelo Outono e por alegres arbustos de carqueja no meio do crepúsculo azulado das colinas. À entrada do bosque, pousei a mochila e estendi-me na erva. Acima de mim, na crista da colina, erguia-se um pequeno aglomerado de com seis ou sete casas, das quais só conseguia ver os telhados de zinco. Entre elas, lá estava numa pequena rocha, a de Afonso Costa com o seu telhado em zinco vermelho, descolorido pelos rigorosos Invernos. Mais acima, a meia altura da montanha, erguia-se solitária, a capelinha da Senhora das Neves, cuja romaria em Junho, marca o início da transumância dos rebanhos.

Deitado sobre a relva, contemplei o firmamento com os olhos bem abertos. O céu acendia-se. Do ocidente, que se apresentava vermelho, começava a lua a surgir, grande e magnífica. Estive assim por instantes a ver o sol a pôr-se e a lua a nascer. À excepção do regato a correr, tudo estava calmo, e a fria solenidade e espessa negritude do pinhal cercava-me por todos os lados. Resolvi prosseguir viagem, antes que escurecesse por completo.

Enquanto seguia pela vereda, ía imaginando versos e fantasiando. Meia hora mais tarde, estava perdido numa confusão de carreiros florestais e sombrios. Comecei a ficar angustiado. Foi então que repentinamente me achei em cima de uma encosta muito inclinada, e abaixo de mim, num vale cumprido, o barulho de chocalhos confundido com o balido de ovelhas, uma pequena casa de xisto com uma pequena janela iluminada.

O caminho que me trouxera ali desaparecia encosta acima no limite da floresta, por isso desci cautelosamente uma pastagem íngreme em direcção à casa. Passei uma pequena quintinha, desci uns pequenos degraus de pedra, atravessei um ribeiro e finalmente saltei uma pequena vedação. À minha frente, um homem com uma lanterna na mão, recolhia o rebanho no bardo.

Como tencionava a pedir-lhe indicações sobre o caminho a seguir, dirigi-me a ele imediatamente. Quando me pressentiu, voltou-se e observou-me por um instante com um misto de desconfiança e antipatia. Mas de súbito, ainda antes de eu poder dizer alguma coisa, estendeu-me a mão e exclamou:

- Vossemecê não é o sujeito que há anos se perdeu no Vale de Rossim? Fui eu que lhe indiquei o caminho. Ainda bebemos uma garrafita que vossemecê trazia, não se lembra?

Foi então que reconheci naquele o velho Barrigas, o único pastor da serra que odiava leite. Tinham passado de facto dez anos desde esse dia, que eu já nem lembrava, mas ele não se esquecera.

Convidou-me a entrar. O rés-do-chão estava silencioso e escuro. Do chão em terra batida saía uma velha escadaria em madeira, que conduzia a um piso superior, também em madeira. Este era amplo, simples e com poucos móveis: uma mesinha, duas ou três cadeiras, um banquinho de três pés, um pequeno vasal com alguns pratos e copos de esmalte pintado, e na laje onde o lume ardia, uma panela de ferro com o caldo a ferver. Debaixo da luz difusa de uma candeia, a mulher do Barrigas tinha um grande molho de feijão verde para descascar.

- Ò mulher, hoje temos visitas. -E batendo-me com força nas costas - aqui o doutor, que andou com o nosso Zé na escola, lembras-te?

A trança branca enrolada da mulher, formava-lhe um ninho sobre a cabeça. Ela levantou-se e as pequenas chamas da candeia reflectiram-se e brilharam-lhe nos olhos.

Saudei-a e sentei-me no banquinho de três pernas. O Barrigas serviu de uma garrafa muito suja um mosto novo e vermelho claro, já bastante forte, que me aqueceu maravilhosamente.

- Desta vez, doutor, sou eu que ofereço.

Serviu ainda uma broa caseira, chouriço e presunto. Depois de comer perguntei a que distância ainda estava da Vila, fazendo intenção de continuar a viagem, mas eles insistiram que ficasse. Aproximei então o banquinho do lume e apanhei uma mão-cheia de feijões, que ajudei a descascar.

Ficámos até tarde a conversar. Ele falou-me das suas caminhadas pelos vales arborizados e passagens da serra, dos costumes dos pastores, dos acampamentos nas velhas malhadas, das tradições que se estavam a perder, dos rebanhos que diminuíam com o abandono da pastorícia.

Passaram mais uns anos sobre este agradável serão e desde aí fiquei amigo do velho Barrigas. Nos seus modos rudes, no seu olhar ladino e na sua voz arrastada e mansa havia qualquer coisa de velho pastor céltico que conquistava as pessoas. Era sem dúvida uma figura extraordinária, descendente da velha linhagem dos lusitanos.

Quando morreu e eu o soube, foi como ter perdido uma parte de mim, como perder um antepassado muito distante, mas querido.

 

 



publicado por Manuel Maria às 15:29 | link do post | comentar

Quinta-feira, 26 de Outubro de 2006

 
Lançamento da rede

 

Se eu fosse poeta,

E tu, um rio,

Lançaria ao largo a rede,

E na malha viriam

Os teus olhos negros, vivos,

A saltarem.

 

E para acompanhar

Tão mimoso petisco,

Em molho de escabeche,

Uma salada verdinha da horta,

Uma garrafinha de tinto

Dão, meia encosta,

A estalar na ponta

Da boca.

 

 

 



publicado por Manuel Maria às 15:23 | link do post | comentar

Quarta-feira, 25 de Outubro de 2006

 

 

 

             Duas da tarde. Abre-se uma porta de par em par. Na sala, por detrás de uma grande secretária, estava sentado um homem jovem com um cabelo escuro e olhos pisados. Levantou os olhos dos papéis e estendeu-me a mão. Atrás de mim entrou a colega com o funcionário e de mão estendida, disse:

            -Parabéns, senhor doutor pelo novo rebento. Como estão, filhota e mãe?

            O jovem Juiz sorriu; fechou o processo e atirando-o para a pilha onde já se amontoavam outros, correspondeu ao cumprimento:

-Obrigado doutora. Estão bem, graças a Deus. Mas a cachopa é insaciável. – E iluminando-se-lhe o rosto, prosseguiu com voz suave e terna – veja lá que tive de me levantar de noite para a acalmar…deitei-a sobre o peito e de tão esfomeada, começou a chupar-me o queixo.

Todos sorrimos imaginado o jovem Juiz com a filhinha recém-nascida naquela íntima cena doméstica. A conversa a partir daí, girou em torno da importância do leite materno na primeira quinzena de vida; do clostro nos seios da esposa do jovem Juiz, que obstruía os mamilos, e aí a colega atreveu-se a sugerir a ordenha para um recipiente, para que se pudesse amamentar a petiz. O jovem Juiz percebendo que já era intimidade a mais, reabriu o processo e atalhou:

-Senhores doutores, vamos ao que interessa. Não conseguimos um acordo? Que me dizem?

Aí percebi as olheiras e ar cansado do jovem Juiz. A noite fora mesmo em branco e a vontade de realizar o julgamento nenhuma.  

-Senhor doutor, a questão é simples – resumi – : Temos uma doação sob condição resolutiva, mas em que não previram as consequências do incumprimento na escritura. A jurisprudência e doutrina são pacíficas nesta matéria…-aqui a colega deixou claro que não concordava - e ainda que assim não fosse…- continuei, ignorando as objecções - está especificada no saneador a impossibilidade de cumprimento dos meus clientes... -novo trejeito de discordância da colega.

-Mas existe uma acta onde se especificam as condições e as consequências – contrapôs a colega.

-Ai sim, colega? – Ironizei –. Se já existia em 2001, porque só agora aparece com ela? - E com redobrada ironia – será mesmo genuína essa acta, colega?

O jovem Juiz adivinhando o imbróglio em que se iria tornar o julgamento, fez um ar sério; franziu as sobrancelhas, irritou-se.

-Bem… bem… senhores doutores, já “vi o filme todo”… mas vou já avisando – atirou enigmático – comigo ninguém sairá a ganhar deste processo… chamem por favor os vossos clientes!

Entrou o João Tomé que expôs a sua razão. O Presidente da Junta contrapôs a da Junta. O jovem Juiz foi sugerindo várias soluções, todas liminarmente rejeitadas por ambas as partes. Passou o tempo e não saiu “fumo branco”. Pegaram-se o Presidente da Junta e o Tomé. Peguei-me eu e a colega. O jovem Juiz perdeu a paciência, consultou o relógio: Três e meia da tarde.

- Senhor funcionário, quantas testemunhas temos?

-Sete, senhor doutor; - e consultando a folha da chamada, confirmou – cinco da Autora, duas dos Réus, não contando o depoimento de parte.

-Então já não há tempo para fazermos o julgamento; - concluiu o jovem Juizvamos marcar uma nova data senhores doutores!

Que remédio senão concordarmos… Era um Juiz jovem, mas já “com a escola toda” dos adiamentos!

 



publicado por Manuel Maria às 13:53 | link do post | comentar

Terça-feira, 24 de Outubro de 2006

 

¿Cuántas historias vivimos juntos?
¿Cuántas veces te castigué sobre mís rodllas? y sin embargo, ahora te miro por primera vez.
(texto de Jesus Sólo)
Fim de viagem...


publicado por Manuel Maria às 15:02 | link do post | comentar

  Vista geral da cidade de Fundão - ArqueoBeira 2003

 

 

                 Alto da Senhora de Fátima, na estrada do Souto da Casa, o arruinado convento franciscano, onde, reza a tradição, viveu retirado o nosso Gil Vicente em fim de vida. Vinha cansado da viagem e sentei-me no alpendre da pequena ermida. Lá fora, o Sol de Outono brilhava sobre os muros da cerca, sobre as escadas de granito e o carreirinho em terra batida, que da estrada subia por entre o arvoredo, até ao cruzeiro. Aos meus pés estendia-se a fértil planície da Cova da Beira, onde florescem oliveiras, milho, fruta e videiras, pequenas aldeias e quintas nos seus muros brancos e telhados vermelhos; e para além delas, os contrafortes acinzentados da Estrela, que subiam a pique desde o Tortozendo.

             O meu olhar deteve-se numa quinta delicadamente pousada em socalco sobre uma pequena encosta, onde iam e vinham trabalhadores com cestos carregados. Sobre uma elevação, junto à casa principal, dois imponentes ciprestes, erguiam ao céu a sua chama verde. Fizeram-me recordar os ciprestes à entrada da minha aldeia, à sombra dos quais tantas vezes descansei quando vinha do campo.

           Um pardal solitário e sonhador equilibrou-se precariamente numa tenra ramada de pinheiro. Duas lagartixas vieram brincar na base do cruzeiro. Corriam velozes, às vezes paravam, cabeças levantadas, a gozar com deleite o ar fresco que subia do vale, depois escondiam-se nas fendas de uma pedra, deixando as caudas de fora. Enfadando-se da brincadeira, acabaram por desaparecer.

          Estas observações eram alegres e felizes como o íntimo dos meus pensamentos; Tinha estudado nesta região há longos anos e naquele momento deliciava uma vez mais o olhar naquela verde liberdade, o meu espírito voava de regresso aos dias em que usava sotaina e aos passeios felizes da minha juventude, como se nas minhas recordações a paisagem viesse desfilar em imagens, uma a uma, diante de mim.

         Surpreendido pelas saudades, comecei trautear entre dentes o estribilho duma velha canção, aprendida nessa época feliz: "jamais ne sont oubliés les amis du temps passes". Mais uma vez me veio à memória, a conversa que tivemos há precisamente trinta anos, aqui sob este mesmo alpendre o Lúcio o Camejo e eu, quando ainda tinha uma grande fome em conhecer o mundo e os homens, a essência do amor, das mulheres.

         Eu continuaria os estudos eclesiásticos e Filosofia, o Lúcio seguiria a carreira militar como o pai, o Camejo leis. A partir deste dia os nossos caminhos divergiriam para sempre. Agora vejo quão inconscientemente feliz era nessas minhas ilusões! Como se alguém pudesse conhecer os homens, a essência do amor... O amor! O meu caminho, é bom de ver, enviesou, e depois de uma breve incursão na Teologia e Filosofia, acabei em Direito também!

         Olhei de novo a paisagem. Sobre o vale pairou um aroma a folhas secas, e o crepúsculo deu um repentino tom azul e sombrio à Estrela e laranja ao céu. Então julguei ver na sombra projectada do cruzeiro o espectro do meu passado, e senti um arrepio de frio na espinha. De um pulo levantei-me, vesti o casaco, e com passos ligeiros desci pelo carreirinho à beira da floresta, em direcção à estrada que serpenteia até à cidade.

 

 



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Segunda-feira, 23 de Outubro de 2006

 

 

      Coloquei a boina preta de forro vermelho, que guardo no bengaleiro da entrada há mais de vinte anos. Ela recorda-me os tempos em que aprendi a lavrar, a manejar a aguilhada, a guradar gado, a bailar no terreiro; os passeios à Espanha pelo caminho das moitas, com  o cão a levantar os bandos de perdizes.

     Só quem experimentou pessoalmente estes sentimentos, não entende a estima que eu tenho a esta boina, que me acompanha desde a juventude. Hoje particularmente ela lembrou-me aquela passagem de ano dos tempos de estudante, que passei a beber com o Miguel Pina, até que começou uma briga que quase nos matava.

     Valeu-nos do aperto aquele amigo da Ruvina, forte como um touro, que interpondo-se entre nós e uma dezena de locais, nos cubriu a fuga. Eu na aflição só me preocupava em não deixar para trás a boina. Onde estará agora ele, que nunca mais o vi? velho como eu? e a linda moça que despoletou a briga? ainda será bonita? casou?

    Aqueles tempos despreocupados e felizes, desapareceram com a juventude, mas não a velha boina basca de forro vermelho, a boina da liberdade, que ainda ponho nos dias em que me sinto um Garibaldi.

   Vejam só o disparate: Um homem feito como eu, a ser dominado pelo apêgo a uma simples e velha boina preta. É mesmo ridículo, não é?

 



publicado por Manuel Maria às 14:34 | link do post | comentar | ver comentários (1)

 

 

Deixaste passar a estação das flores e da fruta

e as pétalas das roseiras caíram,

secaram os figos na árvore, esquecidos.

Deixaste o tempo do amor passar,

deixaste partir os homens e os poetas.

 

Descansas agora sob a velha acácia do largo

com todo o vagar do mundo nos olhos,

um extremo cansaço nos ombros,

absorta no interminavel silêncio da tarde.

As tuas lembranças trazem a chuva de Outono,

os braços caídos são ramos que mergulham na terra encharcada...

Chegaria uma leve brisa nessse restolho seco da tua alma

uma faúlha no ar  incendiando o céu,

para a seiva te subir pelos flancos como um rio,

os teus lábios me saberem de novo a mosto,

uma rosa nova  florir no teu cabelo.

 

 



publicado por Manuel Maria às 14:06 | link do post | comentar

Sábado, 21 de Outubro de 2006

 

Ó dramática aldeia de abandono,

antigas chaminés que aos poucos de vão apagando! casas vazias,

beirais que já não gotejam nestes chuvosos dias

de Outono...

E na praça o chafariz que há anos não corre!

as portadas das janelas, com o tempo caindo...

O terreiro aqui e ali a erva invadindo,

ao pelourinho, a velha acácia que morre...

 

 

Ó triste aldeia ao abandono,

lamúrio de almas transidas ao frio

de Outono...

Pardieiros, ruínas, húmido deserto

de famílas inteiras que foram por esse mundo fora,

espectros de mortos-vivos... sonho encoberto...

e saudade... tanta saudade, que ao passarmos na ponte,

o rio chora,

cuidando que também nós nos  vamos embora.

 

 



publicado por Manuel Maria às 17:30 | link do post | comentar

Sexta-feira, 20 de Outubro de 2006

 

 

 


Hoje vou colher-te

Minha flor de Março,
Campo sempre em festa.

Hoje vou atirar ao vento
Dúzias de margaridas,
Papoilas, amores-perfeitos,
Girândolas multicolores de jacintos,
Que estoirarão
No céu azul
Da tua boca.

 



publicado por Manuel Maria às 14:36 | link do post | comentar

 

 

 Cidade de Chaves - uma das suas casas antigas

 

A velha cidade, onde entrei pela estrada de Carvalhelhos. Chovia a cântaros. Já cá estivera há um ano, mas de passagem, aquando da audiência preliminar. À falta de guarda-chuva, pus a toga pela cabeça e fiz um passeio pelo jardim junto ao rio, passando por casas centenárias.

Numa rua estreita, diante de uma antiga casa senhorial, um chorão deteve-me. Baixei a cabeça para não lhe bater nas tranças. Passei também pela muralha, que se erguia imponente sobre o casario, nas suas ameias escuras, nesta chuvosa manhã de Outubro.

À excepção do largo dos correios, já arranjado, tudo estava na mesma. Em frente ao tribunal o mesmo buraco aberto com os vestígios da muralha romana. Observei as ruínas durante algum tempo e depois segui pela rua empedrada que sai da cidade pela antiga ponte, sobre o Tâmega. De ambos os lados, as mesmas casas centenárias, com varandins em madeira. Numa delas, estava pendurada uma tabuleta de madeira com letras de estilo.

Um ruído forte vinha de dentro: música, gritos, os empregados a correrem para trás e para a frente, copos a tilintarem, e na porta uma ardósia escrita a giz de cor, pratos a azul, preços a vermelho. Os preços eram acessíveis, a ementa sofrível, pelo que guardei a toga na pasta.

Ao entrar, um amplo salão, o balcão do bar à direita e uma grande mesa de correr ocupada por alegres convivas. Não valia a pena pensar em almoço sossegado, mas com aquela chuva também não me apetecia procurar outro restaurante. Sentei-me numa das extremidades, junto à porta.

No momento em que fazia o pedido, um cão que estava na rua, correu por entre as minhas pernas e entrou. Era um cão rafeiro, amarelo sujo, a pingar água, que se esgueirou por debaixo da mesa em direcção ao dono. Foi corrido a pontapés.

Enquanto comia o ensopado de cabrito, ouvi os meus vizinhos do lado trocarem impressões sobre um julgamento em que iriam prestar declarações. Um dos rostos eu já conhecera antes, quando viera com o meu cliente, anos atrás, a preparar o processo e agora, já meio alcoolizado, desfiava as estratégias da acusação ali ao meu lado.

Revi na sua cabeça redonda, de olhos vivos, rechonchuda e vermelha, bem escanhoada… com um bigode e suíças farfalhudas o António Patuleia, que era uma das testemunhas contra o meu cliente. "Tricas" de familia...

A mim não me reconheceu e foi assim que soube da acta falsificada que iriam juntar aos autos, para ganharem o processo.

Então eu considerei que já sabia o suficiente e levantei-me.

-Continuação de bom almoço, meus senhores. -E virando-me para o Patuleia - já agora, as melhoras para o seu fígado também.

-Como é que você sabe isso? – Perguntou ele, confundido.

-Vejo-o na sua cara, meu amigo, sou médico.

-E como consegue ver essas coisas, assim?

-É da experiência, meu amigo!

Todos ficaram admirados e me saudaram com grande cortesia. O Patuleia com maior vénia ainda. Também podia dizer-lhe se quisesse, a origem do apelido, o nome da mulher a casa de pedra onde morava no lugar da Sainça, a par de Vidago, e até a cor do sofá da sala onde já me sentei. Não resisti, e “descosi-me”:

-Até mais logo Patuleia, e cumprimentos à Julieta!

Virei costas com um sorriso, olhei para chuva a cair lá fora, tirei a toga da pasta colocando-a pelos ombros, e já não vi a cara ao Patuleia, mas ao sair ainda reconheci atrás de mim a sua voz embriagada num claro:

-Que “ganda” filho da puta este!

Consultei o relógio: Uma da tarde; ainda ía bem a tempo de arranjar prova para impugnar a bendita acta.

 

 



publicado por Manuel Maria às 14:02 | link do post | comentar

Terça-feira, 17 de Outubro de 2006

 

 



Se tens fé,
Pede à Virgem que eu sinta
O timbre exactamente musical da tua voz
A chamar-me, a chamar-me repetidamente,
O calor extremo dos teus olhos negros,
A ternurenta expressão com que te derretes,
A prender-me aos poucos para sempre.
Pede-lhe que eu oiça
Os teus pés descalços pelo chão da casa
A irem e a virem pela madrugada,
Convidando ao voo matinal,
Sem destino, sempre errando,
Por cima das colinas,
Para além do sol
Para lá do mar.

Se tens fé
Pede-lhe que eu ame em ti,
O Céu e a terra num único suspiro,
O eterno e o contingente
No mesmo abraço.
Queima-lhe duas velas
Em desconto das loucuras que faremos,
No dia em que o fogo das nossas bocas
Nos consumir
Intensa, Intensa
E lentamente.

Se tens fé,
Ajoelha aos pés da Virgem
E pede tudo o que o coração te ditar,
Mas que te não esqueça:
Queima as duas velinhas,
Queima-as também!
Por ti uma...
Outra por mim.

E depois,
Eu viverei
Sempre em ti,
Andarei como tu,
Como tu me sentarei,
No mesmo pensamento,
Cada segundo de ti em mim
Para sempre!




publicado por Manuel Maria às 17:53 | link do post | comentar

Segunda-feira, 16 de Outubro de 2006

 

 

 

 

            Estava uma bonita tarde de Outono. As terras, as folhas, cheiravam a Inverno; os dias escureciam cada vez mais cedo. Um bando de estorninhos em formação triangular sobrevoava ruidosamente a Cabeça-Lagar. Na colina em frente, do lado de lá do rio, subia o Nuno o caminho dos Picotes. As vacas iam à frente devagar. À minha esquerda, a crista da barreira de Aldeia da Ribeira, coberta de pinheiros e as vinhas pintalgadas de amarelo e vermelho, que desciam até ao vale.

            O meu caminho seguia para baixo, rodeado de carvalhos, pastagens, vinhas durante algum tempo e depois de uma pequena curva, a escola, o cruzeiro e as primeiras casas. Enquanto caminhava, sorvia daquele ar translúcido da orvalhada a cair, enchia os olhos da beleza dos primeiros campos lavrados, da agulha do campanário a ferir o azul do céu, dos telhados nostálgicos a descerem a encosta.

             Enquanto descia, ocorreu-me, que ultimamente percorri assim sozinho todos os meus caminhos, todos os últimos passos da minha vida. Amigos, conhecidos, parentes mais queridos, já quase todos partiram. Agora vou sozinho. Detive-me ao Buraco, contei por alto as casas já vazias. Tantas… tantas! Vieram-me então à lembrança as palavras do livro de Ben-Sirá: “o homem é uma sombra que depressa passa”.

            À casa do Zé Augusto, um galo esvoaçou com um grande bater de asas das grades do muro e aterrou aos meus pés. Assustou-se com o ginete branco, que o criado do Toninho Pedro trazia pela rédea.

            Pensei: talvez cada um de nós seja mesmo um galo que esvoaça assustado em todas as direcções. De que adiantará fugir? No fim, sempre o “ginete branco” e a sua lâmina fiada, o fatídico destino da panela. Acendi o cachimbo. Cada passada no caminho ocupava-me o pensamento e com espanto, me vi à porta do António Adrião.

            Mas desta vez não assomou ao muro uma cara sorridente, sorriso franco, com a jarra de vinho e um copo nas mãos generosas. Mais uma porta de adega que se fechou…

              Então uma quantidade imensa de recordações encheu-me a cabeça, fazendo-me percorrer numa fração de segundo toda a minha juventude, estas coisas irrecuperavelmente perdidas que olhavam para mim de forma familiar e tão dolorosa.

            Depois soltando uma fumarola azul de cachimbo, recompus-me e entrei devagar pela Rua de Cima, passei as casas vazias da prima Mariana, do ti Silva, da ti Ester, do primo Aurélio, do ti Cunha, tropecei à porta do ti Aguardente, e deslizando junto à parede do ti Chico, cheguei ao espaço aberto do Senhor dos Aflitos, à casa dos meus avós.

            Fiquei parado, hesitante, a olhar para aquela casa de pedra com as persianas  fechadas, cansado e desconfortável. O Zé Hermenegildo passou com a junta das vacas, abecas do arado prezas no jugo, vara pelo chão. Quando me viu ali parado, parou também:

 

-         É uma dor de alma, não é João? Todas as casas se vão fechando assim uma a uma…

 

             Apoderou-se então de mim uma enorme sensação de vazio e de perda. Reflecti: de facto, quando as pessoas morrem, com elas as casas também morrem. Pois a adega do António Adrião, não morreu com ele também?

             Está bem de ver, que foi uma perfeita loucura esta minha viagem a Vilar Maior. Mas trouxe-me uma decisão inabalável: a de, porque já não tenho mais ânimo para escrever, matar de vez este blogue.

            A  minha dúvida está só: em ministrar o veneno numa única dose letal como um carrasco, ou aos poucos, sub-repticiamente, como um doce anjo da morte? Uma coisa afianço, queridos leitores: ele há-de morrer da mesma ausência de alma com que morrem as casas da minha aldeia.

 



publicado por Manuel Maria às 16:13 | link do post | comentar

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