Terça-feira, 18 de Setembro de 2007

 

 Foto provocatória de Luis Pacheco

 

 

Aqui fica o extracto de uma magnífica carta datada de 1965, de Luiz Pacheco, um dos maiores expoentes do nosso surrealismo, cheia de ironia e fraternidade a Mário de Cesariny (no tempo em que ainda se falavam), o qual se encontrava a viver em Londres com uma bolsa da Gulbenkian, em casa de Ricarte Dácio.

 

“Caldas da Rainha, 29 de Julho

 

Mano! Querido mano!

 

Hoje tive notícias tuas… pelo teu poema do “Diário de Notícias”-. Do princípio do mundo/até ao fim do mundo por cá está tudo na mesma. Dirás que temos um novo Presidente da República – mas não o achas tão parecido com o anterior e de mesmo com alguns da Dinastia Bragantina, D, João IV à cabeça?

Terás estranhado o meu silêncio, e muito depois da recepção, não esperada mas desejada, de um vale dos Restauradores, signé Dácio de Oliveira (miles) Digo-te que veio mesmo no fim. Nesse dia tinha eu ido à SECLA (fábrica de cerâmica nas Caldas onde Pacheco chegou a trabalhar)… e chego a casa mais emburrado que nunca e a minha tosca mostra-me o vele; até acabar, e acabou logo no dia seguinte, não parámos de semear dinheiro por credores caldenses, já um tanto desamparados de esperanças de verem o deles. Mas isto é lamúria; mudei muito de então para cá: ADERI AO ARTESANATO. Resolvi entrar na marabunda, usando as armas que vejo usar e fazendo o mesmo que os outros fazem, Agora sou um homem dividido, uma espécie de Dr. Jenkill e Mister Hyde; desfaço de noite o que fiz de dia (mito de Penélope caldense), aldrabo de dia o suficiente para ser eu de noite. Achas que isto se pode manter???! A ver vamos.

… Tenho andado preso com traduções (artesanato, Mano!) mas na iminência da chegada de outro membro da tribo – que queres que faça? Temo-nos abeirado demais da fome, real e sem pão, tomates com um azeite, ou óleo, de chicharro com oito dias de reserva (delicioso tomate e delicioso cheiro a peixe), para  nesta altura e  com agravames  certos a curto prazo poder estar a olhar para o lado. Traduzi agora em 15 dias um livro para a Ulisseia; traduzi uma peça para o Solnado… Do Nadeau não sei nada, nem o Vítor me disse nada…O meu livro continua à espera de A Nota do Autor Aos Quarenta Anos, já escrita em borrão e que saiu enorme, 100 págs. De máquina, 10.000 palavras, + ou -. Agora vê tu: O livro não sai por causa da Nota, a Nota (a nota a que se referia era o prefácio à antologia da poesia erótica, que insistentemente lhe pedia Vítor da Silva Tavares, da Ulisseia) não me sai por causa do artesanato. Círculo vicioso que os tomates com óleo de chicharro nem sempre chegam para aguentar ou furar. E depois…

Na última carta pedias-me para responder à penúltima. Em Junho, falavas do Nadeau, como atrás ficou dito nada sei e, por ora, tenho até a impressão que não devo ser eu a falar nisso. Aliás, a nova geração, a novíssima, já deitou unhas a esse filão: o Ramos Rosa (este homem persegue-nos!) traduziu para a presença um livro sobre surrealismo ( o art.º do cautela de ontem no JLA vem muito cortado – e ainda bem que é asneira que se farta) dum italiano não sei de quê.ini. (há muitos por lá com este nome, Gordini, Papini, etc.). de modo que se a Ulisseia não se apressa…

Aqui nas Caldas estarias bem, suponho (em relação a certas pessoas cartonadas ou cracházadas). Mas não comprometas, ou compromete mesmo se te apetecer a tua situação. Para o mais e o antes do resto, cá me tens. Se queres dinheiro, diz (há-de se arranjar). Se queres casa, diz (ainda cá cabes). E aquilo do tomate nem sempre é verdade: falei nisso porque basta que seja uma vez verdade, para eu já não gostar. E quem gostaria?

… Desculpa a minha carta que vai longa: mas começando a falar dou nisto. E para mais já não falava contigo à semanas. Vive o mais que possas. Pensa um pouco em mim. E tem um pouco de pena, quando essas névoas londrinas te pungirem deste sol de cá, (que o sol não é tudo) deste mano pró-caldense, tão lucidamente enrascado, que premeditadamente ainda se procura enrascar mais. Irão folhetos. Espalha pela Europa. As Coplas são de pé quebrado mas a raiva que vai nelas é toda inteirinha, dos pés à cabeça.”

          

(tirada do livro "Pacheco Versus Cesariny", editora manhosa!)

 



publicado por Manuel Maria às 10:22 | link do post | comentar

1 comentário:
De bruno a 10 de Outubro de 2007 às 15:51
É o Mário Alberto na foto, caralho! Qual Luiz Pacheco!


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