Sexta-feira, 8 de Outubro de 2010

 

 

     Numa pequena cidade de província, junto à fronteira, ergue-se um castelo onde em tempos esteve, por males de inveja, preso um célebre cabo-de-guerra.

     Reza a lenda que, estando ele incomunicável, e a pão e água, conseguiu por artes de engenho e das letras recortadas de um velho hagiógrafo fazer uma carta que mandou ao rei, que o soltou.

     Isto é o que diz a lenda, que sendo coisa do imaginário popular, a gente é livre de acreditar ou não.

     E cada um acredita no que quiser…

     Pois adentro das muralhas do referido castelo houve em tempos um cemitério onde trabalhou um coveiro, cujo apelido era Torres. Dizem as pessoas antigas que era um tipo mal-encarado, intratável, taciturno, solitário e bêbado, como convém a um sujeito que lida com a morte.

    E contam elas, que por altura do S. João, noite de festa na terra, em ano que os mais velhos já não sabem precisar, o Torres acendeu a candeia, pôs a enxada e a pá ao ombro e foi ao cemitério, pois tinha de abrir uma sepultura para a manhã seguinte.

   No caminho, ao passar pelo Largo do Castelo, viu alegres magotes de gente reunidos em volta das fogueiras, sentiu o cheiro intenso do rosmaninho que ascendia em forma de nuvens vaporosas, ouviu os risos e gritos das crianças cruzando a praça em jogos de infância.

   Passou indiferente e chegando à zona escura do portão do castelo, entrou fechando-o atrás de si.

   Tirou a jaqueta, deixou a candeia no chão e começou a cavar sem parar. Mas como era terra virgem, progredia com dificuldade. Ao fim de umas duas horas terminou a cova e sentando-se numa lápide, ali vizinha, murmurou:

   -Dez palmos abaixo de terra e outros tantos ao cumprido em noite de S. João; Boa cama para qualquer um, boa cama! E foi buscar a garrafa de aguardente.

   - Boa cama… Boa cama… -Repetiu uma voz no momento em que ía levá-la aos lábios.

   O Torres olhou em volta e não viu ninguém. No cemitério havia o mais completo silêncio.

   -Foi o eco – disse, levando outra vez a garrafa aos lábios.

   -Não, não foi! – Replicou uma voz cavernosa.

   O Torres levantou-se aterrorizado e viu sentado numa lápide junto dele a figura fantasmagórica de um mendigo – mas isso não percebeu o Torres- que lhe gelou o sangue.

   -Não foi o eco! –Repetiu o mendigo que ali costumava pernoitar, por ser lugar sossegado.

   Na manhã seguinte encontraram no cemitério a candeia, a enxada, a pá, a jaqueta e a garrafa, mas do Torres nunca mais houve notícias.

   O mais certo é que o Torres, assustado e querendo fugir no meio daquele breu, foi cair na cisterna que havia no meio do recinto.

   Procuraram-no por todo o lado, menos na funda e escura cisterna, da qual ninguém se lembrou.

   Especulou-se acerca do destino do Torres, mas rapidamente se decidiu que o tinham levado as almas e, penando, vagueava pelas redondezas; e não faltaram alguns testemunhos que juraram vê-lo, quando episódios inexplicáveis começaram a dar-se no castelo:

   Passos nas barbacãs, barulhos de correntes nas antigas masmorras, murmúrios estranhos à noite, o ferrolho da porta do castelo que se fechava misteriosamente e muitos outros fenómenos que costumam suceder em locais assombrados como aquele.

    Entretanto o castelo deixou de fazer de cemitério e esta história acabou gradualmente por ser esquecida, e, não fora um recente episódio, nunca mais ninguém se lembraria do fantasma do antigo coveiro:

   Há dias, pela hora de almoço, visitando um casal de turistas o castelo, fechou-se o portão, deixando-os involuntariamente prisioneiros.

   Acudiu aos gritos um vizinho solícito que, encostando uma escada à muralha, resgatou os infelizes turistas.

   Levantaram-se hipóteses para o enigmático fecho do portão.

   Alguém alvitrou que teria sido um funcionário da câmara que, apressado para o almoço, não se apercebera dos turistas.

   E foi então que uma velha moradora do largo contou esta lenda do Torres, ouvida à sua avó.

   Enfim, cada um acredita no que quiser…

   Mas sendo ou não o fantasma do Torres, à cautela, alguém tome conta do assunto.

   É que, segundo consta, já não é a primeira vez que o portão se fecha com turistas lá dentro!

   Ou talvez o Torres ainda ande por aí a fazer das suas… Quem sabe?



publicado por Manuel Maria às 08:59 | link do post | comentar

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