Quarta-feira, 28 de Outubro de 2009

 

Conversão de S. Paulo a Caminho de Damasco (exposição do Seminário de Almada)

 

            «Deus não existe». E não existe porque nunca se deu ao trabalho em descer à dimensão espacio-temporal para falar com o grande génio da humanidade que é Saramago.

            É este o argumento idiota de um sofrível escritor que pensa ser o Nobel um certificado de autoridade intelectual e inteligência “erga omnes”.  

            A existência de Deus, até nem é uma questão de fé mas de lógica. Mas inteligência e rectidão intelectual, pelos vistos são talentos que Deus não distribuiu a Saramago. Por isso, releva-se-lhe a falta, porque não se lhe pode exigir o que manifestamente não tem.

            Não se lhe exigindo inteligência e rectidão intelectual, muito menos se lhe pede a clarividência mística do porteiro da Cartuxa de Évora, que ao argumento do nascimento do mundo pela explosão do Big Bang a partir do nada, contrapunha:

            -Pois… Mas se nasceu do nada, quem continha esse nada?

            As provas de São Tomás a respeito de Deus, são tão brilhantes, que conseguem convencer quem tenha o mínimo de inteligência e de rectidão intelectual. Muito antes dele, homens de uma grande rectidão intelectual, como Sócrates, Platão, Aristóteles, Séneca, Virgílio e Marco Aurélio chegaram à conclusão da existência de Deus.

Sócrates, às portas da morte rezava: «Causa das causas, tem piedade de mim…»

Cleanthes, discípulo do estóico Zenão, cantava o seguinte hino: « Altíssima Glória dos Céus, Senhor de variado nome eterno, perpétuo seja o teu poder! Abençoado sejas, ó grande arquitecto da criação, que ordenas todas as coisas segundo as tuas leis! Evocar o teu nome é próprio e justo para o mortal, pois somos nascidos de ti…»

Séneca descrevia o Supremo Poder como «Deus Todo Poderoso», ou «Sabedoria incorpórea, ou Espírito Santo, ou ainda Destino», numa antecipação da doutrina cristã da Santíssima Trindade, de que a Igreja suprimiu o destino.

            A existência de Deus é uma verdade evidente em si mesma, porque na preposição “Deus existe”, o predicado identifica-se com o sujeito, porque Deus é o próprio ente.

            Mas em relação a nós, que desconhecemos a natureza divina, ela não é evidente, precisando de ser demonstrada. Mas o que se demonstra, não é evidente e o que é evidente não precisa de ser demonstrado.

            O que tornaria à partida paradoxal a demonstração da existência de Deus. Por isso São Tomás diz que a existência de Deus é antes de mais, um artigo de fé e como tal não precisa de ser demonstrado.

            Mas mesmo assim, podemos chegar a Deus pela via da demonstração, das quais São Tomás distingue dois tipos:

a)    Demonstrandum propter quid (devido a quê) que se baseia na causa e parte do anterior (causa) para o posterior (efeito)

b)    Demonstrandum quia (porque) que arte do efeito para conhecer a causa.

Quando vemos um efeito pela sua causa, por aquele acabamos por chegar a esta, pois o efeito depende da causa e de algum modo, tem qualidades da causa.

            Assim, embora Deus não seja evidente para nós, é demonstrável pelos efeitos que dele conhecemos. Como dizia S. Paulo «A existência de Deus […] pode ser conhecida pela razão (Rom. I, 19).

            A fé assenta e pressupõe um conhecimento natural e racional, assim como a verdade pressupõe a mentira e a perfeição a imperfeição. Só quem conhece ou entende a demonstração filosófica da existência de Deus, aceita a sua existência com uma fé esclarecida.

            Ora, não primando Saramago pela inteligência e honestidade intelectual, admiração seria que admitisse a existência de Deus sequer pela via da fé.

            Querem ver como pela via da razão São Tomás (1.ª parte da Suma Teológica art. 3.º da questão 2) demonstra a existência de Deus?

Basta a prova do movimento no universo:

As coisas mudam; é um facto. Uma pessoa nasce, cresce e morre; as estações do ano sucedem-se; um regato corre e seca, etc.

Na mudança das coisas podemos distinguir as qualidades já existentes e as qualidades que podem vir a adquirir pela mudança. Aquelas são as existentes em acto; estas são as existentes em potência.

Vg. Uma parede branca tem a brancura em acto e o vermelho em potência porque pode ser pintada desta cor.

A mudança, ou movimento é a passagem de potência (x) a acto (x) traduzida na seguinte fórmula:

M = PX---»AX

Vg. Pintar de vermelho a parede branca.

Ora nada passa de potência a acto sem uma entidade estranha que tenha aquela qualidade em acto.

Vg. A parede branca só fica vermelha se receber o vermelho da tinta.

Concluindo; tudo o que estava em potência e muda é movido por outrem. E para mover é preciso ter uma qualidade em acto. No que decorre que é impossível que uma coisa esteja ao mesmo tempo em potência e acto para uma mesma qualidade.

V.g. Se a parede está branca em acto, ela tem potência para ser vermelha. Se ela está vermelha em acto ele não tem potência para ser vermelha.

É por isso impossível que uma coisa seja ao mesmo motor e móvel para uma mesma qualidade; isto é, que uma coisa se mude a si mesma. Resumindo: tudo o que muda, é por acção externa.

E as mudanças podem dar-se numa sequência definida de mudanças que pode exemplificar-se na seguinte fórmula invertida:                                                                         

PX(6)---»AXPX(5)---»AXPX(4)---»AXPX(3)---»AXPX(2)---»AX(1)

Definida, porque se fosse indefinida, não havia um primeiro ente que originasse a sequência, o que seria absurdo porque para se produzir movimento num ente é preciso sempre outro com a qualidade em acto e porque tinha que a potência preceder o acto e nunca podia haver uma acto anterior à potência, impossibilitando-se assim o movimento.

Portanto a sequência do movimento não pode ser indefinida, e aquela tem de ser originária de um ente que seja apenas em acto, que seja o primeiro motor.

Este primeiro motor não pode ser movido, porque é puro acto (tem todas as perfeições) sem potência passiva, porque se a tivesse seria movido por um anterior, como é lógico.

Este Acto Puro, sem nenhuma potência passiva é Deus. 

E como Acto Puro, não tem passado nem futuro; é, simplesmente. Por isso quando Moisés perguntou a Deus qual era o seu nome este respondeu-lhe: «Eu sou Aquele Que é», e quando Jesus discutiu com os fariseus lhes disse também: «Antes que Abraão fosse, Eu sou» (Jo. VIII, 58)

 Caramba! Nem é preciso ser mais inteligente que Saramago… Os movimentos dão-se no espaço e tempo que são mensuráveis e como tal a sua sequência tem que ser finita, o que é comprovado pela teoria do Big Bang, pela lei da entropia e até pela teoria da evolução.

Deus portanto existe. É o ser em Acto Puro que não muda, independentemente da vontade de Saramago.

 Até o porteiro da Cartuxa de Évora, que foi das pessoas mais simples que alguma vez conheci, no seu misticismo chegou à conclusão de que Deus é «Aquele que tudo contém…»

Mesmo a parvoíce de Saramago!

 



publicado por Manuel Maria às 16:33 | link do post

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