Quinta-feira, 7 de Maio de 2009

 

 

 

«O me felicem! o nox mihi candida! et o tu
lectule deliciis facte beate meis!
quam multa apposita narramus verba lucerna,
quantaque sublato lumine rixa fuit!
nam modo nudatis mecum est luctata papillis, -5
interdum tunica duxit operta moram.
illa meos somno lapsos patefecit ocellos
ore suo et dixit 'Sicine, lente, iaces?'
quam vario amplexu mutamus bracchia!quantum
oscula sunt labris nostra morata tuis! -10
non iuvat in caeco Venerem corrumpere motu:
si nescis, oculi sunt in amore duces.
ipse Paris nuda fertur periisse Lacaena,
cum Menelaeo surgeret e thalamo;
nudus et Endymion Phoebi cepisse sororem -15
dicitur et nudae concubuisse deae.
quod si pertendens animo vestita cubaris,
scissa veste meas experiere manus:
quin etiam, si me ulterius provexerit ira,
ostendes matri bracchia laesa tuae. -20
necdum inclinatae prohibent te ludere mammae:
viderit haec, si quam iam peperisse pudet.
dum nos fata sinunt, oculos satiemus amore:
nox tibi longa venit, nec reditura dies.
atque utinam haerentis sic nos vincire catena -25
velles, ut numquam solveret ulla dies!
exemplo iunctae tibi sint in amore columbae,
masculus et totum femina coniugium.
errat, qui finem vesani quaerit amoris:
verus amor nullum novit habere modum. -30
terra prius falso partu deludet arantis,
et citius nigros Sol agitabit equos,
fluminaque ad caput incipient revocare liquores,
aridus et sicco gurgite piscis erit,
quam possim nostros alio transferre dolores: -35
huius ero vivus, mortuus huius ero.
quod mihi secum talis concedere noctes
illa velit, vitae longus et annus erit.
si dabit haec multas, fiam immortalis in illis:
nocte una quivis vel deus esse potest. -40
qualem si cuncti cuperent decurrere vitam
et pressi multo membra iacere mero,
non ferrum crudele ncque esset bellica navis,
nec nostra Actiacum verteret ossa mare,
nec totiens propriis circum oppugnata triumphis -45
lassa foret crinis solere Roma suos.
haec certe merito poterunt laudare minores:
laeserunt nullos pocula nostra deos.
tu modo, dum lucet, fructum ne desere vitae!
omnia si dederis oscula, pauca dabis. -50
ac veluti folia arentis liquere corollas,
quae passim calathis strata natare vides,
sic nobis, qui nunc magnum spiramus amantes,
forsitan includet crastina fata dies.»


Aqui fica a minha tradução:


Ó minha felicidade! Ó minha luminosa noite! E tu, leito que se tornou alegre, com os meus prazeres! Quantas palavras trocámos na penumbra da candeia! Quantas batalhas travámos, apagadas as luzes! (5) E assim, a túnica discretamente afastada, quantas vezes comigo lutou de seios nus.

Com seus beijos, ela abriu meus olhos fechados no sono e disse: “é assim que dormes inerte?” Quantos abraços variados trocamos! Quantos (10) beijos meus habitaram teus lábios! Não se lembre Vénus destruir o momento com um cego movimento: Caso não saibas: os olhos são comandantes no amor.

O próprio Páris, diz-se, ter morrido de amor com a nudez d’Helena quando esta se ergueu do leito de Menelau. (15) Conta-se também que Endímion, nu, surpreendeu a irmã de Febo e se deitou com a deusa nua. Mas, se insistires em deitar-te vestida, sob a roupa aberta irás sentir minhas mãos: Ainda mais... Se o meu desejo me dominar, (20) mostrarás os braços maculados da tua mãe.

Teus seios caídos ainda não te impedem de brincar: isso te preocuparia se já tivesses a vergonha de ter parido. Enquanto os fados me permitirem: saciaremos os olhos de amor: a noite te parecerá longa e o dia tardará.(25) Oxalá desejes que fiquemos assim tão juntos como laços duradouros que dia nenhum desate. Que as pombas unidas te sirvam de exemplo no amor, macho e fêmea em total união.

Erra quem procura o fim de um louco amor: (30) O verdadeiro amor não tem limites. A terra enganará com falsos frutos os lavradores e o sol fará trotar os seus negros cavalos, os rios retrocederão à nascente e os peixes ficarão em árido e seco leito, (35) antes que eu possa trocar meus amores por outro amor. Por ele vivo; por ele morrerei.

Se ele me quiser conceder na sua companhia tais noites, longo me parecerá um ano de vida; se ele me conceder muitas noites, tornar-me-ei imortal: (40) Numa noite qualquer um pode ser deus. Se todos desejassem levar tal vida e descansar seus corpos enebriados, não haveria espadas cruéis e tampouco navios de guerra, nem o mar de Ácio revolveria nossos despojos, (45) nem com tantas guerras e vitórias, Roma estaria cansada de chorar.

Com todo o mérito, os jovens poderão louvar estes propósitos, pois as nossas taças nunca afrontaram deus nenhum. Tu, por tua vez, enquanto é dia, não abandones os prazeres da vida!(50) Ainda que dês todos os beijos, poucos terás dado. Assim como as folhas caem nas grinaldas ressequidas, e as vês nadar espalhadas nas taças aqui e ali, também para nós, que agora amamos e aspiramos a um grande Amor, forçosamente acabarão os dias festivos.



publicado por Manuel Maria às 00:38 | link do post | comentar

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