Sexta-feira, 20 de Julho de 2012

 

 

É interessante que a fundação de Sacaparte, em Alfaiates, Sabugal, seja atribuída a D. Dinis  à Rainha Santa, e em Aldeia da Ponte e outras terras das proximidades, esteja arreigada a tradição o culto do Espírito Santo.

Francisco da Fonseca Benevides no seu estudo histórico acerca das Rainhas de Portugal (Tomo I, p. 178, 1878), e Frederico Francisco de la Figaniére no seu volume das Memórias das rainhas de Portugal (pp. 309-310 1859), bem como frei Manuel Esperança  na História Seráfica dos Frades Menores na Província de Portugal (p. II, liv.IX, cap.XVII) referem que a Rainha Santa fundou em Alenquer, cidade das rainhas, um templo de invocação ao Espírito Santo, agregado ao convento franciscano desta vila.  Aliás, Esperança e Figaniére, dão o milagre das rosas, como tendo ocorrido em Alenquer, por aquela ocasião.

Francisco Brandão na Monarquia Lusitana (p.6,1. xviiii, c. 42) diz que a mesma rainha instituiu o mesmo culto em Sintra, na sala dos infantes, dos paços daquela vila, que estavam na sua posse por concessão da Ordem de Cristo ou do Templo, a quem pertenciam. Estas celebrações, consistiam numa boda em cerimónia do "Imperador do Espírito Santo", ou do império, e o mesmo Manuel Esperança refere terem sido Santa Isabel e D. Dinis a instituírem o culto em Portugal. 

A doutrina subjacente a este culto, como diz o padre frei Diogo do Rosário, no seu tratado da Sacratíssima festa do Espírito Santo (p.439, col.1.ª) é que foi Cristo que pregou a vinda do Espírito Santo, quando disse aos seus discípulos que lhe enviaria outro mestre, e consolador, que os acompanhasse, esforçasse, e consolasse em todos os seus trabalhos, após a sua partida. Portanto todo o Evangelho seria profecia do Espírito Santo, e como os profetas foram profetas de Cristo, este foi-o do Espírito Santo.

Esta doutrina, de que a palavra de Cristo está no Evangelho inspirado pelo Espírito Santo, não precisando da intermediação de Roma, é a mesma que inspirou a renovação espiritual do século xiii, o regresso á simplicidade do Evangelho, o misticismo do abade Italiano Joaquim de Fiora (defensor do milenarismo e da idade do Espírito Santo e que através de alguns seguidores influenciaria uma corrente messiânica em torno do imperador Frederico II, o qual voltaria para inaugurar uma idade do Espírito Santo), a doutrina do Evangelho Eterno, a doutrina dos “flors d’amor” de que fizeram parte Dante, Petrarca, Bocacio e os gibelinos partidários do imperador contra a igreja, o misticismo dos franciscanos joaquinistas, e a tríplice gradação do Reino do Pai, do Filho e do Espírito Santo (Renan, Nouvelles études d'histoire réligieiuse, paris,  nouv. ed. de 1899 pp. 219 e seg) que  se propagou até ao século xvii entre nós, no Sebastianismo e mito do Quinto Império do Tratado das Ordens de D. João de Castro.

O milagre das rosas anda associado a Santa Isabel e ao culto do Espírito Santo, conforme referiu Araux no seu opúsculo sobre os mistérios da cavalaria e do amor platónico na idade média (Paris, 1858).

Os cavaleiros encantam-se da rosa selvagem; Aos poetas provençais do sec. Xi e xii, a flor das flores é a Rosa Branca do Oriente.

O romance da rosa, poema inacabado do sec. Xiii e de autor desconhecido, mas que Araux atribuiu a um Albigense, critica, na linha alegórica, oculta, e do neoplatonismo da Divina Comédia e Vida Nova de Dante, as mulheres, o clero e a Igreja.

Por sua vez, a Rainha Santa era originária de Aragão, onde se relacionou com o místico Arnaldo de Villanueva (defensor da simplicidade evangélica, e critico do clero e nobres, que com as suas riquezas e mau exemplo desviavam o povo do ideal evangélico), era vizinha do Languedoc e da Provença, tendo seu antepassado Pedro II (que cultivava na sua corte as letras e poesia provençal) combatido ao lado do conde de Tolosa, chefe dos Albigenses, contra o papado. O pai da Rainha Santa, Pedro III combateu o ao lado do império, contra Carlos de Anjou, aliado do papado; episódio este que Dante recorda no canto VII do Purgatório. A mesma Rainha Santa era devota fervorosa do apóstolo S. Tiago, ao túmulo do qual se deslocou com D. Dinis em romaria, o mesmo sucedendo, segundo alguns autores, com Dante. Compostela era, à época o contraponto espiritual ao centralismo de Roma.

Por outro lado, a Galiza, como diz Carolina Michaelis, na ed. Crítica do Cancioneiro da Ajuda, foi, tal como o Languedoc fora berço da lírica provençal, o berço da lírica peninsular e também inquinada, como o Languedoc o fora pela doutrina albigense, da doutrina herética de Prisciliano, que prevaleceu até às invasões árabes e no subconsciente do povo lusitano e galego até hoje, manifestando-se no sentimento religioso espontâneo do povo (Joaquim Correia no seu romance Celestina, a propósito da representação da paixão em Ruivós, narra um episódio comovente desta espontaneidade popular).

          Portugal mantinha ainda as tradições pré-romanas da igualdade e fraternidade, potenciado pelo culto do Espírito Santo e que inspira ainda hoje as Irmandades do Espírito Santo Açorianas. A própria raiz herética lusitana e galega do priscilianismo, patente no cancioneiro Galaico-Português e várias obras do ciclo da Graal editadas até aos descobrimentos, é expressão do sentimento religioso informal e espontâneo do povo lusitano, que apelava à união do homem com a natureza, desprezando o peso da religião organizada, romana e canónica.

Foi desta mesma raiz que nasceu a propriedade comunitária e florescesse uma rede de repúblicas municipais, muitas delas no tempo de D. Dinis. A Irmandade dos Municípios de Riba-Côa, região repovoada também por galegos, inspirava-se igualmente neste espírito de fraternidade e igualdade.

Foi o mesmo D. Dinis, que incentivou o culto do Espírito Santo, que recusou cumprir as ordens do papado e destruir a ordem do Templo, sendo Tomar, terra templária por excelência, onde no continente mais se venera o culto do Espírito Santo.

É nos Açores, terra onde maior influência espiritual teve o franciscanismo místico, que mais arreigado está o culto do Espírito Santo.

Também não será por acaso que Alfaiates, terra que foi da Rainha Santa, como Alenquer, esteja associada ao culto do Espírito Santo, que ainda tem reminiscências em Aldeia da Ponte.

Observando uma árvore a partir do tronco, só vemos os primeiros ramos; contudo sabemos que ela tem sucessivos ramos, sobrepostos em altura até à copa. A História é também como uma árvore: Dela só conhecemos o que mais facilmente está ao nosso alcance; o resto subentende-se.

Adivinho o sorriso céptico de alguns leitores perante o paradoxo da minha tese. Sorrio eu cepticamente dos métodos e preconceitos dos que substituem a actividade construtiva do espírito à passividade intelectualista dos conceitos perfeitos e acabados.

Como dizia Leonardo Coimbra nos seus Dispersos II – Filosofia e Ciência, o homem vê consoante os seus olhos aprenderam a olhar, isto é, pensa e vê como toda a gente.

«O paradoxo é a operação violenta e voltar para a esquerda um pescoço que se habituou para a direita, é a chamada enérgica da atenção, da liberdade individual, para o lado esquecido das realidades. O Paradoxo é o relevo do insólito, é o descolamento de impressões que a passividade do hábito tinha soldado.»

E «[…] Pode dizer-se que a ciência progride por paradoxos…» (Ed. Verbo, p. 306)

O último sorriso sabe bem melhor. 



publicado por Manuel Maria às 08:14 | link do post

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