Quarta-feira, 5 de Maio de 2010

 

 

 

                

            «António Carlos Dias Coradinha pôs ontem termo à sua vida.»

            Foi assim, de forma lapidar, que chegou a notícia.

            O suicídio é o maior problema filosófico que se pode colocar a um homem. Como dizia Camus, só há um problema filosófico verdadeiramente sério: É o suicídio. De facto, o suicídio é a confissão de que a vida não vale a pena e a conclusão de que a morte não priva de nada.

            De facto a vida está bem longe de ser um bem certo. A única vida que um homem pode perder é aquela que está a viver no momento; e mais, ele não pode ter qualquer outra vida a não ser aquela que ele perde.

            Isto significa que uma vida mais longa ou mais curta vai dar ao mesmo. Porque o minuto que passa é o bem igual de todos os homens, mas o que já passou não é nosso.

            Com a morte, a nossa perda, portanto, limita-se àquele momento fugaz, uma vez que ninguém pode perder o que já passou, nem o que está ainda para vir.

             — Como é que alguém pode ser despojado daquilo que não tem?

            Dizia Plínio que o suicídio até era uma vantagem dos homens sobre a divindade:

            «Deus non sibi potest mortem consciscere si velit quod homini dedit optimum in tantis vitae poenis» [Mesmo se quisesse, Deus não poderia cometer suicídio: é um bem supremo que concedeu ao homem mergulhado nos inúmeros males da existência] Livro II, cap.5

            É uma consequência do livre arbítrio e da consciência, como diz Álvaro de Campos; da nossa passagem fugaz neste mundo:

 «Se te queres matar, por que não te queres matar?
Ah, aproveita! que eu, que tanto amo a morte e a vida,
Se ousasse matar-me, também me mataria...
Ah, se ousares, ousa!
De que te serve o quadro sucessivo das imagens externas
A que chamamos o mundo?
A cinematografia das horas representadas
Por actores de convenções e poses determinadas,
O circo policromo do nosso dinamismo sem fím?
De que te serve o teu mundo interior que desconheces?
Talvez, matando-te, o conheças finalmente...
Talvez, acabando, comeces...
E, de qualquer forma, se te cansa seres,
Ah, cansa-te nobremente,
E não cantes, como eu, a vida por bebedeira,
Não saúdes como eu a morte em literatura!

Fazes falta? Ó sombra fútil chamada gente!
Ninguém faz falta; não fazes falta a ninguém...
Sem ti correrá tudo sem ti.
Talvez seja pior para outros existires que matares-te...
Talvez peses mais durando, que deixando de durar...

A mágoa dos outros?... Tens remorso adiantado
De que te chorem?
Descansa: pouco te chorarão...
O impulso vital apaga as lágrimas pouco a pouco,
Quando não são de coisas nossas,
Quando são do que acontece aos outros, sobretudo a morte,
Porque é coisa depois da qual nada acontece aos outros...

Primeiro é a angústia, a surpresa da vinda
Do mistério e da falta da tua vida falada...
Depois o horror do caixão visível e material,
E os homens de preto que exercem a profissão de estar ali.
Depois a família a velar, inconsolável e contando anedotas,
Lamentando a pena de teres morrido,
E tu mera causa ocasional daquela carpidação,
Tu verdadeiramente morto, muito mais morto que calculas...
Muito mais morto aqui que calculas,
Mesmo que estejas muito mais vivo além...
Depois a trágica retirada para o jazigo ou a cova,
E depois o princípio da morte da tua memória.
Há primeiro em todos um alívio
Da tragédia um pouco maçadora de teres morrido...
Depois a conversa aligeira-se quotidianamente,
E a vida de todos os dias retoma o seu dia...

Depois, lentamente esqueceste.
Só és lembrado em duas datas, aniversariamente:
Quando faz anos que nasceste, quando faz anos que morreste.
Mais nada, mais nada, absolutamente mais nada.
Duas vezes no ano pensam em ti.
Duas vezes no ano suspiram por ti os que te amaram,
E uma ou outra vez suspiram se por acaso se fala em ti.

Encara-te a frio, e encara a frio o que somos...
Se queres matar-te, mata-te...
Não tenhas escrúpulos morais, receios de inteligência! ...
Que escrúpulos ou receios tem a mecânica da vida?

Que escrúpulos químicos tem o impulso que gera
As seivas, e a circulação do sangue, e o amor?

Que memória dos outros tem o ritmo alegre da vida?
Ah, pobre vaidade de carne e osso chamada homem.
Não vês que não tens importância absolutamente nenhuma?

És importante para ti, porque é a ti que te sentes.
És tudo para ti, porque para ti és o universo,
E o próprio universo e os outros
Satélites da tua subjectividade objectiva.
És importante para ti porque só tu és importante para ti.
E se és assim, ó mito, não serão os outros assim?

Tens, como Hamlet, o pavor do desconhecido?
Mas o que é conhecido? O que é que tu conheces,
Para que chames desconhecido a qualquer coisa em especial?

Tens, como Falstaff, o amor gorduroso da vida?
Se assim a amas materialmente, ama-a ainda mais materialmente,
Torna-te parte carnal da terra e das coisas!
Dispersa-te, sistema físico-químico
De células nocturnamente conscientes
Pela nocturna consciência da inconsciência dos corpos,
Pelo grande cobertor não-cobrindo-nada das aparências,
Pela relva e a erva da proliferação dos seres,
Pela névoa atómica das coisas,
Pelas paredes turbilhonantes
Do vácuo dinâmico do mundo...» 
            Que bom deve ser, partir da vida quando nos apetece! Ter o desprendimento de quem vai de viagem, dizendo simplesmente, sem olhar para trás:

             - Adeus; e passem todos muito bem!

 



publicado por Manuel Maria às 06:34 | link do post | comentar

1 comentário:
De alemvirtual a 28 de Julho de 2010 às 22:33
Talvez sim, talvez não...

Por vezes se pensa assim. Outras por ser assim, se pensa de modo diferente...

(nao foi ao acaso este "marco" o escolhido para dizer "Obrigada")

Ana Paula Pinto


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