Sexta-feira, 28 de Setembro de 2007

 

 

 

 

No tempo em que a tia Teresa, filha das mais ilustres famílias caldenses e comunista retinta, vivia com a minha mulher, apareceram lá em casa, a “cravar” o jantar, os camaradas Carlos Carvalhas e Octávio Teixeira, vindos de uma extenuante reunião partidária na cidade.

Como não eram esperados, as mulheres da casa improvisaram como puderam o jantar: Fez-se uma comida macrobiótica, de que a tia é indefectível seguidora, cabendo à minha mulher a confecção do arroz, que recomendou aquela, devia «sair bem soltinho, como gostavam os camaradas».

Por inexperiência nas lides domésticas da minha mulher, éramos na altura recém-casados, o arroz não lhe saiu solto como a tia recomendara.

A travessa de barro, com aquele arroz “malandro”, deleitaria, pela sua singeleza rústica, o coração de um campónio e julgava a minha mulher, também o dos camaradas.

Estes lá abancaram resignados, perante a travessa do arroz, e o Octávio muito tempo, pensativamente esfregou com o guardanapo o garfo. Depois, desconfiado, provou uma garfada do dito, que era pastoso, como argamassa de cimento. Provou timidamente, e levantou para o Carvalhas, seu camarada de partido e aqui, de infortúnio culinário, uns olhos que luziam, surpreendidos. Afastou o arroz sub-repticiamente para um lado do prato e comeu somente os legumes e o peixe.

            À pergunta da minha mulher, se não havia apreciado o arroz, desculpou-se, muito polido:

            - Não, está óptimo! Eu é que não tinha fome.

            - Aliás, divino – corrigiu o Carvalhas, levando estoicamente uma garfada à boca -  assim em argamassa,  é um verdadeiro arroz proletário!

            E o Octávio, percebendo que estava em família, concordou:

- Precisamente no ponto para rebocar paredes!

            E rindo todos, o vinho caindo de alto, de finíssima jarra em vidro, um vinho gostoso, penetrante, vivo, quente, que tinha em si mais calor que o borralho da lareira, assim se jantou burguesmente naquela noite de Inverno, à volta de um arroz proletário, que foi inteirinho para o lixo.                                                   

 

 



publicado por Manuel Maria às 17:45 | link do post | comentar

3 comentários:
De ana a 3 de Outubro de 2007 às 14:19
Bem fazer um arroz não é brincadeira. Não é coisa de principiantes. Não fora a bem-humorada saída dos camaradas... estaria o "caldo entornado".


De Manuel Maria a 9 de Outubro de 2007 às 15:31
Sibéria com as cozinheiras!


De ana a 17 de Outubro de 2007 às 16:22
Nem mais: Gulag com elas!
Deixem o arroz ao "chapéu alto". É coisa de mestres...
Ou coisa de gente com imaginação e carinho, também.


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