Segunda-feira, 18 de Maio de 2009

 

 

                Há dias, consultando o “ranking” dos blogues nacionais, constatei com surpresa que, entre os cinquenta mais concorridos, estava um de poesia. Entrando e lendo os “postes” e comentários, vi que tinha uma frequência diária de mais de mi visitantes, tudo internautas ligados a blogues de poesia, que são pródigos nos elogios ao autor,  numa espécie de “potelache” social.

                E logo no post mais recente, o autor embalado nesta unanimidade de elogios, alcandorando-se em poeta genial, queixava-se que um bloguista lhe teria roubado um poema em atropelo pelos seus direitos de autor.

                Nunca vi coisa mais despropositada na vida. A ser verdade o que o "post" refere, atenta a mediana qualidade da poesia de todo o blogue, tratou-se de um “furto de formigueiro”; de uma bagatela a que ninguém ligaria, não fosse o clamor exagerado do autor.

                “Presunção e água benta, cada um toma a que quiser”... Normalmente é assim; quem se põe em bicos de pés, é quem menos vale. E medíocres, armados em grandes poetas, há por aí aos pontapés!

                Pelos vistos, este poeta tem muito a aprender com a simplicidade das personagens da história que vem descrita num dos números da extinta “Revista Lusitânia”, dirigida por Leite de Vasconcelos, e que aqui resumo:

D Frei Manuel do Cenáculo, foi um grande vulto da ciência, além de exímio poeta e amante da poesia, e esteve à frente da Diocese de Beja numa época em que ali vivia um pastor, homem inculto, com grande fama de poeta.

Este poeta popular fazia os seus magníficos versos a troco de um copo de vinho, não havendo ninguém em Beja e no Distrito que não conhecesse este grande bardo de alcunha – o «Pôtra».

Cenáculo, constando-lhe que vagueava nas ruas da cidade um pastor analfabeto, que improvisava trovas admiráveis, não acreditou. Mas um dia em que reunia no paço com um grupo de padres e vindo à conversa o tema da poesia, veia favorita do Exmo. Prelado, um dos clérigos elogiou o talento e fama do referido versejador popular. Sua Exa. Reverendíssima ficou com vontade de convidar o «Pôtra» a ir ao paço a propósito de qualquer coisa.

Passados uns dias, apareceu na cidade o pastor, de cajado enfiado no braço, andando vagarosamente em direcção à Igreja de S. Salvador para ouvir missa.

                - Ali vai ele Senhor Bispo. É aquele ali mais baixo e grosso.

                - Que suba; quero falar-lhe.

O homem subiu e Cenáculo interrogou-o.

                - Como te chamas, pastor?

                - Pôtra; um criado de Vossa Incelência!

                - Tu és o tal Pôtra, que faz versos a torto e a direito?

                - Começam tortos e às vezes acabam drêtos, como se acostuma dizer…

                - Muito bem; mandei chamar-te para te ouvir; Fazes-me um verso?

                - Hom’essa… Sua incelência manga comigo… Mas venha o mote!

                Cenáculo fitando-o com sarcasmo, dita-lhe:

                - «Nós, ambos somos pastores».

                Pôtra improvisou isto:

                               Senhor nosso, batei palmas,

                               Pois nós não somos iguais!

                               Eu sou pastor de animais

                               E vós pastor de almas.

                               Sofro frio e sofro calmas,

                               Sinto do tempo os rigores;

                               Vós brilhais entre os doutores,

                               Servindo aos sábios d’exemplo,

        Eu, no prado, e vós no Templo,

        «Nós, ambos somos pastores».

                O bispo, maravilhado, abraçando-o, deu-lhe uma peça de 6.400 réis e disse-lhe, que quando viesse à cidade, desejava vê-lo, pois muito se alegrava todas as vezes que abraçava os colegas.

                De facto, o verdadeiro talento de um poeta  está na humildade e na simplicidade com que escreve. 

                A mesma com que o dono da arvore fecha os olhos aos pobres de Cristo, que passando no caminho, lhe roubam a fruta! 

 



publicado por Manuel Maria às 10:49 | link do post | comentar

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