Sexta-feira, 21 de Novembro de 2008

 

 

 Foto retirada de www.vilarmaior1@blogs.sapo.pt

 

            António Diogo, há vinte anos que vivia como ermitão; primeiro nas Retortas, depois nos Labaços, onde "ajeitou", num eirado junto a um pequena nascente de água, um abrigo em pedra solta.

E o eirado onde tinha a sua cabana de solitário era no alto de um extenso planalto, todo coberto de giestas e carvalhos negrais que se espalhavam por uma extensa folha de antigas tapadas centeeiras, há dezenas de anos em pousio. Ali, por entre rudes fragas, caindo numa pequena vertente, criara um pequeno horto, com algumas árvores de fruto, que em todas as primaveras floriam e perfumavam o ermo. Tudo em redor daquele pequeno horto, era mato de imensas giestas negrais ondulando pela encosta até ao limite da povoação, lá em baixo, nas margens do Cesarão.

Evitando os habitantes, descia pela noite à povoação para recolher o pão e as poucas mercearias que a Amélia ou a Carolina lhe deixavam penduradas no portão da casa que fora dos pais. Recolhido o saco, desaparecia ainda na escuridão, apressado ao lento despertar dos primeiros lavradores ou pastores que iam para os campos. Por muitos dias e luas, António Diogo não avistava ninguém e a sua vida continuava, sempre igual, como a água do seu horto, que com o mesmo rumor, corria da mãe-d’água, pela regadeira que atravessava o horto, por entre duas áleas de couves-galegas, perfiladas de alto a baixo.

Cada noite de Inverno, com a geada a crestar aqueles campos em redor, fazia uma grande fogueira à porta do abrigo e, apanhando as brasas numa chapa que metia debaixo da enxerga, protegia-se assim do frio, até que, no postigo aberto da porta o sol subisse no céu azul, por cima da estrada do Carril. Depois, como um asceta dos primeiros tempos do monaquismo, apanhava a enxada e descia, ainda jejuando, a trabalhar naquele jardim que a água criara e ele, com as suas mãos pacientemente acrescentara. E enquanto a enxada desfazia os torrões do cadabulho ou as mãos se feriam nas pedras que mondava sem parar, uma poeira fina, que só almas místicas conseguem ver, subia do horto para o céu, como o fumo de uma ara sagrada que nunca se apagava.

De vez em quando um pardal vinha beber no córrego da água ou descansar nos ramos de uma das árvores de fruto. Era então que, aliviando a fadiga, ia pelo renque de couves-galegas acima e, sentando-se numa pedra que havia ao cimo da leira com uma côdea de pão no regaço, de olhos derramados na distante agulha branca da torre da Igreja, onde se via a cruz, sobranceira, António Diogo partilhava o seu pão com os pardais.

A sua vida era assim simples, sob o céu onde o sol descia todos os dias sobre o Vale da Lapa, que ensanguentava e a lua subia por cima do extenso carvalhal da Fonte Fria, ora redonda, ora curva, sempre lustrosa e consoladora. E todos os dias no cabeço do Chão da Forca uivavam os lobos rondando as primeiras casas da povoação e os cães do Zé Carlos latiam, nervosos à sua proximidade. Depois tudo emudecia e António Diogo, embevecido na frescura e na paz do luar que sentia no silêncio daquele ermo, recolhia ao casebre, com a sua enxada ao ombro, ajoelhando-se no córrego para beber.

E bebido na concha formada pelas duas mãos juntas, cada sorvo de água, espalhava no seu ser, com frescura, o contentamento de mais um dia vivido intensamente a rezar.

 



publicado por Manuel Maria às 14:12 | link do post | comentar

5 comentários:
De Jofre de Lima Monteiro Alves a 22 de Novembro de 2008 às 01:05
Um texto agradável e interessante, que se lê com imenso agrado, até pelo tema e pela qualidade. Boa semana com tudo de bom.


De ana a 28 de Novembro de 2008 às 02:45
Aqui apreendi, em silêncio respeitoso, a solidão tranquila do dia e da noite de António Diogo.
Como um dos pardais a que dava migalhas.


De Manuel Maria a 28 de Novembro de 2008 às 14:53
Não sei porquê... texto do António Diogo saíu truncado. Agora sim... completo-o.
Eu dei com ele algum pão aos pardais... mas não te vi a ti... hum...


De ana a 2 de Dezembro de 2008 às 17:19
Pois não. Esse não era o tempo, esse não era o fatum .


De Anónimo a 28 de Novembro de 2008 às 17:04
E amim quantas vezes me dão ganas de emitar este António Diogo. Mas...falta-me a coragem.


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