Sábado, 29 de Julho de 2006

 


 

 

      Na vila havia desde tempos imemoriaias, rivalidades entre as duas Freguesias de Santa Maria e de S. Pedro, que se estendiam aos rapazes da escola.

     Naquelas ruas estreitas sofri muitos lançamentos de pedras,  muitos sopapos, mas também dei alguns que muito me honrararam e fizeram homem.

     Era por essas ruas apertadas, que íam do largo do chafariz ao coreto de S. Pedro, que passava o "forra pitas", sempre que vinha á taberna em frente ao Sr. Melo, o que era muito frequente.

     Era um homem atarracado, de aspecto franzino, na casa dos cinquenta, vestido de forma andarajosa, de barba sempre por fazer.

      Os meus camaradas  e eu escondíamo-nos na rua da barbearia à espera que ele saísse da taberna, já embriegado, e gritávamos-lhe:

     -Afoga Pitas! Afoga Pitas! Ó Afoga Pitas!

     Normalmente ele seguia o seu caminho, mas por vezes detinha-se, como se ficasse à escuta,  olhava-nos com uma fúria incontida, enfiava lentamente a mão no bolso das calças ameaçador. Nós desatavamos então a fugir, rua acima, até ao "Riquinho".

     Este olhar e cerrar de mão dentro do bolso, era responsável por eu atravessar as ruelas  no caminho da escola, sempre a correr e de "credo na boca", não fosse cruzar-me com ele.

     Imaginava o momento em que ele me agarrava pela gola do casaco, enfiava a mão no bolso e tirava de lá um facalhão, enquanto me levantava do chão e eu ficava assim dependurado a uns palmos do chão sem poder fugir.

     Apesar disso, juntava-me com os outros á esquina da barbearia e gritava-lhe a alcunha  e ria quando ele levava a mão ao bolso e o rosto medonho se contorcia num esgar de raiva, o que me  dava um peso imenso de consciência.

     Um belo dia andavamos nas habituais guerras de Freguesias, lá para os lados do campo das festas, quando na fuga me vi isolado num beco escuso, acossado pela malta de S. Pedro. 

     Tinha a saída da rua tapada por um grupo ameaçador, quando se abre uma porta e oiço uma voz pegajosa nas minhas costas:

    - Entre menino, esconda-se aqui!

     Hesitei entre o facalhão do "Afoga Pitas" e os "cascudos" da malta de S. Pedro, mas o que é certo é que as minhas contas  com os de S. Pedro estavam há muito por saldar e não iria saír da contenda sem uma boa "maquia".

     Entre dois males, o menos. Lá fui entrando, com o "coração bem apertadinho". O "Afoga Pitas" levou-me para uma sala escura, com duas cadeiras  e uma mesa ao centro. Na parede  havia uma imagem amaralecida de uma pastora com um cordeirinho. 

     Levou a mão ao bolso e foi então que pensei: é desta que me vai pendurar como um chouriço e  vingar-se de todas as patifarias que lhe fiz.  Tirou do bolso uma navalha que abriu e pôs na mesa. Foi a uma vasaleira que havia a meio da parede e tirou meio centeio, um quarto de queijo, dois copos bem sujos e uma garrafa de vinho tinto já encertada.

      - Coma e beba menino- disse enquanto enchia os dois copos- a casa é pobre mas olhe que é de boa mente.

    Comi uma fatia de pão e queijo, bebi meio copo e no fim o "Afoga Pitas" espreitando à porta, volveu:

     - Pode ir menino, a costa está livre!

    A partir desse dia  o  "Afoga Pitas" e eu ficámos amigos. Ele passou a ser o meu "salvo conduto" para deambular à vontade pela Freguesia rival, mesmo sózinho, sem que ninguém ousasse tocar-me num fio de cabelo.

   Este estatuto, nem com o facto de ser filho do comandante de posto, havia conseguido. Fiquei então a saber que o "Afoga Pitas" era bem mais importante na vila, que o meu pai!

 

 



publicado por Manuel Maria às 21:13 | link do post | comentar

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