Segunda-feira, 24 de Setembro de 2012

 

 

 

    Recentemente têm-se feito propostas no sentido de «potencira económicamente» a Capeia. Uma delas é a de fazer coincidi-las com um festival de rock.

   Tudo o que sejam propostas e ideias, são sempre oportunidade de reflexão, discussão e progresso. Não sendo inimigo do progresso, contudo, vejo algumas delas com algumas reservas! Eu diria mesmo, com muitas reservas! E explico muito resumidamente porquê:
   A Capeia não é um produto do portefólio de uma empresa oferecido a um determinado mercado, mas um produto cultural, manifestação, entre outras, de uma alma, de uma sensibilidade excessiva que a paisagem extrema e particular de Riba-Côa produziu num povo.
   Peço que leiam aquele artigo de Alexandre S. Martins, no último Cinco Quinas, a propósito dos encerro em Aldeia Velha, que é um bom exemplo desta alma excessiva. Neste texto, de genuíno sabor popular, vê-se, pelo como o autor fala, pensa, sente, age, como ser ribacudano é uma arte.                    Da alma ribacudana, vemos sem dificuldade neste texto as seguintes qualidades: Sinceridade, bravura, generosidade, orgulho!
  O homem ribacudano tem um carácter próprio, um conjunto de qualidades, conservadas e transmitidas pela herança e tradição, de que a Capeia é uma das várias manifestações.
   É por intuir nas Capeias este alto sentido transcendental, de manifestação da sua alma, que o povo a ela adere de forma tão espontânea e entusiástica. Não é outro o motivo!
   Adivinho o sorriso de quem lida com as coisas da ciência, troçando desta minha fé «ingénua» no espírito e na alma dos povos.
   Aqui remeto-os para aquele belo poema de Leal Freire, Prece (aqui), sobre a terra de Riba-Côa, como a «terra mãe», onde a alma do poeta, que é «um balão voador que pelo espaço deambula», depois da sua viagem, quer ser amortalhada. As almas pertencem a uma paisagem, que é o seu pai e sua mãe, como defendia Pascoais. Os poetas, esses seres divinos que pressentem as almas nas sombras, como Leal Freire, sabem-no:

   A alma de Leal Freire…

 

«Começa em Ciudad Rodrigo
Acaba em Vilar Maior
[…]
Levita o ar a Bismula
Desce em Aldeia da Ponte
[…]
Ruelas de Almedilha
Ou esquinas de Valverde
Picos rupestres dos Foios
Cercanias de Arganhã
».

 

   Como dizia Pascoais, «se a montanha é a terra firme que pisamos, a nuvem intangível e aérea não será a água que a fecunda?». A matéria sem o espírito não é nada!
   O primeiro período da infância dos povos foi o poético, como o do ciclo da natureza é a Primavera. E digam os sábios o que quiserem, como referia Pascoais também, a poesia é muito mais antiga e muito mais bela que a ciência. Logo muito mais verdadeira.
   Se Leal Freire diz que há uma «Alma Ribacudana» própria de uma «Paisagem Ribacudana», quem somos nós para o negarmos?
   Oxalá a gente de Riba-Côa e quem está á frente destas iniciativas pensem nisto. Muitas vezes é necessário intercalar o espirito no deve e haver, pôr um poema no lugar das regras de marketing.
   A alma é a compensação da matéria. E é precisamente isto que me preocupa: É que tornando a Capeia num mero produto comercial, ponham no lugar do Ser, de que ela é manifestação, o Ter!
   Adulterando o que há em nós de genuíno, misturando-o ou copiando-o com o que nos é alheio, entre outras coisas com um festival de Rock, como entre outras coisas, nos é sugerido, destruam o nosso carácter…
   Troquem a nossa figura por uma máscara!



publicado por Manuel Maria às 10:10 | link do post | comentar

1 comentário:
De 3vairado a 19 de Julho de 2013 às 22:49
os rituais raianos com toiros não são espetáculos, mas antes celebrações, liturgias telúricas (que o tempo vai desfigurando, ou transfigurando).


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