Sexta-feira, 8 de Outubro de 2010



 

     O profeta, o escolhido e bem-amado, ele que era o amanhecer do seu próprio dia, regressou à sua terra natal, no mês de Agosto, o mês da saudade.

     Seguido dos seus discípulos, atravessou o rio na velha ponte, e prosseguindo pela estrada que ladeia a colina do vetusto castelo, enquanto avançava, crescia a alegria no seu coração.

     Lembrava-se ainda daquela terra como um jardim grande e belo, com suaves pastos onde brotavam, lindas flores semelhantes às estrelas e havia doces meloais que na Primavera se cobriam de flores delicadas rosa e pérola e no Outono davam um fruto saboroso; hortas bem amanhadas, sobre o rio, com as suas picotas, dando todo o mimo de verduras. Lembrava-se ainda como nas árvores pousavam os pássaros que cantando tão melodiosamente, faziam com que ele, em menino, ficasse em silêncio a escutá-los por longas horas. Ou como ía de um lado para o outro admirando as belezas da natureza, pensando que Deus mudara de sítio nas alturas, aproximando-se da terra. Lembrava-se sobretudo do jardim bem cuidado de sua casa; as açucenas vestidas de branco, erguendo-se com certo desmaio, como as raparigas em traje de baile, que em menino tinha admirando nas revistas; as camélias, de cor carnosa, fazendo pensar nas pernas desnudas, em grandes senhoras, indolentemente deitadas, mostrando os mistérios da sua pele de seda; as violetas ocultando-se entre as folhas para se denunciarem com o seu perfume; as margaridas destacando-se como botões de ouro malte, os craveiros, qual avalanche revolucionária de gorros vermelhos, cobrindo o canteiro, e no horto a grande amendoeira balanceando o sua ramagem como um incensário de branco e rosa que se espalhava mais agradável que o das igrejas.

     Chegando às primeiras casas, parou, e disse orgulhosamente:

     -Vede – e apontando o casario- aqui tendes, finalmente a terra que me viu crescer.

     Então, um dos discípulos avançou e disse:

     -Vê este grupo que saíu ao nosso caminho. Souberam da tua chegada, e vieram, abandonando as suas terras e vinhas, esperar-te.

     E ao profeta, vendo o pequeno grupo, o seu coração enterneceu-se. Nisto, surgiu um murmúrio no grupo, um murmúrio de afecto e súplica.

     E o profeta olhando-os, disse:

     Quando fecho os olhos, no reboliço da cidade, vejo estes lameiros, cheios de verdura e freixos, cujas copas alcançavam o céu. Cada vez que tapo os ouvidos ao barulho da cidade oiço o murmúrio da ribeira e o resfolgar do vento nas ramadas. Todas estas belezas da minha imaginação, recordam-me a minha infância e juventude, que eu anseio reviver convosco neste meu regresso.

      E aquela gente sentiu um calor nos seus corações ao ouvir estas coisas, e um deles disse:

     -Onde te escondeste para que não vivamos na luz da tua presença? Pois olha: Todos estes longos anos te amámos e ansiámos que voltasses são e salvo. E agora a gente pede aos gritos para falar contigo; Peço-te que apareças diante do povo e lhe expresses a tua sabedoria, e consoles os aflitos e instruas os ignorantes.

     O profeta, comovendo-se, disse:

     -Não me chames sábio, a menos que chames sábio a todos os homens. Somos apenas folhas verdes da árvore da vida que um dia o vento levará, e a vida está muito acima da sabedoria e da ignorância. Ninguém é sábio ou ignorante.

     E retomando o caminho, com os seus discípulos e o pequeno grupo de seguidores, entrou na rua que conduzia ao seu jardim, que fora o jardim de sua mãe, seu pai e antepassados. E alguns queriam segui-lo para lhe prepararem um banquete de boas vindas, segundo o costume da terra, mas ele pediu que o deixassem só porque o seu pão era o pão da saudade, e o seu copo transbordava de vinho da lembrança, que desejava beber só.

     E o profeta chegando ao jardim dos seus pais, entrou nele, e fechou o portão, para que ninguém o seguisse. E durante quarenta dias e quarenta noites viveu sozinho naquela casa e naquele jardim e ninguém se aproximou daquele portão, que permanecia fechado, e todos sabiam que pretendia estar só. Ao fim dos quarenta dias e quarenta noites, ele abriu o portão para que pudessem ir vê-lo.

     E vieram alguns dos seus discípulos que se sentaram em volta dele. E no pequeno largo defronte, juntou-se uma grande multidão: Adultos, velhos, robustos e enfermos, de rosto curtido pelo vento e pelo sol. Um deles falou e disse:

     -Mestre, os nossos corações estão amargurados e não sabemos porquê. Suplicamos-te que nos consoles e que abras o nosso coração e mentes ao significado das nossas penas.

     E o profeta, olhando as colinas e o céu azul, suspirou e disse:

     -Amigos, compadecei-vos da terra que está cheia de crenças e vazia de religião. Compadecei-vos da terra que veste o que não tece, come o pão que não cultiva e bebe o vinho que não corre dos seus lagares. Compadecei-vos da terra que aclama os fanfarrões como heróis e cujos sábios morreram com o passar dos anos. Compadecei-vos pela terra onde o ventre das mulheres secou e que já não ouve os risos e as brincadeiras   das crianças nas suas ruas e praças. Compadecei-vos da terra que só grita quando caminha num funeral, que apenas se orgulha das suas ruínas, que nem se revolta quando a votam ao desprezo. Compadecei-vos da terra cujas autoridades gastam o que não têm em obras megalómanas, cujos filósofos são ogres prestidigitadores, e cuja política é uma arte de remendos e efabulações. Eis, pois aqui resumidamente, o significado das vossas penas: Sois um bando espectros; uma geração de condenados, isto é o que vós sois! De que vos queixais, portanto?

      Nisto, fez-se um longo silêncio, interrompido por um gradual clamor que se levantou na multidão. Um dos tais ogres avançou com uma pedra na mão, à cabeça de toda aquela gente, e vociferou:

      - Quem te julgas para nos vires aqui dar lições? Só porque foste por esse mundo, vistes coisas, és melhor que nós, que ficámos? Não precisamos cá de ti para nada! – e fazendo o gesto de arremessar a pedra – Volta por onde vieste!

      Então, o profeta acendeu calmamente o cachimbo, levantou-se, ajeitou a boina, passando destemidamente entre a multidão. E secundado pelos seus discípulos, parando à saída da sua povoação, apoiado no bordão, e voltando-se para contemplar uma última vez a silhueta do velho castelo e daqueles montes em redor, falou aos seus discípulos, dizendo:

      -Quem nunca foi vítima da mordedura das serpentes e nunca sentiu as ferroadas dos lobos?

      E, sacudindo a poeira das sandálias, no que foi imitado por todos eles, fez-se novamente ao caminho.



publicado por Manuel Maria às 08:55 | link do post | comentar

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