Sexta-feira, 16 de Março de 2012

 

 

 (Ao meu tio-avô João Nobre, o protagonista da história)

  

 

 

Ainda se ouve ao longe o trovão,

que fustigou a noite incessantemente;

o Sol, alegre e luminoso

na manhã, bela e amena,

o rosto vai descobrindo;

os pássaros, de ramo em ramo,

com a sua doce melodia,

o dia vão acordando;

já a suave e calma manhã,

abre as portas ao sol,

quando sai o pastor amoroso,

a ver o rio entrado nas margens,                

o fresco solo verdejando,

da chuva copiosa do céu;

e atravessando o verde prado,

que as acrescentadas águas do Côa

serenamente descem,

alegre vai o pastor

noivar à sua aldeia

com Maria sua amada,

deixando o rebanho no bardo.

Não vai como costume a pé,

nem leva as tamancas

cravejadas de brochos,

nem a samarra grossa

de peles de lobo morto,

tintas em sangue de vaca;

mas sapatos de carneira,

meia branca lagarteada,

calça subida a meia canela,

botões de latão polido

no colete de risca,

que lhe fez Maria.

Vai cavaleiro brioso

na sua égua baia,

a sela leva de frisa,

e de banda, tapando a franja,

chapéu novo de festa,

capa de roda larga,

debruada a verde-escuro,

e guardada junto ao peito

de Maria a trança negra.

Chega o pastor à vila

pelo caminho dos vales

e a Maria espera-o ao portão;

traz cingida na cintura fina,

blusa de verde escarlate,

saia e saiote de pano;

a fita de cetim preto,

que o pastor amoroso lhe deu,

enfeita a corda dos cabelos.

Ao Largo das nogueiras,

pressentindo a morte

às primeiras casas,

assusta-se a égua baia,

derrubando o pastor amoroso,

que desacordado, levam

Para casa da sua Maria.

E jazendo enfermo assim,

ao vê-lo definhar, a infeliz,

lava-lhe o sangue do cabelo,

aplica-lhe panos de água morna,

anda em bicos de pés

para não perturbar o silêncio,

chora pelos cantos da casa,

limpando as lágrimas furtivas

ao panal de estopa grossa,

promete uma novena,

cem voltas à capelinha,

acende a luz do oratório,

reza ao Senhor dos Aflitos:

-Doce Jesus da minha vida,

esperai, não mo leveis ainda;

que não é bom que queirais

uma alma tão nova perdida.

E acrescentando azeite,

espevitando o pavio:

-Eu, meu Jesus, Vos rogo,

e volto a suplicar-Vos,

leva antes a minha vida;

que se Vós ma destes,

de boa mente ta devolvo,

porque a troco por amor.

E regressando à cabeceira,

aperta-lhe a mão gelada,

acaricia-lhe a testa em fogo,

que cobre de mil beijos.

-Não morras! – Lhe pede, chorosa.

-Ai, ai, Maria, Maria,

Que vejo a morte,

em seu véu branco,

rondando a cama!

-Lhe responde o pastor,

Sentindo o frio

subindo a espinha.

-Não digas tolices!...

Ainda haveremos de casar…

Ter um rancho de filhos!

– Recrimina-o ela, doce,

com um beijo nos lábios.

-Ai, ai, Maria, Maria,

-Lhe diz o pastor, alucinando-

A sua boca gelada

já beijou a minha!...

 

Canção, cala-te agora; não digas mais;

que os versos que escreverias,

falariam dos olhos tristes de Maria,

mais tristes que mortalha fria!

 



publicado por Manuel Maria às 16:57 | link do post | comentar

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